Instalados no fundo do oceano, os cabos submarinos conectam continentes, sustentam a economia digital e expõem novos riscos geopolíticos em um cenário de crescente disputa por dados.
Se todos os satélites deixassem de operar hoje, o impacto no cotidiano seria grande. Mas se os cabos submarinos fossem interrompidos, a economia global sentiria o choque em minutos. Mais de 99% das comunicações intercontinentais trafegam por essas estruturas instaladas no fundo do mar; enquanto satélites respondem por menos de 1% da infraestrutura. Por essas rotas invisíveis no fundo dos oceanos passam cerca de US$ 10 trilhões em transações financeiras por dia.
Esses sistemas são compostos por fibras ópticas envoltas em camadas de aço, cobre e polímeros, capazes de resistir à pressão das profundezas oceânicas. Em alto-mar, onde o risco é menor, os cabos são mais finos, mas próximos à costa, recebem blindagem reforçada contra âncoras e redes de pesca. Diferentemente do senso comum, a internet global depende em sua maioria dos cabos submarinos, já que a fibra óptica oferece menor latência, essencial para operações financeiras de alta frequência e para serviços de streaming em alta resolução.
Apesar da robustez, a infraestrutura não é imune a falhas. Entre 100 e 150 rompimentos são registrados anualmente, em geral provocados por acidentes marítimos. Nos últimos anos, porém, o componente geopolítico ganhou destaque com rompimentos que levantaram dúvidas sobre sabotagem e espionagem. Um dos exemplos ocorreu no Mar Vermelho, um dos principais corredores de dados do planeta, que sofreu cortes em 2024 e novamente em setembro de 2025, afetando conexões na Ásia e no Oriente Médio. Cabos como SEA-ME-WE 4 e IMEWE foram danificados, forçando empresas a redirecionar o tráfego de serviços digitais.
A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China também se estende ao fundo do oceano. Os EUA pressionam aliados a restringirem a participação de empresas chinesas em novos projetos, alegando riscos de espionagem. A China, por sua vez, investe em rotas alternativas dentro da chamada Rota da Seda Digital, que conecta a Ásia à África e Europa.
Outra transformação relevante é a mudança no controle dessa infraestrutura. Se antes consórcios de telecomunicações lideravam os projetos, hoje gigantes de tecnologia como Google, Meta, Microsoft e Amazon concentram cerca de 50% da capacidade global. Nesse cenário, os cabos submarinos passaram a representar um elemento estratégico para a soberania digital e a segurança das comunicações globais.