Conheça as propostas dos candidatos ao governo do Maranhão 2026

Planos dos três candidatos mais bem colocados ao governo do Maranhão revelam propostas e lacunas em bioeconomia, energia, proteção dos biomas, povos originários e adaptação climática.

O Maranhão chega às eleições de 2026 com uma disputa sobre os rumos do desenvolvimento. A expansão agropecuária e os projetos de energia e infraestrutura convivem com a pressão sobre a vegetação nativa e os territórios tradicionais. Em 2024, o Maranhão registrou 363 ocorrências de violência relacionadas à terra, segundo a Comissão Pastoral da Terra. 

O saldo da gestão de Carlos Brandão (MDB) também entra no debate. O governo apresentou iniciativas de economia verde e atração de investimentos em energia renovável, ao mesmo tempo que defendeu a exploração de petróleo e gás. As propostas para o próximo mandato terão de responder como essas escolhas se relacionam com a conservação ambiental e a adaptação climática.

Na pesquisa Quaest, divulgada em 25 de setembro, Eduardo Braide (PSD) aparece com 46% das intenções de voto, seguido por Orleans Brandão (MDB), com 27%, e Felipe Camarão (PT), com 10%. A margem de erro é de três pontos percentuais. Também disputam o governo André Luís (Missão), Dimas Cassimiro (PCO), Reginaldo Lima (PCB), Roberto Rocha (PRTB) e Saulo Arcangeli (PSTU). 

A reportagem compara os planos de governo apresentados ao TSE pelos três candidatos mais bem colocados em cinco eixos: bioeconomia e desenvolvimento sustentável, transição energética, desmatamento e queimadas, povos originários e adaptação climática. Conheça as propostas de cada um. 

Eduardo Braide (PSD)

Advogado e ex-prefeito de São Luís, foi deputado estadual por dois mandatos e deputado federal. Eleito prefeito em 2020 e reeleito em 2024, deixou o cargo em 2026 para disputar o governo do Maranhão. Tem Elaine Carneiro (PSD) como candidata a vice-governadora. 

Bioeconomia e desenvolvimento sustentável

  • Cadeia do babaçu: Propõe fortalecer a cadeia produtiva do babaçu e valorizar as mulheres quebradeiras de coco, ampliando o beneficiamento, a agregação de valor, a industrialização e o acesso a mercados.
  • Assistência técnica e extensão rural: Prevê ampliar e qualificar a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) para agricultores familiares, por meio da reestruturação da AGERP.
  • Crédito rural: Promete apoiar o acesso de produtores rurais e agricultores familiares a linhas de crédito.
  • Industrialização e agregação de valor: Busca fomentar o processamento dos produtos agropecuários maranhenses, fortalecendo cadeias como couro, milho, soja e produtos da agricultura familiar.
  • Compras da agricultura familiar: Propõe ampliar a compra de alimentos produzidos pela agricultura familiar.
  • Reciclagem e economia circular: Prevê fortalecer cooperativas e associações de catadores de materiais recicláveis.
  • Desenvolvimento local: Propõe criar o Programa OportuCidades para impulsionar os municípios maranhenses, valorizando suas vocações econômicas, turísticas, culturais e produtivas.

Contradições e lacunas: 

O plano combina o apoio às quebradeiras de coco e à agricultura familiar com o incentivo à industrialização de cadeias como soja, milho e couro, mas não estabelece salvaguardas para evitar pressões sobre babaçuais, vegetação nativa e territórios tradicionais. Também propõe simplificar o licenciamento ambiental, com a ressalva de preservar a proteção do meio ambiente, sem detalhar como garantirá a capacidade de fiscalização e monitoramento no Maranhão. 

O documento não apresenta um programa, plano estadual ou conceito formal de bioeconomia. O termo “bioeconomia” sequer é mencionado no texto. Assim, as iniciativas não compõem uma estratégia integrada de bioeconomia para o Maranhão e carecem de metas quantitativas, prazos, indicadores e fontes de financiamento. 

Faltam mecanismos de remuneração pela conservação, como Pagamento por Serviços Ambientais, e apoio a outras cadeias da sociobiodiversidade além do babaçu. O Programa OportuCidades também não vincula expressamente o desenvolvimento municipal a critérios de conservação da biodiversidade e redução de emissões. 

Transição energética

  • Ausência de propostas específicas: O plano não apresenta diretrizes expressas para transição energética, energias renováveis ou eficiência energética.

