Animais marinhos da Antártida ingerem plástico há mais de 40 anos, revela estudo

A presença de fibras de plástico em animais marinhos na margem continental mais isolada do planeta reforça preocupações com o alcance da poluição humana

Um estudo conduzido por cientistas do Instituto Oceanográfico (IO) da USP revelou que animais marinhos estão ingerindo microplásticos nas profundezas da Antártida há pelo menos 40 anos, ou seja, desde os anos 1980. Analisando o conteúdo gastrointestinal de mais de cem organismos coletados no Oceano Austral entre 1986 e 2016, os pesquisadores identificaram microdetritos em quase um terço deles, incluindo fibras de poliamida, poliéster e polietileno.

Publicado em 20 de novembro na Environmental Science & Technology, o estudo destaca que, apesar de sua localização remota e da baixa ocupação humana, a Antártida não está imune à poluição. Os pesquisadores alertam que a presença de fibras de plástico na margem continental mais isolada do planeta reforça preocupações com o alcance da poluição humana, mesmo em áreas consideradas intocadas.

Representação visual das observações realizadas pelo estudo "Os Alimentadores de Fundo Consomem Suas Fibras: A Ingestão de Microdetritos Antropogênicos por Invertebrados de Águas Profundas da Antártica Depende da Ecologia Alimentar".
Representação visual das observações realizadas pelo estudo sobre os animais marinhos na Antártida e a poluição por microplásticos | Foto: Divulgação/Environmental Science & Technology

Todos os organismos analisados foram coletados abaixo de 200 metros de profundidade no decorrer de oito expedições realizadas entre 1986 e 2016 nos arredores da Península Antártica.

Poluindo há décadas

Os pesquisadores analisaram o conteúdo estomacal e intestinal de 169 organismos bentônicos (ou seja, que vivem fixados ou associados ao substrato marinho) de 15 espécies, como pepinos-do-mar, estrelas-do-mar, ofiuroides, poliquetas e camarões, habitantes do fundo marinho antártico. Dos 169 organismos, 53 continham detritos plásticos em seu interior, totalizando 85 microfibras com menos de 5 milímetros de comprimento.

Um dos destaques do estudo foi a identificação de uma fibra azul de 2 milímetros encontrada nas vísceras de um misidáceo (um pequeno crustáceo) coletado em fevereiro de 1986, próximo à Península Antártica. Feito de polisulfona, um polímero usado em revestimentos de fiações e encanamentos, o fragmento é o registro mais antigo de microplásticos no ambiente antártico provavelmente se originou de materiais empregados nas estações de pesquisa da região. Ou seja, mesmo há décadas, a poluição humana já impactava as profundezas desse ecossistema.

Microplásticos encontrados em pepinos-do-mar coletados no ano 2000 a oeste da Ilha Anvers, região da Península Antártica. A) Fibra de poliamida; B) Fibra de poliamida e poliéster. Os espécimes estão depositados na coleção da Universidade do Havaí, em Manoa.
Microplásticos encontrados em pepinos-do-mar coletados no ano 2000 a oeste da Ilha Anvers, região da Península Antártica. A) Fibra de poliamida; B) Fibra de poliamida e poliéster. Os espécimes estão depositados na coleção da Universidade do Havaí, em Manoa – Foto: Gilberto Bergamo

Antártida não está blindada

De acordo com o artigo, a presença de fibras plásticas na Antártida podem vir de águas residuais de navios e estações de pesquisa, bem como da circulação atmosférica. A ingestão de fibras já foi relatada em uma infinidade de organismos locais que abrangem diferentes guildas alimentares e níveis tróficos: em pinguins, focas, peixes, anfípodes, krill e alguns tipos de invertebrados. Essas ocorrências não são apenas uma consequência direta da crescente presença humana na região, mas certas características intrínsecas do ecossistema marinho antártico podem até exacerbar sua vulnerabilidade à poluição por ação humana.

A chamada Convergência Antártica, também conhecida como Frente Polar Antártica, é uma barreira natural formada pelas águas frias e densas que circundam a Antártida, dificultando a chegada de organismos e detritos flutuantes de outras partes do oceano. No entanto, essa barreira mostra-se menos eficaz contra microdetritos, como microplásticos, que conseguem ultrapassá-la tanto pela superfície quanto por camadas mais profundas. Isso explica como partículas plásticas conseguem alcançar as águas antárticas, contribuindo para que a poluição humana alcance a área, mesmo que remota.

Vista aérea da Estação Antártica Comandante Ferraz, do Brasil, instalada na Ilha do Rei George, a 130 km da Península Antártica.
Vista aérea da Estação Antártica Comandante Ferraz, do Brasil, instalada na Ilha do Rei George, a 130 km da Península Antártica | Foto: Marinha do Brasil – Estação Antártica Comandante Ferraz/Wikimedia Commons/CC BY-SA 2.0

“É provável que estejam vindo tanto de atividades de turismo quanto de pesquisa na própria Antártida, porque muitas das bases não têm um sistema próprio para tratamento de efluentes”, avalia ao Jornal da USP o biólogo Gabriel Stefanelli Silva, que realizou a pesquisa como parte de seu doutorado no IO. “Essa é uma das origens possíveis, mas há trabalhos recentes que mostram que essas fibras podem ser carregadas por milhares de quilômetros na atmosfera.”

Atualmente, a Antártica abriga mais de 70 estações de pesquisa mantidas por mais de 50 países. A população na região varia de cerca de mil pessoas no inverno para até 5 mil no verão. No entanto, apenas metade dessas estações possui tratamento de esgoto, conforme revelou um estudo de pesquisadores argentinos publicado em setembro na revista Marine Pollution Bulletin.

“Como profissionais que têm a sorte de trabalhar no campo da investigação polar, devemos humildemente considerar como a nossa própria pegada ecológica impacta o ecossistema antártico”, destacam os pesquisadores brasileiros no artigo da Environmental Science & Technology.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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