O alerta do Estadão e o histórico que Flávio Bolsonaro precisa explicar

Flávio Bolsonaro precisa explicar ao país as relações que construiu no Rio de Janeiro e os interesses que poderão acompanhá-lo à Presidência. Homenagens a personagens ligados às milícias, contratações em seu gabinete, a denúncia das rachadinhas e novas investigações financeiras compõem um histórico que o eleitor tem o direito de examinar antes de entregar ao candidato o comando do governo federal.

O Estadão colocou essa preocupação em termos contundentes no editorial “Flávio e a sombra dos milicianos”, de 23 de setembro. Conforme reproduções do texto, o jornal advertiu que sua candidatura carrega o risco de ascensão das milícias ao topo do poder da República. A advertência exige que o debate eleitoral enfrente as relações políticas e os negócios do candidato. (acaopopular.net⁠)

alerta do Estadão

“Diga-me com quem andas e te direi quem és.” O provérbio popular ganha conteúdo concreto quando aplicado a quem escolhe assessores, concede homenagens, apoia candidaturas e participa da distribuição de poder. Essas decisões revelam critérios, lealdades e compromissos que a propaganda eleitoral raramente esclarece.

Adriano da Nóbrega recebeu homenagens de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2005, foi agraciado com a Medalha Tiradentes quando estava preso preventivamente, acusado de homicídio. Mais tarde, o Ministério Público o apontaria como chefe do Escritório do Crime e liderança da milícia de Rio das Pedras.

A relação alcançou o gabinete parlamentar. Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa, mãe e ex-esposa de Adriano, ocuparam cargos na estrutura de Flávio. As indicações foram atribuídas a Fabrício Queiroz, assessor que se tornaria o principal personagem da investigação sobre recolhimento de salários de funcionários. (atarde.com.br⁠)

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Homenagear alguém e contratar seus familiares são decisões de um mandato. O parlamentar responde politicamente pelos critérios que adota e pela fiscalização de sua equipe. A alegação de que um assessor fez as indicações deixa aberta a pergunta sobre como Flávio administrava o gabinete financiado pelo contribuinte.

Em outubro de 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz e outros 15 investigados por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. A denúncia abrangia fatos entre 2007 e 2018. (mprj.mp.br⁠)

A acusação descrevia um esquema de recolhimento de parte dos salários de assessores em benefício do então deputado. Apontava também indícios de uso da loja de chocolates da qual Flávio era sócio para lavar até R$ 1,6 milhão por meio de depósitos em dinheiro vivo. (www1.folha.uol.com.br⁠)

Decisões do STJ e do STF anularam provas e atos da investigação, inviabilizando a denúncia. Os fundamentos envolveram a autorização das quebras de sigilo, a competência do juízo e a produção de relatórios do Coaf. Flávio negou os crimes e não foi condenado; as acusações tampouco foram resolvidas em julgamento de mérito. (noticias.uol.com.br⁠, correiobraziliense.com.br⁠, noticias.stf.jus.br⁠, noticias.uol.com.br⁠)

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FLÁVIO BOLSONARO E FABRÍCIO QUEIROZ. FOTO: REDES SOCIAIS

Esse desfecho precisa ser compreendido pelo eleitor. A anulação definiu os limites jurídicos do processo, mas deixou sem uma resposta de mérito as questões levantadas sobre o funcionamento do gabinete e a circulação do dinheiro. Para quem pretende administrar o orçamento federal, explicar a gestão dos recursos públicos sob sua responsabilidade é uma obrigação política elementar.

A escolha de Márcio Canella para disputar o Senado mostra a importância das alianças fluminenses no projeto presidencial. A composição anunciada em fevereiro previa Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, como primeira suplente de Canella. A chapa não se concretizou depois da prisão do ex-prefeito de Belford Roxo, em julho, quando um fuzil de uso restrito foi encontrado em seu carro. Ele acabou concorrendo à Assembleia Legislativa. (noticias.uol.com.br⁠)

Em 15 de outubro, Canella voltou a ser preso, na oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de postos de combustíveis. Também foi preso Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil do Rio. (tmc.com.br⁠)

O debate do ICL apresentado ao BAA chama atenção para a posição que Canella ocupava nesse grupo político e questiona a persistência do apoio que recebia. A pergunta é pertinente. Que critérios levaram Flávio a querer Canella no Senado, numa composição que reservava à própria mãe a suplência? A resposta interessa a quem precisa avaliar como o candidato escolheria seus parceiros no governo federal.

As apurações recentes ampliam o quadro. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo de 20 de outubro, o inquérito sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio e o advogado Willer Tomaz também investiga Cláudio Castro e Alexandre Ramagem. Entre os pontos examinados estão negócios no setor de apostas e possíveis irregularidades em uma contratação da Loterj. As defesas contestam as suspeitas; Castro declarou desconhecer os vínculos mencionados. (www1.folha.uol.com.br⁠)

Outra reportagem da Folha descreve endereços compartilhados, viagens e vínculos comerciais entre Flávio e Willer sob investigação da Polícia Federal. O senador sustenta que mantém uma relação de amizade com o advogado e nega irregularidades. (c-level.folha.uol.com.br⁠)

PF apura suspeitas de lavagem envolvendo Flavio Bolsonaro

A cobrança pública precisa acompanhar o conteúdo dessas revelações. Quais serviços foram prestados? Quem pagou pelas viagens? Qual é a participação de cada envolvido nos negócios examinados? Que relações existem entre interesses privados e decisões tomadas na administração pública?

Alegar perseguição eleitoral não responde a essas perguntas. Elas exigem explicações sobre operações específicas, sobretudo de um candidato que pede autoridade para dirigir as instituições responsáveis pelo combate à corrupção e ao crime organizado.

O eleitor escolhe um presidente e, com ele, abre espaço para um conjunto de aliados, nomeações e interesses. Por isso, as relações construídas por Flávio no Rio de Janeiro têm importância nacional. Seus critérios para escolher assessores e parceiros ajudam a avaliar como poderá exercer o poder em Brasília.

Segurança pública também depende da capacidade de impedir que organizações criminosas encontrem proteção, influência e oportunidades dentro do Estado. Uma candidatura que promete enfrentá-las precisa demonstrar coerência nas próprias relações políticas.

É por isso que o alerta do Estadão deve encerrar esta discussão com o peso que merece. Ao examinar o histórico de Flávio Bolsonaro, o jornal advertiu para o “risco da ascensão das milícias ao topo do poder” da República. O eleitor tem o direito de cobrar uma resposta à altura dessa gravidade antes de votar. (paginadepolicia.com.br⁠)

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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