Amazônia: a vida continua

Aos poucos o tsunami das queimadas começa a se acalmar com a turma do deixa disso. Precisamos, aqui no coração da floresta, criar conteúdos para aproveitar a pirotecnia oportunista das queimadas da Amazônia, lembrando que este é um problema crônico e, em parte, perene, por conta de fenômenos climáticos e predadores lunáticos. Cabe a nós continuar na retranca de olho no contra-ataque, dizendo com outras palavras, prestar contas ao contribuinte da contrapartida fiscal e divulgar as oportunidades regionais. Vamos, pois, continuar vendendo o peixe da proteção florestal, sair da fala e criar saídas objetivas. Nunca é demais lembrar que União Europeia e Organização Mundial do Comércio nos reconheceram, na condição de programa de desenvolvimento, como um modelo de acertos na equação meio ambiente e desenvolvimento, o tema que tem virado foco de atenção desde a Conferência da ONU em Estocolmo em 1972 e no Rio de Janeiro em 1992. A mídia tem ganho anúncios e muita plata com essa pauta da pirotecnia florestal. Eles sabem vender seus produtos. E nós temos que aprender. O passo seguinte é mostrar que a ZFM, de tantos acertos, tem produzido riqueza suficiente para transformar seu modelo industrial numa ampliação e diversificação da economia a partir da capital na direção das riquezas naturais com a inteligência da exploração sustentável. Já está passando da hora.

‘Dia do Fogo’

O governo federal em vigor chegou ao Planalto dizendo que iria flexibilizar a fiscalização ambiental, reestruturando a função do IBAMA, eivado de distorções e oportunismo. Daí, nada mais oportunista do que utilizar essa promessa e dar a ela a legalidade operacional de conhecidos grileiros, fazendeiros e outros atores empenhados em pilhar terras da União, para promover queimadas na Região de Altamira, uma das áreas de maior conflito de terras no Estado do Pará. Segundo a mídia, esses promotores do ‘Dia do Fogo’, como foi chamada uma das movimentações predatórias, teriam interpretado as declarações recentes da presidência da República como uma liberação informal de desmatamento e queimadas para ampliar o agronegócio na região, como ocorreu no Acre, há dois meses. Lembrando que Altamira, no Pará, é emblema de um conflito eterno e sanguinolento por questões agrárias, numa área integrante do Arco Norte, onde investimentos de R$ 5 bilhões públicos/privados construíram uma estrutura imponente de logística portuária e de transportes, desobstruindo as eternas filas de carreta nos portos do Sul-Sudeste na safra de grãos, sobretudo soja. Esses fatos estão na grande mídia, enquanto se travam guerras de dimensões estratosféricas nas redes sociais. O clima eleitoral não acaba nem fica pouco enquanto o país debate uma Reforma Tributária de costas para a população.

Quais são os novos desafios?

Partindo do ponto de vista que de Amazônia e de Amazonas quem mais sabe sobre os problemas da região são os que aqui vivem. Ou seja, nesse bate-boca global sobre nossa região, ficamos estarrecidos com o tamanho de disparates que as pessoas manifestaram como quem só conseguisse ler parte das orelhas de livros sérios sobre a Hileia. Sem bravatas nem arroubos desprovidos de sentido, temos que fazer nossa parte, conscientes de que, bem ou mal e pelas diversas razões, o mundo está de olho na gente. Há dois anos, em viagem à Inglaterra, tivemos a oportunidade de ouvir do Embaixador do Brasil naquele país que há muito espaço para atrair investidores para o Amazonas, onde as empresas que aqui atuam podem dizer que geram riqueza sem depredar a floresta. Em outras palavras, compatibilizam desenvolvimento e meio ambiente. Até bem pouco tempo, algumas empresas camuflavam o fato de operar na Amazônia temendo o estigma predatório. Hoje, com o reconhecimento de entidades globais, empreender na floresta é status de alinhamento ambiental e exibição se ativo climático. Os tempos são outros.

PIB Verde

Quatro anos depois de aprovado no Senado, foi sancionado este ano pelo presidente Jair Bolsonaro o PIV, Produto Interno Verde. E o IBGE, órgão responsável pelo cálculo do Produto Interno Bruto (PIB), apesar das restrições orçamentárias, passará a divulgar também o Produto Interno Verde (PIV), conhecido como PIB Verde. Trata-se de uma mudança com perspectiva de longo prazo e, por isso, aspectos como data de implementação e periodicidade de divulgação ainda não foram definidos. O PIV foi detalhado pela lei nº 13.493, que determina o patrimônio ecológico do país. Ele terá peso no Sistema de Contas Nacionais. Além disso, exige que a metodologia para o cálculo do PIB Verde seja amplamente discutida com a sociedade e as instituições públicas, incluindo o Congresso Nacional, antes da criação de um sistema nacional de contas ambientais. Ao incorporar o eixo ambiental no Sistema de Contas Nacionais, seremos capazes de analisar o impacto do crescimento econômico sobre nossos recursos naturais, o que nos permitirá traçar uma estratégia de desenvolvimento sustentável. E mais: a divulgação do PIB Verde possibilitará a comparação das taxas econômicas ambientais brasileiras com as de outros países, especialmente com o Índice de Riqueza Inclusiva (IRI), elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Ao incluir aspectos como saúde, educação e meio ambiente em seus sistemas de contas, as nações estarão mais aptas a atrair o interesse das novas gerações para a temática da sustentabilidade. E o começo das atividades do IBGE se dará nas fronteiras agrícolas do Sul do Amazonas, onde um modelo de negócios cresce de modo incontrolável e sem o estudo prévio de potencialidades e fragilidades, isto é, o Zoneamento Econômico e Ecológico.

Oportunidades

Com essa metodologia, será mais fácil aferir a contabilidade ambiental de quem investe no Amazonas ou em qualquer outra planta industrial no Sul/Sudeste do Brasil. Quanto vale raciocinando nestas novas métricas, nas categorias de aferição dos estoques naturais, oferecer 3, 4, 5 mil empregos no Polo Industrial de Manaus, evitando que os trabalhadores e suas famílias busquem na floresta o sustento do dia-a-dia. O estudo da FGV sobre Impactos, Efetividade e Oportunidades da ZFM, com rigor, isenção e densidade, demonstrou com métricas inquestionáveis o conjunto de acertos de nossa economia, portanto, deverá dar um passo à frente, a métrica dos empregos e das oportunidades regionais. Plano de investimentos, gestão de negócios, taxas de retorno, planilhas de custos e lucros, premissas legais da sustentabilidade, enfim, todo o protocolo de orientação para quem quiser dar uma função econômica ao bem natural, a melhor e mais eficaz forma de preservá-lo.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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