“A posição do SINAEES-AM é direta: tratar a oportunidade com disciplina. O que abre porta na Europa é prova: prova de origem, de qualidade, de rastreabilidade, de responsabilidade pós-consumo, de seriedade institucional. E nós podemos provar — desde que façamos agora o que o acordo vai cobrar depois”.
O Acordo UE–Mercosul. Para alguns, um mapa novo sobre a mesa. Para nós, no polo eletroeletrônico do Amazonas, ele é também um teste de maturidade: de competitividade, de governança industrial e de capacidade de antecipar exigências antes que se tornem barreiras.
Falo a partir do chão de fábrica e da responsabilidade institucional do SINAEES-AM: o setor eletroeletrônico, quando levado a sério, é mais do que engrenagem produtiva. Ele é infraestrutura invisível do cotidiano — e pode ser, se houver providência e estratégia, infraestrutura visível de um novo ciclo de desenvolvimento tecnológico e sustentável na Amazônia.
O acordo pode abrir portas, sim. Mas porta aberta não é caminho desimpedido. A Europa negocia comércio, porém opera por regras: rastreabilidade, conformidade técnica, sustentabilidade, diligência na cadeia, padronização, segurança do consumidor, responsabilidade pós-consumo. O acordo, portanto, é expectativa e é salvaguarda; é oportunidade e é providência. E o polo eletroeletrônico precisa entrar nele com postura adulta: nem euforia ingênua, nem medo defensivo.
A expectativa: acesso ampliado e previsibilidade
A primeira expectativa é a previsibilidade. Um acordo desse tipo tende a reduzir incertezas tarifárias, harmonizar parte de regras e oferecer um ambiente mais estável para investimentos, inclusive em modernização industrial.
Para o eletroeletrônico, previsibilidade não é detalhe: é o que viabiliza planos de longo prazo em P&D, engenharia, automação, qualificação e escalonamento produtivo. Com horizonte claro, a indústria decide melhor onde colocar capital, como redesenhar portfólio e como integrar cadeias. E previsibilidade é também reputação: quando um país e uma região se mostram confiáveis para o comércio, o mercado responde.
Na Zona Franca de Manaus existe um componente adicional: o acordo pode elevar a pressão por eficiência e conformidade, mas também pode ampliar nossa legitimidade — desde que façamos o dever de casa. A Europa compra de quem prova. A prova, no nosso caso, é industrial e socioambiental.
As salvaguardas: o “como” vale mais do que o “quanto”
Nos acordos contemporâneos, a discussão não é só “quanto se exporta”, mas “como se produz”. E aqui entram as salvaguardas — não como burocracia, mas como condição de acesso real.
a) Regras de origem e o risco do “produto que não nasce”
O setor eletroeletrônico é globalizado; componentes cruzam fronteiras diversas vezes. Se não houver leitura fina das regras, podemos cair num paradoxo: produzir muito, mas não atender origem para acessar preferência tarifária.
Providência: mapear cadeias, índices de conteúdo regional, etapas críticas e estratégias de adensamento produtivo.
b) Conformidade técnica e certificações como passaporte
Normas e certificações não são enfeites: são passaportes. Segurança elétrica, compatibilidade eletromagnética, eficiência energética, substâncias restritas, documentação técnica — tudo isso vira barreira se tratado como “último item”.
Providência: uma agenda setorial de normalização, centros de testes, rotinas de auditoria e qualificação de equipes.
c) Sustentabilidade e diligência na cadeia: a era do “prove”
A União Europeia intensifica exigências de diligência na cadeia (ambiental e social). Isso aumenta custo de conformidade, mas também diferencia quem faz certo.
Providência: rastrear cadeia, formalizar fornecedores, elevar práticas trabalhistas e ambientais, estabelecer governança de compliance e relatórios.
d) Carbono como custo: eficiência vira estratégia industrial
Energia, emissões e eficiência entram no cálculo de preço e de risco reputacional.
Providência: metas de eficiência, inventário de emissões e, quando fizer sentido, compensações confiáveis e auditáveis.
