Comércio ilegal online ameaça conservação das abelhas sem ferrão

Biólogo brasileiro publica estudo que alerta para o tráfico de abelhas nativas, essenciais ao meio ambiente. Preço de colônias varia de 400 a 5 mil reais

Uma rede nacional de tráfico de abelhas com valores que chegam a R$ 5 mil foi descoberta pelo biólogo Antônio F. Carvalho, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (Inma). Carvalho monitorou anúncios de venda de ninhos de abelhas sem ferrão. A pesquisa e as possíveis consequências desse comércio foram publicadas em artigo da revista “Insect Conservation and Diversity”.

O trabalho de pesquisa de biopirataria digital com abelhas sem ferrão começou no início de 2020. “A ideia partiu da necessidade de avaliarmos os anúncios dessas abelhas sendo comercializadas na internet, porque eu já sabia que esses vendedores não podiam fazer isso sem registro nos órgãos fiscalizadores”, afirma o pesquisador. O comércio de abelhas sem ferrão no Brasil é regulamentado pela Resolução CONAMA 496/2020.

Foi um ano e meio de pesquisa até a submissão do artigo, em agosto de 2021. Desde então, o biólogo continua acompanhando anúncios de abelhas como a uruçu-capixaba (Melipona capixaba) e a uruçu-nordestina (Melipona scutellaris), abelhas em risco de extinção: “Então, já sabemos que essas espécies que são protegidas por lei estão sendo comercializadas pela internet, por isso o nome, biopirataria digital, e isso em uma escala muito grande. O valor varia de 400 a 5 mil reais”, revela.

Ao todo, Carvalho monitorou 308 anúncios em 85 cidades brasileiras. Ao menos 33 espécies de abelhas sem ferrão foram exploradas. Segundo o estudo, além dos anúncios estarem em fácil acesso, os vendedores não sentem necessidade de recorrer ao anonimato, o que sugere que a aplicação da lei contra o comércio ilegal de animais silvestres no país não está acontecendo.

Alerta para o comércio internacional de abelhas

A publicação da pesquisa também ganha destaque por alertar sobre o comércio internacional de abelhas. “A principal ameaça da biopirataria digital é a questão da demanda crescente que a internet tem e a facilidade de enviar as colônias para qualquer lugar, inclusive para o exterior”, pontua Carvalho. 

Segundo o biólogo, esse comércio representa alguns problemas. Entre eles, a introdução de parasitas que são enviados juntos na colônia, sem uma fiscalização, e a possibilidade de as abelhas entrarem em um ambiente novo e se tornarem competidoras contra as nativas. Além das consequências da bioinvasão, há também a possibilidade das abelhas serem introduzidas em um local hostil, com condições climáticas e ambientais muito ruins e assim, sem recursos, morrerem.

O conselho do pesquisador é para que os meleponicultores se cadastrem em órgãos ambientais de fiscalização ou no órgão agropecuário de controle, como o Ibama, por exemplo. Quem for comprar também precisa de um cadastro para provar ao governo que as condições de criação são suficientes para que elas sobrevivam.

Fonte: O Eco

Redação BAA
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Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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