Estudo detecta microplásticos em tumores de próstata enquanto relatório da ONU revela mercado bilionário de tráfico de lixo tóxico. A crise é ambiental, sanitária e de governança.
Coluna Follow-Up
O plástico deixou de ser apenas um problema ambiental. Ele atravessou a fronteira do oceano, da paisagem urbana e das cadeias produtivas. Agora, atravessa o corpo humano.
Um estudo conduzido pela NYU Langone Health, nos Estados Unidos, detectou partículas de microplásticos em cerca de 90% dos tumores de próstata analisados. A pesquisa avaliou amostras de dez pacientes submetidos à cirurgia para remoção da glândula e encontrou presença de plástico tanto em tecidos tumorais quanto em áreas benignas. A diferença, porém, chamou atenção: em média, os tumores apresentavam 2,5 vezes mais plástico do que os tecidos não cancerígenos.
Trata-se de um estudo piloto, com amostra reduzida, que ainda não estabelece relação causal. Mas o dado inaugura uma pergunta incômoda. O acúmulo dessas partículas pode contribuir para processos inflamatórios crônicos e alterações celulares associadas ao desenvolvimento do câncer?
A exposição aos microplásticos ocorre por múltiplas vias. Eles estão na água, nos alimentos, no ar e no contato cotidiano com roupas sintéticas, embalagens e superfícies plásticas. São praticamente onipresentes.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o câncer de próstata registrou cerca de 1,47 milhão de novos casos em 2022 no mundo. Nos Estados Unidos, pode atingir um em cada oito homens ao longo da vida. A eventual associação entre microplásticos e tumores, mesmo ainda em investigação, desloca o debate do campo ambiental para o campo sanitário.
Mas o problema não termina na exposição difusa. Ele se conecta a uma engrenagem global pouco visível.
Relatório recente do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime alerta que o tráfico ilegal de resíduos tornou-se um mercado altamente lucrativo, sustentado por lacunas regulatórias, fiscalização limitada e penalidades frágeis.
A análise identifica cinco grandes categorias de tráfico ilegal, incluindo plásticos e lixo eletrônico, segmentos que crescem rapidamente com o descarte acelerado de produtos tecnológicos.
Grupos de crime organizado e até corporações participam de esquemas que utilizam fraude documental, corrupção e lavagem de dinheiro para ocultar resíduos ilegais em fluxos aparentemente regulares.
O incentivo econômico é claro. O custo do descarte ilegal pode ser significativamente menor que o da gestão ambiental adequada, enquanto as penalidades, em muitos países, não superam os lucros obtidos com um único carregamento irregular.
A consequência é assimétrica. Resíduos de menor valor ou mais difíceis de tratar saem de regiões de alta renda e são direcionados a países com menor capacidade de fiscalização e infraestrutura ambiental. Esses fluxos incluem plásticos e lixo eletrônico com substâncias perigosas, agravando riscos à saúde humana e ao meio ambiente.
O ciclo se completa de forma silenciosa. O plástico produzido em escala global, descartado de maneira inadequada ou traficado ilegalmente, fragmenta-se no ambiente. Transforma-se em partículas microscópicas. Entra na cadeia alimentar, no abastecimento de água e no organismo humano.
A crise, portanto, não é apenas de poluição. É de governança.
A discussão sobre microplásticos deixa de ser um debate ambiental periférico e passa a envolver política industrial, rastreabilidade logística, harmonização internacional de penas e responsabilidade corporativa. Trata-se de um desafio que combina saúde pública, crime organizado e modelo econômico.
Para a Amazônia, a implicação é estratégica. A região, pressionada por rotas ilícitas e fragilidades históricas de fiscalização, também abriga potencial para liderar alternativas baseadas em bioeconomia, materiais renováveis e cadeias produtivas rastreáveis.
O estudo norte-americano ainda não prova que o plástico cause câncer. Mas revela que o material já está incorporado ao tecido humano. E o relatório da ONU demonstra que há um sistema global que facilita sua dispersão.
O alerta está dado. A questão agora é se a governança global reagirá antes que o invisível se torne irreversível.
Follow-Up é publicada pelo Jornal do Comércio do Amazonas às quartas, quintas e sextas feiras, sob a responsabilidade do CIEAM e coordenação editorial de Alfredo Lopes, editor do portal https://brasilamazoniaagora.com.br.