Contradições e lacunas:

Embora proponha revisar e atualizar o Plano Estadual de Mudanças Climáticas e a política estadual de enfrentamento climático, alinhando-os ao plano nacional, o documento não detalha medidas para reduzir as emissões do setor energético no Maranhão. Também prioriza a ampliação de rodovias e da infraestrutura de mobilidade urbana sem associar essas propostas à redução do uso de combustíveis fósseis. Faltam iniciativas de eletrificação de frotas, infraestrutura de recarga e incentivo a biocombustíveis que conectem os investimentos em transporte à agenda climática.

Desmatamento e queimadas

  • Licenciamento ambiental: Propõe modernizar e simplificar os procedimentos de licenciamento e as autorizações estaduais, reduzindo burocracias e prazos, com a ressalva de não comprometer a proteção do meio ambiente.
  • Ausência de propostas específicas: O plano não apresenta metas ou ações expressamente direcionadas ao combate ao desmatamento, às queimadas e aos incêndios florestais.

Contradições e lacunas:

A simplificação do licenciamento e o incentivo às cadeias agropecuárias no Maranhão, como soja e milho, não vêm acompanhados de salvaguardas explícitas contra a supressão de vegetação nativa ou de medidas para reforçar a fiscalização. Essa ausência também limita a conexão entre a atualização da política climática proposta e o enfrentamento das emissões decorrentes das mudanças no uso do solo. Faltam metas de redução do desmatamento e restauração florestal, estratégias de prevenção e combate a incêndios, brigadas e sistemas de alerta precoce. O documento também não detalha o fortalecimento dos órgãos ambientais nem apresenta diretrizes para a validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a regularização ambiental das propriedades, incluindo a recomposição de Áreas de Preservação Permanente e Reserva Legal.

Povos originários

  • Educação diferenciada: Propõe promover uma educação indígena, quilombola e do campo que respeite as especificidades culturais, territoriais e pedagógicas de cada comunidade.
  • Ações afirmativas e igualdade racial: Prevê ampliar as políticas estaduais de ações afirmativas, promovendo a igualdade racial e a equidade e enfrentando a discriminação e a violência.

Contradições e lacunas: 

O plano trata a regularização fundiária de forma genérica, sem detalhar garantias à posse coletiva de comunidades tradicionais ou medidas para resolver sobreposições de títulos privados em territórios reivindicados. O incentivo às cadeias agropecuárias, às obras de transporte e à simplificação do licenciamento também não vem acompanhado de salvaguardas territoriais explícitas ou mecanismos de consulta prévia, livre e informada. 

As propostas específicas concentram-se na educação diferenciada, sem estruturar ações de saúde, segurança alimentar, saneamento e proteção do patrimônio cultural dessas populações. Faltam medidas estaduais de apoio à demarcação, à desintrusão e à gestão e proteção das Terras Indígenas, em articulação com a União, além do fortalecimento de instâncias de participação e governança voltadas aos povos originários.

Adaptação climática

  • Gestão e política climática estadual: Propõe revisar e atualizar o Plano Estadual de Mudanças Climáticas e a Política Estadual de Enfrentamento das Mudanças Climáticas, alinhando-os ao plano nacional e estabelecendo prioridades para sua execução.

Contradições e lacunas:

A atualização da política climática no Maranhão não vem acompanhada de prioridades concretas, metas, prazos ou orçamento. Os investimentos em pavimentação e infraestrutura urbana também não são vinculados a medidas de drenagem sustentável, arborização ou redução de ilhas de calor, deixando indefinido como contribuirão para enfrentar eventos extremos.

Faltam propostas de fortalecimento da Defesa Civil, mapeamento e monitoramento de áreas de risco e proteção das populações mais vulneráveis no Maranhão. O documento não apresenta soluções baseadas na natureza, como recuperação de manguezais e matas ciliares, nem estratégias de adaptação da agricultura às secas, como sistemas agroflorestais e manejo da água. A ausência de ações específicas contra o desmatamento e as queimadas também limita a integração entre conservação ambiental e resiliência climática. 

Orleans Brandão (MDB)

Empresário e formado em Administração, disputa seu primeiro cargo eletivo. Foi secretário estadual de Assuntos Municipalistas a partir de 2023 e é sobrinho do governador Carlos Brandão (MDB), de cujo grupo político recebe apoio para a sucessão. Sua chapa tem o ex-prefeito de São Luís, Edivaldo Holanda Júnior (Republicanos), como vice. 

