Áreas verdes reduzem impacto das enchentes nas cidades

Infográfico mostra porque conservar ecossistemas naturais torna as cidades resilientes a eventos climáticos

Infelizmente, todos os anos, testemunhamos tragédias humanas e ambientais causadas por chuvas em diferentes partes do Brasil. Com as mudanças climáticas, a tendência é que estes eventos se intensifiquem: cheias dos rios, alagamentos nas cidades, deslizamentos de encostas e, com isso, mortes, pessoas desalojadas ou desabrigadas, infraestrutura destruída e grandes prejuízos financeiros, ecológicos e humanos.

A solução para este problema não é simples e envolve diversas questões sociais, econômica e ambientais. Com tantos fatores envolvidos, uma certeza une especialistas: a conservação dos ecossistemas naturais é fundamental na mitigação dos impactos dos fenômenos climáticos extremos, que devem ser cada vez mais frequentes.

mudanças climáticas adaptação
Conscientização sobre os riscos e as ações para reduzi-los aumentaram globalmente, mas medidas de adaptação têm sido insuficientes diante da magnitude do problema. Cena do desastre causado pelo excesso de chuvas em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rego | Agência Brasil

Diferentes cidades do mundo já desenvolvem projetos que consideram a implantação, manutenção e recuperação de áreas verdes em pontos estratégicos para criar um sistema natural capaz de absorver a água da chuva, filtrar sedimentos do solo e até reduzir custos com saneamento básico e melhorar a saúde pública.

desastre climático
Foto: Unsplash

“Claro que existem situações extremas que não podem ser mitigadas, mas a infraestrutura natural deve fazer parte de uma estratégia para garantir cidades mais inteligentes e resilientes para o futuro. Um dos melhores exemplos nesse sentido são cidades-esponjas da China, que utilizam soluções naturais para drenar a água das áreas urbanas, e não coletar e jogar tudo rapidamente nos rios”, explica a paisagista urbana Cecilia Herzog, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Mais verde, menos enchentes

infográfico enchentes áreas verdes
Fonte: Fundação Grupo Boticário

A ideia é simples: quanto mais cobertura vegetal uma cidade possui, maior a capacidade de drenar a água da chuva e reduzir o impacto das enchentes. Parques alagáveis, jardins de chuva, calçamentos permeáveis, telhados verdes, hortas comunitárias e praças-piscinas são algumas das estratégias que também já são usadas com sucesso no Brasil.

O Parque Barigui, em Curitiba, é um exemplo de como é necessário respeitar os cursos d’água para evitar problemas sérios, gerando, inclusive, benefícios para a qualidade de vida da população. Ao preservar e restaurar ecossistemas naturais, além de buscar inspiração em soluções ancestrais, é possível reduzir o uso de infraestrutura cinza, diminuindo ainda custos para o poder público.

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Parque Barigui, importante área verde de Curitiba, no Paraná. Foto: Pixabay

Margens dos rios

Uma das estratégias mais importantes para reduzir os efeitos das enchentes é a proteção das margens dos rios, que são consideradas Áreas de Preservação Permanente (APP) de acordo com Código Florestal Brasileiro. A definição das faixas mínimas a serem protegidas visa garantir que as funções gerais dessas áreas sejam minimamente resguardadas, tanto no espaço rural quanto no urbano. Fruto do crescimento desordenado das cidades, a redução das APPs amplia os efeitos das enchentes e deixa a população mais exposta a prejuízos e tragédias.

“As APPs contribuem para a proteção da biodiversidade, ajudam a regular o microclima, protegem recursos hídricos, reduzem os efeitos das ilhas de calor em grandes cidades e regiões metropolitanas e também oferecem bem-estar para as populações”, pontua André Ferretti, gerente sênior de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário e também membro da RECN.

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Foto: Pixabay

Em dezembro, o Congresso Nacional aprovou o projeto de lei que transfere da União para os municípios a competência para definir as regras de proteção às margens de rios, lagos, lagoas e demais cursos d’água de cidades brasileiras. A medida é vista com preocupação pelos especialistas, pois deve facilitar as pressões locais para a modificação do uso destas áreas.

“Não faz sentido flexibilizar a legislação, gerando incertezas sobre essas áreas e colocando a população em risco. Ao poder induzir desmatamentos, a mudança na lei também vai contra o acordo de desmatamento zero até 2030 assumido pelo Brasil durante a COP26”, alerta Ferretti.

E-book gratuito

Para saber mais sobre como as Soluções Baseadas na Natureza são importantes para que as cidades se preparem para os desafios das mudanças climáticas, a Fundação Grupo Boticário disponibiliza gratuitamente o e-book “Cidades Baseadas na Natureza: infraestrutura natural para resiliência urbana”. O material traz exemplos de diferentes metrópoles que adotaram com sucesso a infraestrutura verde para solucionar problemas urbanos. 

Baixe aqui o e-book “Cidades Baseadas na Natureza: infraestrutura natural para resiliência urbana”

soluções baseadas na natureza
Foto: Kelly Sikkema | Unsplash

Dados e fatos sobre eventos climáticos

  • O histórico dos desastres naturais no Brasil é monitorado pelo Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), do Ministério do Desenvolvimento Regional, que classifica os eventos como climáticos (secas), meteorológicos (chuvas intensas e outros eventos) e hidrológicos (inundações e enxurradas).
  • Entre 1980 e 2019, o número de desastres naturais no Brasil passou de 5 mil para aproximadamente 33 mil, afetando muitos municípios mais de uma vez.
  • O aumento desses eventos foi mais acentuado nos últimos 10 anos, com crescimento de 120% (de 15 mil para 33 mil) em relação à década de 2000. Episódios de seca e estiagem foram predominantes.
  • Episódios de seca nas regiões mais úmidas da Amazônia aumentam os riscos de incêndios florestais, um problema também recorrente no Cerrado e no Pantanal.
  • Entre 2013 e 2019, mais de 2,5 milhões de pessoas foram impactadas por episódios de seca ou chuvas torrenciais. Economicamente, esses desastres – sem considerar deslizamentos – representam prejuízo médio de R$ 6 bilhões ao ano. – TNC Brasil e S2iD
  • Entre 2008 e 2012, cerca de 1,4 milhão de brasileiros ficaram desabrigados e desalojados por conta das enchentes urbanas – IBGE
  • 8,2 milhões de brasileiros estão sob risco de enchente ou deslizamento no país – IBGE
  • Nos últimos anos, a ocorrência de extremos de precipitação tem aumentado e continuará crescendo em decorrência das mudanças climáticas – IPCC – The Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC): AR5 Climate Change 2014 Report: Impacts, Adaptation, and Vulnerability.
  • A cidade chinesa de Lingshui, no extremo sul do país, é uma das que trocaram os tradicionais bueiros por estruturas conhecidas como bioswales. São pequenos canais de infiltração natural, com vegetação nativa, que correm paralelamente a ruas, avenidas e calçadas – G1.
  • Reflorestamento de 4 mil hectares na bacia hidrográfica que abastece o Sistema Cantareira, em São Paulo, poderia gerar economia de cerca de R$ 300 milhões com o tratamento de água ao longo de 30 anos. – WRI, TNC e Fundação Grupo Boticário
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Parque Cantareira, em São Paulo. Foto: iStock

Fonte: CicloVivo

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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