CARTA DE YARA AMAZÔNIA LINS AO PREFEITO DE MANAUS, DAVID ALMEIDA

Manaus vive um momento decisivo. À nossa volta está a maior floresta tropical do planeta; dentro da cidade, porém, sentimos o agravamento do calor extremo, a expansão das ilhas de calor, a perda de sombra, a queda recorrente de árvores fragilizadas e a vulnerabilidade dos bairros mais adensados. A capital amazônica não pode mais conviver com políticas fragmentadas de arborização. É oportuno conferir à infraestrutura verde o mesmo status estratégico que se atribui às obras viárias, ao saneamento e ao transporte.

É nesse contexto que submeto à elevada apreciação de Vossa Excelência a proposta de um Plano Municipal de Infraestrutura Verde e Arborização Inteligente, com a ambição de reposicionar Manaus como referência nacional em gestão climática, manejo arbóreo, participação social e inovação pública.

Registro, desde já, uma premissa de forma e respeito institucional: esta carta tem natureza propositiva e colaborativa. Não pretende impor encaminhamentos, prazos ou obrigações à Administração Municipal, cuja autonomia, competências e planejamento respeito integralmente. Caso Vossa Excelência considere oportuno, coloco-me à disposição para apoiar a construção de um diálogo técnico interinstitucional — com a escuta das secretarias competentes e de parceiros acadêmicos e comunitários — visando amadurecer alternativas viáveis, calibradas à realidade de Manaus.

Este plano não nasce do improviso. Ele foi concebido a partir de evidências científicas, tecnologias emergentes e experiências pioneiras de outras cidades brasileiras, com apoio de ferramentas contemporâneas de análise de dados e inteligência artificial, sob curadoria técnica.

Nesse espírito, estendo igualmente o convite à SUFRAMA e ao Governo do Estado, para que participem desde o início desta construção, se assim for entendido como conveniente pela Prefeitura.

Temos a oportunidade de mostrar ao Brasil que a Amazônia sabe cooperar e pode adotar, no poder público, a lógica ancestral do mutirão dos nossos povos originários — o mutirão que soma energias, talentos e habilidades para enfrentar juntos desafios que, isoladamente, parecem intransponíveis. Manaus merece essa demonstração de unidade, visão e compromisso com o bem comum.

A proposta a seguir organiza-se em eixos estratégicos, combinando ciência, tecnologia e responsabilidade pública.

Constituir um Grupo de Trabalho de Infraestrutura Verde, com ponto focal designado pela Prefeitura, integrando secretarias diretamente envolvidas (meio ambiente, obras, mobilidade, defesa civil, saúde, educação e planejamento), além de apoio técnico de universidades e participação social organizada, para consolidar prioridades, integrar dados e coordenar projetos-piloto com metas mensuráveis.

1ª Fase (0–90 dias): projeto-piloto de inventário em áreas críticas + mapeamento inicial de risco + piloto de “rota de sombra”.

Fase (90–180 dias): ampliação do inventário e protocolos de manejo + rede de viveiros comunitários.

3ª Fase (180–360 dias): consolidação do painel público de indicadores + proposta de marco legal e expansão dos corredores verdes.

Criar um mapeamento atualizado das árvores da cidade, com georreferenciamento, identificação de espécie, estado fitossanitário, risco estrutural, condicionantes de calçada e rede urbana, profundidade de raízes e histórico de manejo.

Tecnologias recomendadas: LiDAR, visão computacional, georradar, plataformas digitais de inventário arbóreo.

Adotar protocolos de poda orientados por critérios técnicos, com simulações estruturais e parâmetros biomecânicos, garantindo segurança, estabilidade e vitalidade das árvores, com rastreabilidade do serviço executado.

Solução sugerida: modelagem estrutural tridimensional (como a desenvolvida pela Treetronics), adaptada às espécies e às condições locais.

Estruturar redes de sombra que conectem escolas, unidades de saúde, terminais de ônibus e áreas de grande circulação, reduzindo estresse térmico e promovendo mobilidade climática segura.

Critério sugerido: priorização por mapas de ilhas de calor, densidade populacional e vulnerabilidade socioambiental.

Implantar uma rede de viveiros em escolas, associações de bairro e centros comunitários, promovendo participação social, plantio colaborativo e fortalecimento de vínculos urbanos — com educação ambiental prática e permanente.

Integrar dados de satélite, sensores, históricos de acidentes, padrões meteorológicos e modelos preditivos para antecipar risco de queda, ventos extremos, enchentes e impactos térmicos.

Referências: Arbolink, UrbVerde e modelos de predição climática.

Estabelecer metas anuais de plantio com espécies nativas, priorizando copa ampla, adaptação ao regime de chuvas e à insolação da cidade, e compatibilidade com calçadas, drenagem e rede elétrica.

Referência indicativa (a ser calibrada tecnicamente): até 100 mil árvores/ano, condicionada à capacidade municipal de manutenção, irrigação, reposição e monitoramento, para assegurar sobrevivência e efetividade do plantio.

Promover a atualização de diretrizes do Plano Diretor e avançar para uma Lei Municipal de Infraestrutura Verde, garantindo continuidade administrativa, prevenção de riscos e padronização técnica das práticas de manejo urbano.

Instituir um painel público de indicadores de temperatura, arborização, saúde urbana, áreas de risco e impacto social — com transparência e linguagem cidadã.

Transparência como instrumento de cidadania e controle.

Mapear, no âmbito do GT, caminhos de financiamento e apoio técnico por meio de instrumentos existentes e parcerias, tais como: fundos e compensações ambientais, termos de ajustamento, editais de inovação, cooperação técnica com Estado e União, e parcerias com setor produtivo e instituições científicas, com governança e critérios de integridade.

Manaus precisa respirar — e pode fazê-lo com a inteligência da floresta que a cerca e com o rigor administrativo que a sua população merece.

O plano aqui proposto é mais do que uma agenda ambiental. É uma agenda de saúde pública, segurança urbana, redução de desigualdades e valorização da vida. Apresento-o como contribuição institucional de boa-fé, para eventual apreciação e amadurecimento pelas áreas técnicas da Prefeitura, no tempo e na forma que Vossa Excelência entender adequados.

Se houver convergência, coloco-me à disposição para estimular um diálogo interinstitucional que una ciência, tecnologia, participação social e planejamento, para que a infraestrutura verde ganhe escala, continuidade e resultados mensuráveis.

Com estima, responsabilidade institucional e espírito de cooperação,

Yara Amazônia Lins
Presidente do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM)

Yara Amazônia Lins
Yara Amazônia Lins
Yara Amazônia Lins é conselheira e presidente do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM). Pós-graduada em Ciências Contábeis pela UFAM e reúne um portfólio robusto em Espírito Publico nos seus mais de 40 anos de serviços prestados ao TCE-AM. Em seu atual mandato tem direcionado esforços, dentro das competências do órgão e da função que ocupa, para maiores realizações de valorização da Amazônia e da preservação do Meio Ambiente.

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