As oportunidades: nova vocação para o polo
Se tratado como plataforma — e não como evento — o acordo abre oportunidades objetivas.
1. Exportação seletiva e inteligente
Não precisamos exportar tudo. Precisamos exportar certo: produtos com valor agregado, confiabilidade e conformidade embutida.
2. Integração tecnológica e atração de investimentos
O polo pode ser parceiro de engenharia e manufatura avançada para a região, não apenas planta de montagem. Isso exige subir na escada de valor: mais engenharia, mais testes, mais software embarcado, mais integração de sistemas.
3. Economia circular como diferencial amazônico-industrial
Circularidade não é retórica no eletroeletrônico: é logística reversa, reparabilidade, remanufatura, design modular, reciclagem com rastreio. O Polo de Manaus pode ser referência nacional nesse campo.
4. Transição energética e digital
O eletroeletrônico é nervo da transição: medição, automação, controle, conectividade, eficiência. O acordo pode acelerar cooperação tecnológica com aderência à realidade amazônica — isolamento, logística difícil, necessidade de robustez e soluções inteligentes.
As providências: o que fazer agora
O tempo do acordo não é o tempo da fábrica. Se esperarmos a poeira baixar, entraremos atrasados. Há providências de empresa, de setor e de Estado.
A) Providências dentro das empresas
- 1- Diagnóstico de conformidade UE (gap de normas, documentação, cadeia, logística reversa e sustentabilidade).
- 2- Rastreabilidade e cadeia (mapear fornecedores, exigir evidências, formalizar padrões).
- 3- Certificações e testes (cronograma de produto, não correção de última hora).
- 4- Eficiência energética e carbono (metas internas e inventários relevantes).
- 5-Qualificação (engenharia, qualidade, compliance, comércio exterior e regulação).
B) Providências do SINAEES-AM e do ecossistema
- 1- Observatório UE–Mercosul do eletroeletrônico: monitorar exigências, treinar empresas, orientar adequações.
- 2- Programa setorial de certificação e ensaios: parcerias com laboratórios, universidades e institutos.
- 3- Agenda de adensamento e origem: identificar etapas com maior impacto e estimular fornecedores estratégicos.
- 4- Pacto de circularidade eletroeletrônica: logística reversa com rastreio e cadeia qualificada de reciclagem.
- 5- Diplomacia industrial: diálogo contínuo e técnico com governo e interlocutores europeus.
C) Providências de política pública
- 1- Infraestrutura e logística: sem previsibilidade logística, não há exportação competitiva.
- 2- Inteligência regulatória e “tradução” de normas europeias para o chão de fábrica: antecipar regras e transformar exigência em roteiro prático.
- 3- Facilitação do comércio e redução do custo exportador: digitalizar, desburocratizar, dar previsibilidade e fluidez real ao processo.
- 4- Política industrial orientada por valor agregado e adensamento competitivo: P&D aplicado, engenharia, formação técnica e cadeia.
- 5– Diplomacia industrial como política de Estado: diálogo contínuo para evitar barreiras disfarçadas e defender competitividade.
Dito isto…
O Acordo UE–Mercosul não é um prêmio. É uma convocação. Ele nos pede uma escolha: ou entramos como plataforma madura — de conformidade, engenharia, eficiência e circularidade — ou veremos o acordo virar, contra nós, um jogo assimétrico em que uns chegam com passaporte e outros com promessa.
A posição do SINAEES-AM é direta: tratar a oportunidade com disciplina. O que abre porta na Europa é prova: prova de origem, de qualidade, de rastreabilidade, de responsabilidade pós-consumo, de seriedade institucional. E nós podemos provar — desde que façamos agora o que o acordo vai cobrar depois.
Porque, no comércio do nosso tempo, vence quem antecipa. E o Polo de Manaus, se agir com providência, pode transformar exigência em vantagem e acordo em plataforma: para exportar melhor, inovar mais, circular com responsabilidade e reafirmar, com dados e entrega, que a Amazônia também é território de indústria avançada — quando a estratégia encontra o compromisso.