A democracia não morre de um tiro: ela sangra com disseminação de boatos

Por isso, combater a desinformação é a melhor forma de defender a democracia” A democracia é um organismo de confiança. Não é perfeita, não é sagrada, não é infalível — mas é o único arranjo civilizatório que admite ser contestado sem exigir sangue como prova de convicção. Quando funciona, ela nos dá algo raro: a possibilidade de errar em público, corrigir em público e seguir vivendo juntos apesar do desacordo.

Não se trata apenas de mentiras. Mentiras sempre existiram. O que muda, hoje, é o modo industrial com que elas são produzidas, embaladas e distribuídas — e o fato de que, ao contrário do jornalismo (que responde por seus erros), a desinformação não pede desculpas, não publica retratação, não aceita contestação. Ela é uma máquina: quanto mais é desmentida, mais se alimenta do conflito que cria.

A desinformação é o parasita moderno: vive da energia do corpo social, enquanto o enfraquece.

O cidadão comum não nasce especialista em economia, saúde pública, meio ambiente, segurança ou direito. Ninguém nasce. A democracia, justamente, foi desenhada para que a ignorância humana — que é natural — não seja convertida em tirania. Para isso, ela depende de mediações: instituições, regras, debate, imprensa livre, ciência, contraditório.

A desinformação entra nesse ecossistema como um ácido. Ela corrói o terreno básico onde qualquer divergência poderia ser resolvida: o terreno dos fatos.

Sem fatos, sobra o quê? Sobra torcida. Sobra fé cega. Sobra a guerra de versões, onde a realidade é apenas uma opinião mais barulhenta.

DEMOCRACIA
Imagem criada por IA

E quando a realidade vira disputa de gritos, a política deixa de ser escolha e passa a ser fanatismo.

É assim que se instala, com aparência de normalidade, uma espécie de governo subterrâneo: não o governo eleito, mas o governo das narrativas falsas — que começam como boatos e acabam como leis do comportamento coletivo.

Há um equívoco comum: imaginar que a mentira circula apenas para “ganhar a discussão”. Não. A mentira moderna não quer apenas ganhar; ela quer destruir a possibilidade de discutir.

Seu objetivo é fabricar um povo cansado, descrente, confuso. Um povo que diga: “ninguém sabe de nada”, “todo mundo mente”, “tanto faz”. Porque o “tanto faz” é o estado ideal para quem quer dominar sem ser questionado.

A desinformação tem um projeto: diluir a verdade até que a mentira pareça apenas “mais uma versão”.

Quando isso acontece, não se derruba apenas um adversário político; derruba-se um valor civilizatório: a confiança de que existe um mínimo de realidade compartilhada.

E sem realidade compartilhada, a democracia vira uma vitrine: bonita por fora, vazia por dentro.

Não adianta fingir que estamos diante de um fenômeno simples. O ser humano é emocional por natureza. Ele reage antes de verificar. Ele compartilha antes de duvidar. Ele escolhe tribo antes de escolher argumento.

As plataformas digitais descobriram isso cedo — e transformaram o comportamento humano em combustível: indignação, medo, escândalo, ódio, ressentimento. É o cardápio perfeito para a desinformação, que não precisa ser sofisticada: precisa ser impactante.

A mentira não concorre com a verdade em qualidade; concorre em velocidade.

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Imagem: Getty Images

A verdade é, quase sempre, mais lenta: exige apuração, contexto, nuance. A mentira pode ser instantânea: basta um título agressivo, uma imagem fora de contexto e a frase fatal que promete revelar “o que eles não querem que você saiba”.

O resultado é trágico: o cidadão passa a viver numa enxurrada de “revelações” diárias — e o mundo vira um teatro de urgências falsas.

A democracia, nesse cenário, não perde porque é fraca. Ela perde porque o tempo de reflexão é sequestrado.

A democracia pressupõe algo que dá trabalho: o direito de discordar sem desumanizar. O contraditório, quando é saudável, é um método de busca: cada lado testa limites, argumentos, soluções. No fim, mesmo sem consenso, preserva-se a convivência.

A desinformação quebra isso. Ela fabrica inimigos.

Não basta dizer que alguém errou; é preciso dizer que alguém é criminoso, traidor, monstro, ameaça, “anti-povo”. Não basta criticar políticas; é preciso humilhar pessoas. Não basta discutir ideias; é preciso destruir reputações.

A desinformação não debate: execra. Não esclarece: incendeia.

E uma sociedade que troca debate por linchamento está apenas ensaiando, sem perceber, a coreografia da barbárie.

A frase que abre este texto — “combater a desinformação é a melhor forma de defender a democracia” — é mais do que um slogan. É um princípio de sobrevivência coletiva.

Porque o voto é uma decisão moral e racional. E ninguém decide livremente quando está sob manipulação.

Desinformação é uma forma de fraude social: ela altera o ambiente onde a escolha é feita. Não precisa adulterar urna; basta adulterar a mente do eleitor com pânico, fantasia, teoria conspiratória e certezas fabricadas.

Quem combate a desinformação, portanto, não está “tomando partido”. Está defendendo algo mais básico: o direito do povo de ser povo, e não massa de manobra.

É preciso dizer com todas as letras: defender a democracia não é pedir mordaça. É pedir responsabilidade.

Liberdade de expressão não é licença para destruir a vida pública com mentiras calculadas.

A sociedade adulta entende isso em qualquer área: liberdade de dirigir não é liberdade de atropelar; liberdade de empreender não é liberdade de fraudar; liberdade de ensinar não é liberdade de doutrinar com falsidade.

Na esfera informacional, o mesmo vale: liberdade de falar não pode ser liberdade de sabotar deliberadamente a confiança pública.

Antes de compartilhar algo, o cidadão deveria se fazer uma pergunta que vale como filtro moral:

“Eu tenho certeza — ou eu estou apenas com vontade de acreditar?”

A desinformação prospera no desejo. Ela oferece ao indivíduo um presente emocional: a sensação de estar “mais informado que os outros”, de ter acesso ao bastidor, de possuir a chave secreta do mundo. É uma tentação narcísica. Pura patologia emocional.

Mas a democracia exige humildade: a humildade de dizer “não sei”, de verificar, de ouvir o contraditório, de aceitar correção.

A democracia, em última instância, depende de um gesto cotidiano: a coragem de preferir a verdade à vaidade.

O inimigo da democracia não é apenas a violência explícita. É a corrosão silenciosa. É a dúvida plantada. É o cansaço fabricado. É o cinismo programado. É o “tanto faz” como filosofia nacional.

A desinformação é isso: um projeto de exaustão coletiva.

Por isso, combatê-la é defender a democracia no nível mais concreto: no nível do cotidiano, do grupo de mensagens, da timeline, da conversa no almoço, da frase repetida sem checagem, do vídeo recortado, do título mentiroso.

A democracia não pede heroísmo o tempo todo. Mas pede caráter informacional: o compromisso mínimo com o real.

E, neste tempo em que a mentira virou método, o real virou resistência.

Belmiro Vianez Filho
Belmiro Vianez Filho
Empresário do comércio, ex-presidente da ACA e colunista do portal BrasilAmazôniaAgora e Jornal do Commercio.

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