“A desigualdade regional e o tratamento de segunda ao Norte do Brasil”

“O Norte, em particular o Amazonas, deve ser reconhecido por sua importância estratégica para o país, não apenas em termos de biodiversidade, mas também como um polo industrial e econômico que, se adequadamente incentivado, pode contribuir significativamente para o crescimento nacional. No entanto, enquanto o Sul e o Sudeste continuarem a receber um tratamento privilegiado, perpetuando uma visão de que o Norte é uma região de segunda classe, essa desigualdade regional permanecerá, prejudicando não só o Amazonas, mas o país como um todo.”

A narrativa econômica brasileira muitas vezes mascara ou ignora as profundas desigualdades regionais que permeiam o país. De norte a sul, a realidade socioeconômica muda drasticamente, criando não apenas distorções econômicas, mas também uma percepção de que certas regiões, como o Norte, são tratadas como cidadãs de segunda classe. A disparidade nos investimentos industriais e na concessão de benefícios fiscais entre estados como São Paulo e Amazonas é um exemplo gritante dessa divisão.

Concentração industrial: uma realidade distante para o Norte

São Paulo, a locomotiva econômica do país, concentra cerca de 30% dos estabelecimentos industriais, enquanto o Amazonas, um dos estados mais empobrecidos, conta com apenas 0,6%. Esse dado evidencia a diferença abismal entre as regiões, onde a infraestrutura, os incentivos governamentais e o acesso ao capital colocam o Sul e Sudeste à frente no desenvolvimento industrial, relegando o Norte a uma posição de extrema dependência do modelo da Zona Franca de Manaus (ZFM).

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Guerra Fiscal: Dois Pesos, Duas Medidas

Um exemplo claro dessa desigualdade é a forma como os benefícios fiscais são percebidos e tratados pela mídia e pelo público. Enquanto a Zona Franca de Manaus, que oferece incentivos fiscais há décadas, é constantemente demonizada pela imprensa, acusada de fomentar uma guerra fiscal entre estados, as recentes medidas do governo de São Paulo de ampliar créditos de ICMS para montadoras de veículos são vistas como estímulos à competitividade e à sustentabilidade.

Se fosse no Amazonas, a manchete seria algo como “Amazonas concede mais benefícios fiscais, ampliando a guerra fiscal”, mas como é do interesse do Sul e Sudeste, a narrativa é favorável, apresentando São Paulo como um estado que apoia a competitividade industrial e o desenvolvimento sustentável.

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Guerra Fiscal

Essa dupla moral é um reflexo do tratamento desigual que diferentes regiões do país recebem. São Paulo, com sua base industrial consolidada e seu poder político e econômico, é favorecida em políticas públicas e na percepção popular, enquanto o Amazonas, dependente dos incentivos da ZFM, é visto como uma exceção fiscal que precisa ser corrigida. Essa distorção ignora o fato de que a Zona Franca é essencial para a preservação da floresta e para a geração de empregos em uma das regiões mais vulneráveis do Brasil.

https://brasilamazoniaagora.com.br/2024/vazante-infraestrutura-amazonia/

Zona Franca de Manaus: um modelo de acertos sob ataque

A ZFM, frequentemente atacada por jornalistas e economistas do Sul e Sudeste, tem sido vital para o desenvolvimento da Amazônia. Além de atrair indústrias para a região, contribui para a preservação de vastas áreas de floresta, garantindo um desenvolvimento sustentável que leva em consideração as particularidades ecológicas e sociais do Amazonas. No entanto, a narrativa dominante, muitas vezes influenciada por interesses que preferem ver a concentração de investimentos no Sudeste, coloca a ZFM como vilã de uma guerra fiscal, ignorando que a lógica por trás dos incentivos fiscais em São Paulo é exatamente a mesma.

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Foto divulgação

Competitividade e Sustentabilidade: Para Quem?

A recente ampliação dos créditos de ICMS para montadoras de veículos em São Paulo, como relatado em uma matéria do *Contábeis* , é apresentada como uma medida positiva que visa aumentar a competitividade do setor automotivo e estimular o desenvolvimento sustentável da região. No entanto, essa narrativa não se aplica ao Amazonas. Quando o estado concede benefícios fiscais, é acusado de distorcer a competição entre estados, alimentando uma guerra fiscal.

A disparidade no tratamento não só prejudica a imagem do Amazonas, mas também desvaloriza os esforços da região em manter um modelo econômico que equilibre desenvolvimento e preservação ambiental

O Norte Merece Mais

O Brasil não pode continuar a alimentar uma visão desequilibrada de seu desenvolvimento regional. O Norte, em particular o Amazonas, deve ser reconhecido por sua importância estratégica para o país, não apenas em termos de biodiversidade, mas também como um polo industrial e econômico que, se adequadamente incentivado, pode contribuir significativamente para o crescimento nacional. No entanto, enquanto o Sul e o Sudeste continuarem a receber um tratamento privilegiado, perpetuando uma visão de que o Norte é uma região de segunda classe, essas desigualdades regionais permanecerão, prejudicando não só o Amazonas, mas o país como um todo.

Belmiro Vianez Filho é empresário do comércio, ex-presidente da ACA e colunista do portal BrasilAmazôniaAgora e Jornal do Commércio

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Redação BAA
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