China: o chão de fábrica do mundo

Precisamos despertar e enfrentar a invasão das mega plataformas tecnológicas que transformam o “chão de fábrica” digital, operando sem tributos e se beneficiando de vácuos legais, lobbys, dumping e subfaturamento

Peter S. Goodman, em seu livro “Como o mundo ficou sem tudo” (“How the world ran out everything”, ainda sem tradução, publicado este ano, com uma detida análise sobre as cadeias de suprimento globais) relata como a China se tornou uma espécie de chão de fábrica do mundo. Seu texto é revelador ao analisar a construção dos fluxos globais de capital, de produção e de logística, entre o Ocidente e a Ásia, a partir da perspectiva histórica e prática dos fluxos de valor, com detida investigação histórica e contemporânea em cada elo desta complexa estrutura até os mercados, a partir do que aconteceu durante a pandemia.

Quando se traça um paralelo com as antigas e novas rotas da seda, analisadas por Peter Frankopan, fica evidente uma construção de longo prazo da China em relação aos fluxos de produtos e de geopolítica. O entendimento destas dimensões ganha uma relevância em qualquer dos mercados em que exista competição ou relação com a China. Não podemos ficar desatentos para estes movimentos globais. Na construção de valor com o pouco capital que juntamos como sociedade, podemos fazer a transição para o serviço ou seremos “rebaixados” para a agricultura. Neste contexto, o Brasil não pode renunciar à sua indústria.

O melhor é que mantenhamos a nossa competitividade mineral e agrícola, somando e ampliando a indústria de transformação, assumindo um papel nos serviços, que ainda está timidamente posicionado, com idas e vindas, em especial no setor da construção civil. Em um ambiente nacional, onde ressurge o interesse pela indústria, com uma nova política industrial, é importante robustecer as ações do setor industrial, afinal “não é só uma blusinha”. Precisamos despertar e enfrentar a invasão das mega plataformas tecnológicas que fazem sua atuação sem tributos, usando pequenos vácuos legais, lobbys, dumping e subfaturamento. 

chao de fabrica
Foto divulgação

A indústria nacional e as instituições que lidam com sua competitividade precisam começar a se inspirar nas ações que tiraram mais de 400 milhões de chineses da pobreza para fazer o mesmo por aqui. Os EUA, desde o governo Clinton, quando acomodou a China na Organização Mundial do Comércio, moveu para lá grande parte das fontes de fornecimento de seu comércio. Por exemplo, o Wall Mart, com seu banco de dados de fornecedores com mais de seis mil fábricas, tinha, em 2003, cerca de 80% delas na China.

Segundo Peter Goodman a loucura desta concentração foi revelada na pandemia. Por aqui, começamos agora, timidamente, a despertar desta condição, com a invasão das plataformas digitais em todos os setores, ao ver nosso varejo de eletrônicos, livros e roupas sucumbirem à pressão digital das plataformas estrangeiras, que possuem tipicamente nomes norte-americanos, como Amazon, Google, Microsoft, Netflix ou Spotify, seguida mais recentemente das plataformas chinesas, como o AliExpress, Shein ou TikTok.

dxlar tarjeta servicios de streaming.jpeg

Devemos reconsiderar a produção de soja sem impostos, que, por exemplo, alimentarão porcos chineses, que, por sua vez, servirão de alimento para os trabalhadores que farão roupas para nos exportarem sem impostos de importação? Ou encontraremos um jeito de entrar no jogo global ganhando algo? O posicionamento brasileiro de proteção e expansão da indústria nacional, com uma competitividade justa, com impostos semelhantes e não com o subsídio continuado para os estrangeiros é a saída. Contudo, precisamos despertar que não é só uma blusinha ou um telefoninho: por trás de cada transação, há empregos, impostos, cadeias de suprimento e de lucro muito bem estruturadas.

AUGUSTO

Augusto Rocha é Professor Associado da UFAM, com docência na graduação, Mestrado e Doutorado e é Coordenador da Comissão CIEAM de Logística e Sustentabilidade

Augusto Rocha
Augusto Rocha
Augusto Cesar Barreto Rocha é professor da UFAM

Artigos Relacionados

Os saguis que nasceram para ajudar a salvar uma espécie da Mata Atlântica

Espécie de sagui ameaçada de extinção tem dois filhotes no RS. Nascimento integra programa de conservação do sagui-da-serra-escuro.

O consumidor se preocupa, muda de hábito e ainda erra qual produto polui menos – Coluna Negócios Sustentáveis

Uma pesquisa da Bain em cinco países mostra que 90% dos brasileiros se dizem preocupados com o ambiente. Com dois selos amazônicos em construção, o desafio de quem vende a origem da floresta deixa de ser convencer e passa a ser explicar.

Novo mandato de Lula terá Congresso mais hostil à agenda ambiental

Novo mandato de Lula deve enfrentar maior resistência no Congresso para avançar em políticas ambientais e proteger Terras Indígenas.

Conheça o peixe da Amazônia que cria um campo elétrico para “ver” em águas profundas 

Conheça o peixe elétrico da Amazônia descrito no rio Tefé, que usa sinais elétricos para perceber o ambiente em águas profundas e turvas.

Pesquisadores descobrem as rotas de tráficos de animais na Amazônia

Pesquisa sobre o tráfico de animais na Amazônia identifica 137 espécies comercializadas ilegalmente e revela rotas usadas pelos traficantes.