Bioeconomia e desenvolvimento sustentável

  • Pesquisa e saberes tradicionais: Propõe criar núcleos de pesquisa em bioeconomia, em parceria com a Embrapa e universidades, reconhecendo os saberes de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos.
  • Pesca artesanal e extrativismo: Prevê estudos da área costeira e a implantação de atracadouros, terminais pesqueiros e estruturas de refrigeração para apoiar pescadores artesanais e comunidades tradicionais, conforme diagnóstico socioterritorial.
  • Beneficiamento de pescados e mariscos: Propõe implantar usinas de beneficiamento em parceria com os municípios, considerando as potencialidades regionais.
  • Aquicultura na Baixada Maranhense: Prevê implantar um projeto produtivo com infraestrutura e capacitação técnica para aquicultores da região.
  • Compras da agricultura familiar: Promete ampliar o Programa de Compras da Agricultura Familiar (PROCAF) e abastecer cozinhas comunitárias com alimentos da agricultura familiar.
  • Cooperativismo e associativismo: Propõe implantar um programa de apoio a cooperativas e associações, com foco em pequenos produtores rurais e comunidades tradicionais.
  • Cadeias produtivas regionais: Prevê garantir infraestrutura e assistência técnica para desenvolver e fortalecer cadeias produtivas, considerando as potencialidades de cada região.
  • Reciclagem e economia circular: Propõe apoiar a coleta seletiva e os aterros sanitários regionais, além de implantar a coleta seletiva em órgãos estaduais e eventos públicos.

Contradições e lacunas:

A proposta específica de bioeconomia concentra-se na criação de núcleos de pesquisa, sem detalhar metas, incentivos fiscais ou apoio financeiro para transformar os resultados em produção e renda para as comunidades. Embora preveja infraestrutura e assistência técnica para cadeias regionais, o plano não identifica prioridades ou ações específicas para outros produtos da sociobiodiversidade além dos pescados e mariscos. Também faltam mecanismos de remuneração pela conservação, como Pagamento por Serviços Ambientais, e diretrizes para que comunidades locais e pequenos produtores acessem recursos do mercado de carbono.

Transição energética

  • Energias renováveis e recursos estratégicos: Propõe atrair investimentos privados para energias renováveis, minerais críticos e terras raras.
  • Distribuição e abastecimento de gás natural: Prevê ampliar o Sistema de Distribuição de Gás Natural de São Luís (SDNG2) e implantar um terminal de abastecimento de Gás Natural Veicular (GNV).

Contradições e lacunas:

O incentivo às energias renováveis convive com a expansão do gás natural e o apoio à exploração de petróleo e gás na Margem Equatorial, sem esclarecer como essas apostas serão conciliadas com a redução de emissões e da dependência de combustíveis fósseis no Maranhão. A referência às fontes renováveis é genérica, sem metas ou ações específicas para energia solar, eólica, biomassa ou hidrogênio verde. Na mobilidade urbana, faltam propostas de eletrificação das frotas de ônibus e implantação de infraestrutura de recarga para o transporte público.

Desmatamento e queimadas 

  • Cadastro Ambiental Rural: Propõe intensificar a validação do CAR e identificar passivos ambientais para instituir Planos de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD).
  • Preservação da Amazônia e do Cerrado: Prevê fortalecer políticas e parcerias para conservar a biodiversidade dos dois biomas no Maranhão.
  • Fiscalização ambiental: Propõe ampliar a estrutura operacional do Batalhão Ambiental da Polícia Militar para prevenir e reprimir crimes ambientais.
  • Prevenção e combate a incêndios: Prevê reforçar os equipamentos do Corpo de Bombeiros para atuar em incêndios florestais.

Contradições e lacunas:

O plano propõe obras para escoar a produção de grãos, como o Anel da Soja e a ampliação da infraestrutura rodoviária, portuária e ferroviária, sem detalhar salvaguardas contra a pressão dessas obras sobre a vegetação nativa. Também não fixa metas de redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado do Maranhão nem explica como conter o avanço da fronteira agrícola sobre áreas vulneráveis. Embora mencione a regulamentação do Zoneamento Ecológico-Econômico do Maranhão (ZEE/MA), não esclarece como o instrumento orientará as autorizações de supressão de vegetação.

