Mensagens ameaçam invasão da Terra Indígena Apyterewa se Flávio Bolsonaro vencer o segundo turno e levam governo a reforçar proteção. Focos de incêndio subiram de 41 em julho para 1.007 em setembro.
Lideranças do povo Parakanã receberam mensagens que anunciam uma possível invasão à Terra Indígena Apyterewa, no Pará, associada à vitória de Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, os relatos chegaram aos órgãos de inteligência e motivaram a decisão do governo federal de ampliar a segurança na região.
A Folha teve acesso a oito áudios enviados por WhatsApp a indígenas. Neles, moradores afirmam que fazendeiros se preparam para ocupar o território após o segundo turno, marcado para 25 de outubro. As mensagens expressam a expectativa de que uma eventual gestão de Flávio e o governador eleito do Pará, Dr. Daniel (Podemos), favoreçam a transferência das terras aos pecuaristas.
Essa expectativa é atribuída aos autores dos recados. A reportagem não apresenta comprovação de compromisso dos políticos com a invasão. Procurada pela Folha, a campanha de Flávio não havia respondido até a publicação. O governo paraense também não se manifestou e a assessoria de Dr. Daniel informou que ele não comentaria o caso.
Para preservar a segurança dos envolvidos, o jornal não divulgou suas identidades nem a transcrição das gravações. A origem do material foi checada por meio do cruzamento de metadados com bases de dados e de entrevistas com investigadores, que confirmaram vínculos com endereços próximos à Apyterewa.
Governo determina reforço da proteção
As ameaças foram discutidas pelo Comitê de Desintrusão do governo federal em reunião na quinta-feira (8). O Ministério dos Povos Indígenas informou que o grupo decidiu aumentar o efetivo mobilizado para impedir novas ocupações e manter a retirada de invasores.
Polícia Federal, Ibama, Funai e Ministério dos Povos Indígenas afirmaram acompanhar a situação. A pasta informou que cabe às autoridades policiais investigar os áudios que relacionam o resultado eleitoral à invasão. O Ibama relatou ainda indícios de mobilização em outras áreas da Amazônia, incluindo terras indígenas e unidades protegidas, para retomar atividades de garimpo ilegal.
De acordo com os relatos reunidos pela Folha, moradores observaram maior circulação de motocicletas e caminhonetes nas proximidades da Terra Indígena Apyterewa. Também mencionaram a compra de lonas e materiais para roças, que seriam usados em uma nova ocupação. Alguns recados de moradores da região orientam os Parakanã a evitar áreas preparadas por pecuaristas e a deixar a região.
Incêndios ampliam a preocupação
A pressão sobre a Terra Indígena Apyterewa ocorre em meio ao aumento dos focos de incêndio. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), compilados pelo Programa Xingu e citados pela Folha, registraram 41 focos em julho, 626 em agosto e 1.007 em setembro. Investigadores apuram se parte das queimadas foi provocada por fazendeiros. A suspeita de ação deliberada permanece sob investigação.
A Apyterewa sofre com um histórico de ocupações ilegais e violência. Invasores chegaram a estabelecer dentro da área um núcleo conhecido como Vila Renascer. A retirada dos ocupantes começou em 2023 e a desintrusão enfrentou resistência, com emboscadas durante operações de remoção de gado e destruição de pontes para bloquear a passagem das equipes. Um servidor da Funai foi baleado no fim de 2023. Em 2025, um trabalhador contratado pelo Ibama foi morto.
Desmatamento atingiu recorde em 2022
A perda de floresta também marcou os conflitos na Terra Indígena Apyterewa. Segundo os dados do Inpe, o desmatamento passou de 18,9 km² em 2018 para 85,3 km² em 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro. Em 2022, chegou a 102,2 km², o maior registro da série citada. Em 2023, recuou para 20,6 km².
O território integra as áreas abordadas na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 709. Em 2020, o então ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso determinou a retirada de invasores de terras indígenas. Entretanto, a medida não foi cumprida durante a gestão Bolsonaro, a desintrusão começou em 2023 durante o governo Lula.
Homologada em 2007, a Terra Indígena Apyterewa ocupa 773 mil hectares em São Félix do Xingu, próximo ao rio Xingu, e abriga mais de mil indígenas Parakanã. Classificado como de recente contato, o povo mantém autonomia cultural e social e um distanciamento da sociedade não indígena, condição que amplia sua vulnerabilidade diante da presença de invasores.