BioAmazonas, a ecologia integral

Alfredo MR Lopes (*) [email protected]

Que posição ocupa a Amazônia no ranking das prioridades nacionais neste momento de solavancos institucionais e combate ao combate à corrupção estrutural?  Na prática, nenhuma. Basta ver a remoção surpresa da titular da Suframa, onde um amontoado de acertos descrevia a recuperação da autarquia, depois de seguidos anos de esvaziamento. O critério, há tempos, é político, pior, o fisiologismo político, aquele que se superpõe ao interesse público. Que segurança jurídica, a propósito, tem a Zona Franca de Manaus, inserida nas tábuas constitucionais, sob o critério sombrio que hoje norteia as instituições?

Tem, pois, razão, o alerta de Paulo Roberto Haddad, economista e especialista em desenvolvimento regional, com relação às mexidas na política fiscal do Brasil, pressionadas pelos interesses do Sudeste do país, historicamente incomodado com os acertos do arranjo fiscal que a economia da Amazônia Ocidental representa? Como dependemos de canetadas, a mesma que decretou a ‘lisura’ do último pleito presidencial, e manteve Michel Temer na cadeira do poder, temos que avançar na afirmação, na necessidade de adensamento e interiorização deste arranjo fiscal construtivo.

Temos que explicitar e levar à opinião pública as razões de manter, expandir, diversificar e regionalizar os benefícios e serviços da ZFM? Apesar dos percalços da recessão econômica, que tem desconstruído acertos, Haddad se refere à necessidade premente de “…espraiar os benefícios do polo industrial através de suas poderosas cadeias produtivas, atuais e potenciais para outras regiões da Amazônia e do Brasil, para remover a ideia pré-concebida de enclave econômico”. Ele chama de excedentes os recursos gerados pelas empresas, transformados em fundos de P&D, Taxas da Suframa, Fundo UEA, Turismo e Interiorização do Desenvolvimento, e das Micro e Pequenas empresas – ora desviado de suas funções – criados com finalidades estratégicas, para dar suporte aos municípios do interior e da Amazônia Ocidental, com baixos índices de desenvolvimento humano, IDH, que a Suframa atendia em forma de convênio.

Em seu próximo livro, ‘Economia ecológica e ecologia integral’, um e-book a ser distribuído pela Amazon, ele desenvolveu o conceito fundamental da Ecologia Integral da Carta do Papa Francisco, Laudato Si, para avaliar as catástrofes e os desastres ecológicos e socioambientais que ameaçam a sobrevivência da Humanidade: a crise hídrica, a mudança climática, as extinções aceleradas da fauna e da flora, entre outros danos. É integral porque não separa o espaço e o tempo na análise dos problemas. E também porque examina simultaneamente a crise ecológica e a crise social da Humanidade, os impactos dos danos ecológicos em termos da distribuição da renda e da riqueza e aponta quem são os principais perdedores.

O professor Haddad considera, portanto, a ecologia, não a economia, na perspectiva integral, uma vez que o ambiente humano e o ambiente natural se deterioram conjuntamente e não se pode combater a degradação ambiental a não ser que se atinjam as causas da degradação social e humana. Para ele, a pesquisa científica e a experiência cotidiana mostram que os efeitos mais graves de todos os ataques ao meio ambiente são sofridos pelos pobres.

Nesse contexto, ele recomenda, para a ZFM, fazer uma nova leitura do PIB numa perspectiva de economia integral, para mostrar os acertos de suas escolhas, a preservação do bioma, a prestação de contas de uma renúncia fiscal benfazeja, e a necessidade de seu fortalecimento e interiorização. Valorizar os estoques naturais e seus serviços é o fio da meada desta nova contabilidade socioambiental.

Com os excedentes, criam-se como exemplos demonstrativos, diz ele, 10 arranjos produtivos, como proteína da piscicultora, pesquisa &desenvolvimento de arriamos tecnológicos relacionados a indústria, produção de cosméticos, fármacos, alimentos funcionais, fruticultura, entre outros. O que se busca como indicadores mais significativos são os indicadores multifacetados de bem-estar social sustentável os quais, em última instância, procuram mensurar, através de pesquisas subjetivas, o grau de realização pessoal em uma sociedade e a felicidade de sua população. O que há de essencial, na verdade, além disso?

(*) Alfredo é consultor do CIEAM – Centro da Indústria do Estado do Amazonas.

 

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal Brasil Amazônia Agora

Artigos Relacionados

Resultado das eleições pode comprometer proteção da Amazônia, alerta relatório

Estudo aponta que avanços contra o desmatamento na Amazônia dependem da continuidade das políticas ambientais e alerta para riscos após as eleições.

Transição energética exige ampliar renováveis em mais de 7 vezes para manter meta de 1,5°C ao alcance

Transição energética exige mais de 7 vezes a capacidade renovável até 2050 para manter meta de 1,5°C ao alcance, aponta IRENA.

Incêndios no Amazonas levam União a reconhecer emergência em 36 municípios 

Incêndios no Amazonas levantam suspeita de ação criminosa em áreas preservadas. União reconhece emergência em 36 municípios.

O futuro de duas rodas supõe uma contrapartida pública

Aos 50 anos da Abraciclo, os empregos, a produção e os cuidados com a segurança viária mostram a dimensão de uma indústria que sustenta oportunidades na Amazônia. Cabe ao poder público transformar parte da riqueza arrecadada em educação, pesquisa e desenvolvimento regional.