“… que mundo estamos dispostos a aceitar como referência moral. Se a democracia que se dizia exemplar começa a flertar com seus fantasmas mais sombrios, cabe aos demais não imitar, não silenciar e, sobretudo, não normalizar”.
Que país é esse que se apresenta ao mundo como farol da democracia liberal, guardião das liberdades civis e árbitro moral da ordem internacional — mas cujo presidente recorre, sem pudor, ao mais degradante repertório do racismo histórico para atacar adversários políticos?
A pergunta não é civilizacional
Quando o chefe de Estado de uma nação que construiu sua hegemonia discursiva sobre os valores da igualdade, dos direitos humanos e da dignidade da pessoa humana publica — ainda que por instantes — uma representação racista que animaliza pessoas negras, o gesto não pode ser tratado como deslize, provocação ou humor fora de tom. Em um plano mais profundo, ele revela uma fratura ética no coração da democracia que se julgava madura.
Não se trata de um meme isolado
Trata-se de um arquivo simbólico antigo, reativado com naturalidade perturbadora. A associação entre pessoas negras e animais foi, por séculos, instrumento de dominação, escravidão, segregação e violência. Não é linguagem neutra. Nunca foi. É uma tecnologia de desumanização cuidadosamente construída ao longo da história colonial.
O que muda, agora, não é o conteúdo, é o lugar de onde ele emana. Quando essa linguagem emerge do topo do poder institucional, ela deixa de ser ruído marginal e passa a operar como sinal político.
O episódio expõe também uma nova engrenagem da erosão democrática contemporânea: o uso deliberado da cultura digital como arma política. O meme não busca convencer; busca desestabilizar. Não propõe debate; testa limites. Publica-se, observa-se a reação, mede-se o silêncio, relativiza-se a indignação, apaga-se o rastro. O dano simbólico, porém, já foi consumado.
Democracias não colapsam apenas por golpes explícitos. Elas apodrecem quando perdem o pudor moral. Quando o riso substitui a responsabilidade, quando a humilhação vira método, quando a dignidade humana se torna matéria-prima para engajamento político.
A pergunta, então, retorna com mais peso: que país é esse, afinal?
É um país que preserva os ritos eleitorais, mas fragiliza os fundamentos éticos da convivência democrática. Um país tecnologicamente avançado, mas moralmente permissivo. Uma democracia formal que começa a rir de si mesma — e, ao fazê-lo, abre espaço para a normalização do inaceitável.
O impacto desse gesto não se limita às fronteiras nacionais. Ele ecoa globalmente. Quando a principal potência do sistema internacional relativiza o racismo em nome da provocação política, envia ao mundo uma mensagem perigosa: os valores universais são condicionais; a dignidade humana tem exceções; a civilização liberal possui cláusulas ocultas.
Para o Sul Global, para países historicamente tutelados, para povos originários, populações racializadas e territórios explorados, o recado é cristalino. A autoridade moral do Norte, tantas vezes invocada para impor modelos, condicionalidades e julgamentos, revela-se frágil, seletiva e profundamente contraditória.
No caso brasileiro — e amazônico em particular — essa contradição assume contornos ainda mais graves. Não há legitimidade para pregar sustentabilidade, democracia ou direitos humanos enquanto se tolera, no centro do poder, a desumanização racial. Não há discurso ambiental consistente que sobreviva à corrosão ética.
A floresta em pé exige povos em pé. E povos em pé exigem dignidade inegociável.
Talvez a pergunta mais honesta não seja apenas “que país é esse?”, mas que mundo estamos dispostos a aceitar como referência moral. Se a democracia que se dizia exemplar começa a flertar com seus fantasmas mais sombrios, cabe aos demais não imitar, não silenciar e, sobretudo, não normalizar.
Porque civilização não se mede pela retórica que se exporta, mas pelos limites éticos que se preservam — especialmente quando o poder poderia violá-los impunemente.
E é justamente aí que a pergunta permanece, incômoda e necessária:
que país é esse, afinal?
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