Economia brasileira ainda escolhe desmatamento a floresta em pé

Dados mostram que a floresta em pé oferece mais valor climático e produtivo, mas políticas públicas e mercado ainda favorecem a conversão de áreas naturais em pasto e commodities. 

Quanto vale, no Brasil, uma árvore em pé? No mercado, uma árvore derrubada pode se transformar em madeira, carvão ou área aberta para pasto, gerando lucro imediato. Já uma árvore em pé regula o clima, armazena carbono, sustenta os ciclos de chuva, pode dar origem a diversas cadeias produtivas da bioeconomia e abriga uma biodiversidade imensa. Ainda assim, esse segundo valor raramente é incorporado à lógica econômica.

Um estudo do Climate Policy Initiative (CPI), em parceria com a PUC-Rio, identificou que quase R$ 206 bilhões em crédito rural subsidiado foram concedidos a propriedades com histórico de desmatamento no Brasil entre 2020 e 2024. O levantamento também aponta que os bancos públicos estão entre os principais financiadores dessas áreas.

Os dados ajudam a explicar por que, mesmo diante da crise climática, uma floresta pode valer mais depois de desmatada do que preservada dentro do sistema econômico brasileiro. É nesse desequilíbrio que se sustenta uma das principais engrenagens do desmatamento no país e que evidencia a urgência de repensar como o valor das florestas é reconhecido.

Imagem aérea mostra caminhões carregados com toras de madeira em área de desmatamento na Amazônia, evidenciando a exploração ilegal e a perda de floresta em pé.
Foto: Polícia Federal/AM

Expansão do setor florestal não se traduz em valorização da floresta em pé

O mercado brasileiro, em sua maioria, ainda recompensa mais a derrubada do que a preservação das florestas. Em 2024, a produção econômica ligada ao setor florestal, que inclui tanto áreas naturais quanto plantadas, movimentou R$ 44,3 bilhões, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O setor teve um crescimento de 140% em 5 anos. 

Apesar da relevância econômica, a maior parte dessa produção não vem das florestas nativas. O levantamento mostra que cerca de 84% do valor gerado é proveniente da silvicultura, ou seja, do cultivo de árvores em áreas plantadas. Já o extrativismo vegetal, realizado em florestas naturais, responde por apenas 15,9% (R$ 7 bilhões). Desde o fim da década de 1990, a produção oriunda de florestas plantadas supera a extração em áreas nativas.

A silvicultura funciona como uma espécie de agricultura de árvores. Nesse modelo, espécies como eucalipto e pinus são cultivadas de forma planejada, geralmente em larga escala, com objetivos econômicos bem definidos, como a produção de madeira, papel e celulose, carvão vegetal, biomassa para energia e insumos para a construção civil. Já o extrativismo vegetal refere-se à retirada de produtos diretamente de ecossistemas naturais, como florestas e matas, podendo incluir desde madeira até frutos, óleos e outros recursos.

Plantação de eucalipto em sistema de silvicultura no Brasil, com árvores alinhadas para produção de madeira, contrastando com a floresta em pé nativa.
Área de silvicultura com cultivo de eucalipto destinada à produção de madeira; modelo produtivo difere da floresta em pé, que oferece serviços ambientais mais complexos. Foto: Estadão

Nem toda extração em áreas naturais é ilegal, existem formas regulamentadas de exploração florestal, baseadas em manejo sustentável. No entanto, a atividade ilegal ainda representa uma parcela significativa do setor, especialmente em regiões como a Amazônia, onde a fiscalização enfrenta desafios estruturais.

Além da exploração madeireira, a derrubada de árvores também está fortemente associada à expansão da agropecuária. Na Amazônia, mais de 90% das áreas desmatadas têm como primeiro uso a formação de pastagens, evidenciando a pressão exercida pela pecuária sobre o bioma. Esse processo reforça uma lógica econômica em que a floresta em pé tem menor valor.

Área de pasto com gado em região desmatada da Amazônia, mostrando a substituição da floresta em pé pela pecuária.
Foto: Christian Braga/Greenpeace

Nesse contexto, a dinâmica do setor florestal brasileiro expõe um desequilíbrio estrutural: embora as florestas gerem bilhões em riqueza, o sistema econômico continua privilegiando modelos que dependem da substituição da vegetação nativa, em vez de valorizar sua conservação. É importante reforçar que apesar da relevância econômica da silvicultura, a prática não substitui os serviços ecossistêmicos complexos fornecidos pelas florestas naturais.

O “concreto do futuro” já existe e vem das árvores

Uma das principais inovações que permite agregar valor às florestas sem depender da sua destruição é a madeira engenheirada, com destaque para o Cross Laminated Timber (CLT), ou madeira lamelada colada cruzada.

Essa tecnologia surge como alternativa mais sustentável para a construção civil, um setor intensivo em emissões de carbono. Diferente de materiais como concreto e aço, a madeira captura carbono durante o crescimento da árvore e o mantém armazenado na estrutura das edificações, contribuindo para um balanço climático mais favorável.

Conhecido como o “concreto do futuro”, o CLT combina alta resistência com bom desempenho em situações de fogo e umidade, desafiando antigos preconceitos sobre construções em madeira. No Brasil, o Edifício Amata, ainda em projeto em São Paulo, é um dos exemplos que demonstram a viabilidade da tecnologia.

Projeto do Edifício Amata em São Paulo, construção em madeira engenheirada (CLT), exemplo de uso sustentável de recursos florestais sem substituir a floresta em pé.
Foto: ARQA – AMATA

Embora o custo direto da madeira engenheirada possa ser superior ao do concreto, a análise completa mostra vantagens relevantes. Construções em CLT podem ser até duas vezes mais rápidas, reduzindo custos indiretos com mão de obra, tempo de obra e financiamento, o que torna o modelo competitivo no longo prazo.

