Startup liderada por indígena transforma látex da floresta em negócios sustentáveis e inovadores

O projeto de capacitação voltada aos ribeirinhos garante que os lucros das vendas dos calçados de látex retornem diretamente aos produtores locais, promovendo inclusão socioeconômica e incentivando o uso sustentável dos recursos da floresta

A seringueira, árvore icônica da Amazônia, é amplamente reconhecida pelo látex, seiva valiosa utilizada na fabricação de produtos como pneus, luvas e preservativos em geral e outros produtos derivados da borracha. No entanto, muitos ribeirinhos que vivem próximos a essas árvores desconhecem as técnicas adequadas para extrair e transformar essa matéria-prima em produtos com valor agregado que possam gerar renda.

Com o objetivo de mudar esse cenário, a startup Amazon Pororoca desenvolveu uma iniciativa de capacitação voltada a comunidades ribeirinhas no município de Epitaciolândia, no Acre. A ação foca na produção de calçados com base no látex extraído de forma sustentável. Além de oferecer conhecimento técnico, o projeto garante que os lucros das vendas retornem diretamente aos produtores locais, promovendo inclusão socioeconômica e incentivando o uso sustentável dos recursos da floresta.

Startup do AP gera renda para ribeirinhos com calçados feitos do látex.
Startup do AP gera renda para ribeirinhos com calçados de látex — Foto: Vanda Pororoca/Arquivo pessoal

A indígena Vanda Pororoca, da etnia Galibi Marworno, é a força por trás da Amazon Pororoca. Moradora da Comunidade Ubussutuba, localizada na Ilha da Caviana, no Pará, Vanda considera seu trabalho uma forma de promover “liberdade” para os povos da chamada “Amazônia isolada”, regiões de difícil acesso, historicamente marcadas pela ausência de serviços básicos.

Ela relata que em muitas dessas localidades as pessoas ainda vivem sem acesso à educação, saúde ou infraestrutura mínima, e as oportunidades de negócios costumam nem sequer alcançar essas áreas. “Sabemos que nos lugares remotos da Amazônia Isolada, até hoje nós vivemos num momento em que as pessoas ainda não têm acesso à educação, médicos, não tem nada. A iniciativa de negócio nem chega perto delas. Então, quando eu chego numa comunidade assim, tem comunidades que eu vou que nunca viram água potável”, comenta.

Vanda Maria Maciel Nunes, a Vanda Pororoca.
Vanda Maria Maciel Nunes, a Vanda Pororoca — Foto: Vanda Pororoca/Arquivo pessoal

Além da atuação local, a Amazon Pororoca também participa de exposições e feiras de negócios promovidas pelo Sebrae no Amapá, ampliando a visibilidade dos produtos desenvolvidos e promovendo o intercâmbio de saberes tradicionais e inovação empreendedora.

Equipe e produção

A Amazon Pororoca desenvolve seu trabalho com uma equipe composta por nove mulheres e três homens. Sua proposta é fomentar o desenvolvimento de produtos de forma acessível e sustentável, aproveitando os recursos disponíveis na região, como a borracha extraída da seringueira. A empresa aposta na bioeconomia como alternativa viável para geração de renda e preservação ambiental, e tem expandido essa atuação para diversas áreas da Amazônia, sempre respeitando os modos de vida tradicionais e incentivando a autonomia econômica das comunidades.

Isadora Noronha Pereira
Isadora Noronha Pereira
Jornalista e estudante de Publicidade com experiência em revista impressa e portais digitais. Atualmente, escreve notícias sobre temas diversos ligados ao meio ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável no Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

Nova espécie de peixe é descoberta no Amapá e já pode entrar na lista de ameaçados

Nova espécie de peixe encontrada no Amapá vive em apenas três locais conhecidos. Pesquisadores alertam para ameaças ao habitat.

Quando a violência digital entra na vida dos nossos filhos

“Aliciamento, chantagem e estímulo à autolesão exigem uma resposta...

690 mil árvores por dia: a estimativa que separa o desmatamento de Bolsonaro e de Lula

Desmatamento na Amazônia: estimativa aponta perda de 690 mil árvores a mais por dia sob Bolsonaro do que nos três primeiros anos do atual governo Lula.

Pagar mais para não comprar americano: o “Buy Canadian” volta e reorganiza as gôndolas

Com a disputa comercial entre Canadá e Estados Unidos de volta e mais quente do que nunca, a origem do produto passou a pesar mais que o preço, e o varejo já redesenhou a prateleira. O que isso ensina a quem vende com a Amazônia no rótulo?