Sem internet no campo, agricultura 4.0 no Brasil perde força, aponta estudo

Pesquisa revela como infraestrutura digital, acesso à informação e inclusão produtiva podem acelerar a agricultura 4.0 no Brasil sem ampliar desigualdades no campo.

A expansão da chamada agricultura 4.0 no Brasil depende menos da criação de novas tecnologias e mais da capacidade de fazê-las chegar, de forma eficiente, ao campo. É o que aponta um estudo publicado na revista Agricultural Systems, que identificou os principais fatores que impulsionam, ou limitam, a adoção de soluções digitais no sistema agroalimentar brasileiro.

A pesquisa, conduzida por especialistas ligados ao Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital (Semear Digital), analisou 18 fatores determinantes, os chamados drivers, organizados em dimensões sociais, políticas e tecnológicas. O objetivo foi entender por que, apesar dos avanços científicos, muitas inovações ainda não se traduzem em ganhos concretos para produtores rurais, um dos principais desafios da agricultura 4.0 no Brasil.

Entre os elementos com maior impacto, a conectividade no meio rural aparece como condição básica. Embora o acesso à internet tenha avançado em áreas residenciais, ainda há limitações significativas nas regiões produtivas, onde tecnologias como sensores e internet das coisas precisam operar. Sem infraestrutura adequada, essas ferramentas perdem eficiência ou sequer funcionam, o que compromete o avanço da agricultura 4.0 no Brasil.

Plantação com símbolo de wi-fi representando a conectividade na agricultura 4.0 no Brasil
Conectividade rural é um dos principais desafios para expandir a agricultura 4.0 no Brasil. Foto: MD Tecnologias

Outro fator relevante é o papel da juventude no campo. O estudo destaca que jovens rurais atuam como mediadores entre o universo digital e a realidade das propriedades, contribuindo para a adoção de novas práticas. No entanto, sua permanência depende de acesso a oportunidades, infraestrutura e perspectivas de desenvolvimento, condições que ainda não são homogêneas no país.

A circulação de informações também surge como um ponto crítico. Em muitas regiões, produtores têm pouco ou nenhum contato com determinadas tecnologias, o que aumenta a resistência à adoção. Estratégias como fazendas-modelo e ambientes de demonstração são apontadas como alternativas para reduzir incertezas, permitindo que agricultores avaliem resultados antes de investir.

No campo das políticas públicas, os pesquisadores defendem abordagens diferenciadas conforme o perfil dos produtores. Enquanto grandes propriedades tendem a incorporar rapidamente novas tecnologias, pequenos e médios agricultores enfrentam barreiras financeiras e de capacitação. Incentivos regionais, parcerias entre instituições e acesso facilitado ao crédito estão entre as recomendações.

O estudo também introduz o conceito de “escala responsável”, que propõe a expansão das tecnologias digitais considerando seus impactos sociais, ambientais e econômicos. A ideia é evitar que a inovação amplie desigualdades ou gere efeitos negativos, alinhando a transformação digital às metas de desenvolvimento sustentável.

Nesse contexto, a agricultura 4.0 no Brasil deixa de ser apenas uma questão tecnológica e passa a envolver governança, inclusão e planejamento estratégico. Para os autores, a adoção bem-sucedida dessas ferramentas depende de um ecossistema integrado, capaz de conectar pesquisa, políticas públicas e realidade produtiva no campo brasileiro. 

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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