Crédito, lei e terra: a engrenagem que sustenta o desmatamento

As florestas prestam serviços ecossistêmicos essenciais, elas regulam o clima, mantêm o ciclo das chuvas e sustentam a produtividade agrícola, mas esse valor segue pouco refletido nas decisões econômicas.

No Brasil, a própria estrutura de governança ajuda a reforçar esse desequilíbrio. Bilhões em crédito rural são destinados a propriedades com histórico de desmatamento, operando em muitos casos como capital para expandir a conversão de áreas naturais. Entre 2020 e 2024, bancos públicos lideraram esse financiamento, a instituição que teve maior porcentagem de crédito subsidiado a propriedades com desmate foi o Banco da Amazônia (BASA), com 71%. 

O monitoramento também apresenta fragilidades. Embora o Cadastro Ambiental Rural (CAR) seja a principal ferramenta de controle, seu caráter autodeclaratório e a lentidão na validação permitem distorções. Na prática, uma parcela mínima das áreas desmatadas é efetivamente embargada, o que mantém propriedades irregulares aptas a acessar recursos públicos.

Na Amazônia, o desmatamento vai além da produção agropecuária e se insere em uma lógica de valorização fundiária. Áreas públicas são ocupadas, desmatadas para comprovar uso e, posteriormente, regularizadas e revendidas por valores mais altos. As chamadas Florestas Públicas Não Destinadas, que somam cerca de 56 milhões de hectares, tornaram-se o principal alvo dessa dinâmica.

O sistema tributário também contribui para esse cenário. O Imposto Territorial Rural (ITR), ao mesmo tempo em que busca penalizar terras improdutivas, apresenta brechas que permitem classificar áreas recém-desmatadas como produtivas, reduzindo a carga tributária. Além disso, atividades de conservação ambiental seguem pouco reconhecidas como uso econômico da terra. 

Fachada do Banco da Amazônia (BASA), instituição financeira pública ligada ao financiamento na região amazônica, com impacto sobre a floresta em pé.
Fachada do Banco da Amazônia (BASA). Foto: Associação dos Empregados do Banco da Amazônia

Bioeconomia: o caminho para valorizar a floresta em pé

Se o modelo econômico dominante ainda trata a floresta derrubada como ativo estratégico, a bioeconomia propõe inverter essa lógica: gerar valor a partir da floresta em pé. Baseada no uso sustentável da biodiversidade, a bioeconomia articula conhecimento tradicional e inovação para desenvolver cadeias produtivas que dependem da integridade do bioma. 

Diferentemente da monocultura e da pecuária extensiva, esse modelo se apoia na diversidade de produtos e na regeneração dos recursos naturais. Na prática, isso inclui alimentos como açaí, castanha-do-Pará e cupuaçu, além de insumos para as indústrias cosmética e farmacêutica, como óleos de andiroba, buriti e patauá. Ao contrário da madeira, que exige décadas para reposição, muitos desses produtos permitem colheitas regulares sem a derrubada das árvores, mantendo a floresta funcional.

Os dados indicam que esse modelo é economicamente competitivo. Sistemas baseados na floresta em pé podem gerar até 7 vezes mais lucro que a pecuária e empregar quarenta vezes mais pessoas do que a soja. Além disso, os investimentos em bioeconomia têm efeito multiplicador, impulsionando diferentes setores da economia. Estima-se que para cada cada R$ 1,00 investido, há o retorno de R$ 1,14 em produção, R$ 1,27 para a indústria e R$ 1,40 para o comércio.

Outro elemento central é a bioindustrialização local, ou seja, o processamento de ativos dentro das próprias comunidades. Essa estratégia amplia o valor agregado dos produtos, reduz a dependência da exportação de matéria-prima bruta e fortalece economias regionais.

Trabalhador coleta castanha-do-pará em área de floresta em pé na Amazônia, atividade ligada à bioeconomia e ao uso sustentável dos recursos naturais.
Coleta de castanha-do-pará na Amazônia mostra como a bioeconomia pode gerar renda mantendo a floresta em pé e valorizando produtos da sociobiodiversidade. Foto: Maurício Paiva.

Tecnologias emergentes também começam a integrar essa cadeia. Sistemas de rastreabilidade, como o uso de blockchain, permitem garantir a origem sustentável dos produtos, enquanto avanços em biotecnologia ampliam o potencial de uso da biodiversidade, ainda pouco explorada. 

Apesar do potencial, a bioeconomia ainda enfrenta barreiras importantes. Gargalos logísticos, falta de infraestrutura, acesso limitado a mercados e um ambiente regulatório que favorece atividades tradicionais dificultam sua expansão. O Brasil, por exemplo, segue exportando majoritariamente commodities de baixo valor agregado, enquanto importa produtos biotecnológicos de maior valor.

Ainda assim, a Amazônia reúne uma das maiores biodiversidades do planeta e, com ela, uma oportunidade estratégica. Mais do que uma alternativa ambiental, a bioeconomia se apresenta como um caminho econômico capaz de alinhar geração de renda e desenvolvimento regional, enquanto mantém a floresta em pé. 

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Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A disputa em torno das árvores revela escolhas econômicas fundamentais. Enquanto o sistema de governança e economia continuar premiando a conversão da floresta em ativos de curto prazo, o desmatamento seguirá sendo uma opção competitiva. Reverter essa lógica exige incorporar o valor real dos serviços ecossistêmicos, redirecionar incentivos e consolidar modelos como a bioeconomia, capazes de transformar a floresta em pé em fonte de riqueza. Mais do que preservar as árvores, trata-se de redefinir o que a economia reconhece como valor.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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