Quando os Estados Unidos se retiram de si mesmos


Os avanços ou retrocessos da história nem sempre se dão por ruptura externa, mas por deslocamento interno. Os Estados Unidos atravessam um desses momentos. E todos estamos sobressaltados. 

A questão já não é apenas Donald Trump, suas decisões ou seu estilo de poder. O que se observa é uma inflexão mais profunda. Um país que ajudou a estruturar a ordem internacional moderna começa a se afastar das bases que lhe deram centralidade.

Ao sair do Acordo de Paris, reduzir seu engajamento em organismos como a OMS e a OMC e esvaziar sua presença em fóruns como a COP30, Washington não apenas se descola de agendas específicas. Reposiciona-se diante do próprio sistema de um país que anunciou ser MAGA e se transformou numa megalópoles em protesto.

Esse movimento tem implicações que vão além da diplomacia tradicional. Ele atinge o núcleo da coordenação global.

No século XX, após duas guerras globais, o mundo ainda busca seu eixo na expectativa de um equilíbrio pacífico que se move aos solavancos. Um movimento imperfeito onde as instituições ajudam a evoluir no diapasão do multilateralismo diplomático. Avançamos na tecnologia mas tropeçamos na cidadania que padece a distribuição capenga das oportunidades e direitos. 

Mas o ponto central não é simplesmente a perda de uma liderança. É o fato de que o mundo já não comporta mais uma liderança concentrada nos moldes do pós-guerra. O que está em curso é uma transição ainda incompleta para um modelo de liderança compartilhada. 

A liderança compartilhada não surge automaticamente quando uma potência recua. Ela exige coordenação, densidade institucional e disposição política para construir consensos entre atores distintos. Sem isso, o que emerge não é compartilhamento, mas fragmentação.

União Europeia tenta sustentar protagonismo climático, mas enfrenta limitações internas. A China amplia sua presença global com pragmatismo estratégico. Blocos como os BRICS buscam reequilibrar o eixo de poder, ainda que carreguem assimetrias relevantes.

Estados Unidos
 Foto: Ricardo Stuckert/PR

E nesse mosaico, a ausência de um articulador consistente pesa mais do que a presença de múltiplos protagonistas.

É nesse contexto que a Amazônia deixa de ser apenas um tema ambiental e passa a ocupar uma posição geopolítica central.

A floresta depende de uma engrenagem internacional sofisticada. Financiamento climático, mercados de carbono, compromissos de descarbonização, padrões ESG e pressão diplomática coordenada. Tudo isso requer alinhamento entre Estados, instituições e mercado.

A ausência na COP30, realizada em Belém, simboliza mais do que um gesto diplomático. Representa a retirada de um vetor histórico de articulação em um momento em que a governança climática exige maior, e não menor, densidade política.

Em um cenário de liderança compartilhada estruturada, a Amazônia poderia se beneficiar. Diversificação de parceiros, ampliação de fontes de financiamento, maior autonomia estratégica do Brasil, valorização de ativos ambientais em diferentes mercados.

O que se observa é uma transição desordenada, na qual compromissos são relativizados, padrões são tensionados e interesses imediatos ganham espaço sobre estratégias de longo prazo.

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(Foto: Bruno Cecim / Agência Pará).

Projetos de bioeconomia tornam-se mais vulneráveis. Investimentos em conservação perdem previsibilidade. A pressão internacional por redução do desmatamento oscila. E a narrativa da sustentabilidade como vantagem competitiva enfrenta um ambiente menos favorável.

Os Estados Unidos sempre exerceram influência não apenas por seu poder econômico ou militar, mas por sua institucionalidade. A ideia de que regras funcionam, mesmo sob tensão, foi um dos pilares de sua legitimidade global.

Movimentos recentes de aproximação e sinalização política em relação ao Brasil, com indícios de tentativa de interferência no ambiente político-eleitoral, indicam uma mudança qualitativa. A política externa passa a operar menos por instituições e mais por alinhamentos diretos.

É nesse ponto que a lógica do poder pessoal ganha espaço sobre a lógica republicana.

A ideia de que o Estado se confunde com a vontade do líder deixa de ser uma figura de linguagem histórica e passa a encontrar ressonância no presente.

Outras democracias passam a conviver com pressões externas mais explícitas. A soberania torna-se mais permeável. E o próprio conceito de democracia se desloca, deixando de ser um método institucional para se tornar campo de disputa permanente.

Perdem os Estados Unidos, que deixam de exercer liderança articuladora e passam a operar de forma mais isolada. Perde a diplomacia, substituída por relações mais transacionais. Perde o multilateralismo, esvaziado em sua capacidade de coordenação.

Perde o clima, diante da fragmentação das respostas globais. Perde a agenda ESG, que depende de sinalização política consistente para orientar decisões de investimento.

Perde a democracia, tensionada por dentro e pressionada por fora. E perde, sobretudo, a possibilidade de construção de uma ordem internacional baseada em cooperação.

Os Estados Unidos não estão apenas se retirando de acordos. Estão se afastando de um papel histórico que ajudaram a construir. Estão se retirando de si mesmos.  E o mundo que emerge dessa retirada ainda não encontrou sua forma e eixo à luz  da desestruturação institucional diplomática, civilizacional em curso.

Entre a liderança que se dissolve e o compartilhamento que ainda não se organiza, abre-se um intervalo de incerteza.

É nesse intervalo que se concentram os maiores riscos. E também, paradoxalmente, as maiores responsabilidades. Para países como o Brasil, esse não é apenas um momento de reação. É um momento de definição.

A Amazônia, nesse cenário, deixa de ser periferia e assume condição de eixo. Não apenas ambiental, mas político, econômico e civilizatório. O desafio já não é escolher entre liderar ou seguir.

É saber se o país será capaz de operar em um mundo onde liderar significa, antes de tudo, construir saídas, ou sucumbir ao caos.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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