Democracia, o exercício insistente e urgente da interlocução

“As vantagens competitivas assinaladas na Carta Magna não mencionam IPI e sim contrapartida fiscal para quem investe em regiões remotas, como a Amazônia, ajudando a gerar empregos, oportunidades e proteção ambiental. Afinal, proteger um bem natural é atribuir-lhe finalidade ao mesmo tempo econômica e sustentável.”

Por Alfredo Lopes
______________

Para os males da Democracia, o melhor remédio é aumentar a dose de Democracia. E em caso de dúvidas, o manual de instruções – a Constituição Brasileira – deve estar sempre aberto e à mão, sob os rigores do bem comum e da insistente interlocução. Qualquer outra saída será sempre uma afronta à Lei. A respeito da tal Constituição, disse Ulisses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional, ao proclamar a Constituição do Brasil em 5 outubro de 1988:  “Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca”. 

É preciso, portanto, ser rigoroso na investigação dos acontecimentos criminosos de 8 de janeiro último, sem revanchismo, muito menos acomodação. É, pois, de extrema importância assegurar o funcionamento transparente e persistente das instituições do Estado de Direito, para que o país seja guiado pelo interesse público, objetivo central e razão de suas prioridades e propósitos, focado sempre nos direitos civis. Afinal, os direitos da população são a melhor tradução da Democracia em suas múltiplas dimensões e movimentos.

invasao brasilia agencia brasil credito widelg
Ataque Criminoso ao três poderes – Credito widelg/ Agência Brasil

Nesse cenário, na busca de resguardo dos direitos consignados pela Carta Magna, foi anunciada, ainda para este semestre, a realização da reforma fiscal, um exercício urgente para assegurar direitos e responsabilidades  do tecido social e atribuições do aparato governamental. “A reforma tributária não é do governo, nem da oposição, é do país. É senso comum que precisamos sair desse cipoal tributário, temos um verdadeiro manicômio tributário”, disse Geraldo Alckmin, vice-presidente da República e ministro da Indústria, Comercio e Serviços, na visita à FIESP, nesta semana, para alinhar com as empresas seus planos de gestão.

E, em se tratando de reforma fiscal, cabe indagar: é justo que Estados como o Amazonas, com os piores IDHs do país, seja o quinto maior contribuinte da Receita Federal do Brasil? Ou que um consumidor de pão e leite do município de  Itaipava do Maranhão – um dos 10 municípios daquele estado situado entre os 10 mais pobres do país – pague o mesmo imposto que um cliente nos requintados mercados do Jardim Europa, na capital paulista? Esta pergunta já foi feita ao ministro Alckmin, da Indústria e Comércio, que também é vice-presidente da República.

E quem é Geraldo Alckmin? Ele governou São Paulo em quatro mandatos, é paulista do Vale do Paraíba, médico, católico das antigas e, em seu currículo, como deputado constituinte, alguns destaques: foi relator  da inserção do SUS, Serviço Único de Saúde na Constituição, e é de sua autoria projeto-de-lei que criou o Código de Defesa do Consumidor. Itens de uma biografia, no mínimo, invejável. Convidado por Lula para disputar a presidência, ambos foram eleitos por uma frente ampla e pluripartidária de defesa da Democracia. Ambos reafirmaram na campanha eleitoral o reconhecimento e a manutenção da ZFM, o acertado programa de redução das desigualdades entre o Norte e o Sul do Brasil.

Democracia
Presidente Lula e vice Geraldo Alckmin – Ricardo Stuckert/PT

Por isso, não há razão até aqui para desconfiar que o aceno de Alckmin pela extinção do IPI signifique o alardeado esvaziamento do Polo Industrial de Manaus.

As vantagens competitivas assinaladas na Carta Magna não mencionam IPI e sim contrapartida fiscal para quem aqui investe em regiões remotas como a Amazônia, ajudando a gerar empregos, oportunidades e proteção florestal. Afinal, a melhor maneira de proteger um bem natural é atribuir-lhe finalidade, ao mesmo tempo, econômica e sustentável. 

Entretanto, esse resguardo constitucional não quer dizer que ficaremos na expectativa das decisões que inevitavelmente virão. E estes momentos são os mais adequados para aferir a coerência entre narrativas e tratativas da ação pública. O Brasil não acaba em Minas Gerais como muitos nos levam a crer.  

E pelas dificuldades que se prenunciam, já estamos mais atentos aos encaminhamento dos direitos de cada setor, região, ou estrato social. Temos que ter claro o que o Brasil precisa priorizar na Amazônia como também precisamos dizer o que a Amazônia tem a contribuir com o Brasil. É nesse contexto que damos boas vindas ao ministro Alckmin em sua imersão na indústria que busca compatibilizar economia e ecologia. 

b2ap3 medium e7cfa0f45c1a1a4d24db9305cd6df80f
Foto: Reprodução/Pinterest

Quando assumiu o novo MDIC, em 4 de Janeiro último, Alckmin tratou de nomear seu arco de produção do desenvolvimento integral e integrado: “…Apex, Inmetro, ABTI, Suframa, INPI, BNDES e Sebrae, orquestrados para o grande e inovador programa de reindustrialização, de expansão do comércio e de fortalecimento dos serviços no Brasil.”.

Por isso, não faz sentido traduzir reforma fiscal como sangramento do programa ZFM de redução das desigualdades. Muito pelo contrário, a pauta do momento é afirmação dos direitos, equalização de oportunidades e responsabilidades com definições claras  das contribuições de cada setor para o país retomar seu crescimento. Ou seja,  há que se atender as demandas sociais, econômicas e ambientais da população brasileira, no embalo da urgente afirmação democrática, nossa bússola e referência da pacificação civilização do Brasil. 

IMG 9374
Alfredo é escritor e editor geral do portal BrasilAmazoniaAgora
Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

A insensatez de incendiar a floresta que abastece o Brasil

Com a chuva gerada pela Amazônia avaliada em mais...

Desmatamento na Amazônia atinge menor nível em 41 anos, aponta MapBiomas

Desmatamento na Amazônia cai ao menor nível em 41 anos, com 693 mil hectares perdidos em 2025, aponta MapBiomas.

Incêndios no Amazonas: Abin entra na investigação para apurar suspeita de ação organizada

Ministro aponta suspeita de ação organizada nos incêndios no Amazonas. Força-tarefa abre 120 procedimentos para investigar possíveis crimes.

Promessa de Flávio Bolsonaro contra desmatamento contrasta com atuação no Senado

Flávio Bolsonaro promete zerar o desmatamento ilegal até 2029, mas apoiou e promoveu medidas que reduzem a proteção ambiental.

As miragens de Trump e a conta para o Brasil

"Os Estados Unidos acumulam uma década de superávits comerciais...