“O alerta de Thomas Piketty, respeitável economista francês, amplia a discussão sobre as pressões americanas. Uma guinada trumpista no Brasil comprometeria a capacidade do país de disputar regras econômicas mais justas e participar das decisões sobre o futuro climático“
Thomas Piketty olha para o Brasil e identifica uma possibilidade que parte do debate brasileiro parece desprezar. O país pode contribuir para reformular o sistema econômico e monetário internacional, levando para suas decisões as demandas por democracia, igualdade e responsabilidade climática. Na fala que motiva esta reflexão, o economista francês considera que a perda dessa dimensão progressista e internacionalista seria triste para os brasileiros e também para o mundo. Sua preocupação merece ser examinada à luz das pressões externas discutidas no ensaio de ontem.
Há uma relação entre a autonomia de um país e aquilo que ele consegue propor aos demais. Um Brasil ocupado em acomodar exigências de Washington, receoso de punições ou politicamente alinhado ao trumpismo teria menor liberdade para questionar a distribuição internacional de poder e riqueza. A pressão estrangeira produz efeitos sobre decisões comerciais e diplomáticas, mas também pode estreitar o horizonte de um governo, fazendo com que propostas necessárias sejam abandonadas antes mesmo de chegar à mesa de negociação.
Piketty menciona Brasil, África do Sul, Índia e Indonésia como países capazes de sustentar uma pressão contínua por justiça econômica e climática. Essa aproximação exige negociação entre sociedades com interesses e contradições próprias. Seu potencial está na possibilidade de ampliar a participação de populações que convivem com necessidades enormes de investimento e têm pouca influência sobre as regras que determinam o custo do dinheiro, a circulação da riqueza e as condições de acesso à tecnologia.
A Amazônia participa dessa disputa
Para quem vive na Amazônia, a discussão está próxima. Proteger a floresta e melhorar a vida de sua população exige recursos, conhecimento e uma economia capaz de oferecer oportunidades. Quando o financiamento é insuficiente e a tecnologia permanece concentrada, a cobrança pela conservação pode conviver com condições que dificultam sua realização. O Brasil precisa de liberdade para discutir essa distribuição de responsabilidades e para defender que a preservação venha acompanhada de meios materiais de desenvolvimento.
Essa posição ganha consistência quando o país consegue articular suas necessidades com as de outras regiões. Há espaço para cooperação científica, formação profissional, produção industrial e financiamento de infraestrutura adaptada às condições locais. Uma diplomacia comprometida com esses objetivos pode aproximar a agenda internacional da vida de quem depende de transporte fluvial, energia confiável, atendimento de saúde e trabalho remunerado. A dimensão internacionalista defendida por Piketty encontra aí uma tradução concreta.
O alcance da adesão ao trumpismo
O nacionalismo trumpista promete força e proteção aos que se alinham a ele. Para um país como o Brasil, essa aproximação precisa ser avaliada pelo espaço de decisão que preserva e pelos interesses que passa a atender. Existe uma contradição política séria quando dirigentes apresentam a identificação com uma potência estrangeira como demonstração de patriotismo, sobretudo se aceitam que ela pressione instituições brasileiras ou intervenha em conflitos nacionais.
A reflexão de ontem examinou os instrumentos e os apoios que podem favorecer essa interferência. Piketty permite avançar sobre suas consequências. Além das decisões que o Brasil poderia ser constrangido a tomar, há aquelas que deixaria de propor. Uma agenda de reforma econômica internacional, cooperação climática e redução das desigualdades pode perder um de seus participantes relevantes quando a política externa se organiza em torno da aprovação de Washington.
O futuro brasileiro terá de ser construído também nas relações com os Estados Unidos, com quem há interesses legítimos de comércio e cooperação. A qualidade dessa relação depende de respeito à autonomia e de capacidade de negociação. O alerta de Piketty nos convida a avaliar quanto dessa capacidade seria sacrificado por uma adesão ao trumpismo. Para a Amazônia e para o país, o custo incluiria oportunidades de desenvolvimento e a possibilidade de participar, com voz própria, das decisões que vão condicioná-las.
- MENDES, Vinícius. BBC News Brasil, 29 set. 2026. Entrevista com Thomas Piketty, reproduzida pelo Correio Braziliense sob o título “Brasil seguir nacionalismo de Trump seria ruim para o mundo, diz Piketty à BBC”. É a fonte central da reflexão, reunindo suas posições sobre trumpismo, soberania, tributação de bilionários e reforma monetária internacional.
- G20. Declaração de Líderes do Rio de Janeiro, 18–19 nov. 2024. Disponível na página de documentos oficiais. Sustenta a contextualização sobre as prioridades da presidência brasileira: combate à fome e à desigualdade, ação climática e reforma da governança global.
- CHANCEL, Lucas; BOTHE, Philipp; VOITURIEZ, Tancrède. Climate Inequality Report 2023. World Inequality Lab, 2023. Oferece a base de pesquisa para relacionar desigualdade, impactos climáticos e financiamento do desenvolvimento nos países do Sul global.