Povos originários

  • Participação na bioeconomia: Reconhece povos indígenas e comunidades quilombolas e ribeirinhas nas diretrizes do plano e propõe considerar seus saberes em núcleos de pesquisa em bioeconomia.
  • Desenvolvimento quilombola: Propõe criar rotas para agrupar comunidades quilombolas por proximidade geográfica, produção e características culturais.
  • Regularização fundiária: Prevê apoio técnico a comunidades tradicionais para regularização de terras e apoio à certificação quilombola.
  • Educação diferenciada: Propõe respeitar a diversidade de estudantes indígenas, quilombolas e afrodescendentes no ensino médio em tempo integral.
  • Saúde itinerante: Prevê unidades móveis fluviais e terrestres para atender comunidades ribeirinhas e quilombolas.
  • Combate à violência: Propõe fortalecer unidades especializadas no enfrentamento de crimes agrários e raciais.

Contradições e lacunas:

O plano incentiva a exploração de minerais críticos, a ampliação da malha ferroviária e projetos no mar sem detalhar salvaguardas para territórios indígenas e de comunidades tradicionais potencialmente afetados no Maranhão. Embora apresente iniciativas voltadas a quilombolas e ribeirinhos, não especifica ações estaduais de apoio à demarcação, à proteção contra invasões ou à gestão ambiental de Terras Indígenas. Também não estabelece mecanismos de consulta prévia, livre e informada para as comunidades diante das obras e dos projetos extrativos propostos.

Adaptação climática

  • Plano de emergência climática: Propõe elaborar o Plano Estadual de Emergência Climática em parceria com universidades.
  • Recursos para emergências: Prevê usar o Fundo Estadual de Recursos Estratégicos para atender situações provocadas por eventos climáticos extremos.
  • Prevenção e monitoramento: Propõe prevenir desastres, como enchentes, e integrar o monitoramento da Vigilância Ambiental às ações da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros.
  • Contenção de voçorocas: Prevê estudos geológicos, obras de contenção e, quando necessário, evacuação e realocação de moradores em municípios como Buriticupu, Açailândia e Bom Jesus das Selvas.
  • Conservação do solo e arborização: Propõe ações contra a erosão e a desertificação, além de apoio aos municípios para ampliar a arborização urbana.

Contradições e lacunas:

O plano prevê a contenção de voçorocas, mas não detalha como enfrentará fatores ligados ao uso do solo que podem agravar a erosão. Também apresenta medidas de resposta a emergências no Maranhão sem especificar ações estruturais de prevenção nas cidades, como drenagem sustentável e infraestrutura verde. De forma geral faltam propostas de adaptação à seca e ao estresse hídrico. 

Felipe Camarão (PT)

Procurador federal de carreira e professor universitário, é vice-governador do Maranhão desde 2023. Foi secretário estadual da Educação durante o governo Flávio Dino e voltou a comandar a pasta na gestão Carlos Brandão. Após o rompimento político entre os dois grupos, disputa o governo pelo PT com Ricardo Rodrigues (PT) como vice. 

Bioeconomia e desenvolvimento sustentável

  • Babaçu e sociobiodiversidade: Propõe criar um programa de bioeconomia voltado ao beneficiamento do babaçu, à economia azul e aos frutos nativos, com ações de certificação, inovação e definição de preços mínimos para reduzir a dependência de atravessadores.
  • Agroindústrias familiares: Estabelece a meta de implantar agroindústrias para beneficiamento, armazenamento e escoamento da produção da agricultura familiar e do extrativismo.
  • Compras públicas: Prevê retomar e ampliar programas de abastecimento e compra da agricultura familiar, destinando parte dessa produção à merenda escolar e reservando uma cota para os Restaurantes Populares.
  • Agroecologia e assistência técnica: Propõe universalizar a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) especializada, criar biofábricas e ampliar o uso de bioinsumos. A meta é aumentar em 50% a produção agroecológica certificada.

Contradições e lacunas:

O incentivo à bioeconomia familiar e à agroecologia convive com a proposta de ampliar a logística e o processamento de grãos no sul do Maranhão. O plano não detalha como evitar que a expansão dessas cadeias pressione territórios e áreas de produção tradicional. 

Transição energética

  • Energia que fica: Propõe um programa que reúne energia solar, eólica, biocombustíveis e exploração de petróleo e gás na Margem Equatorial. Prevê exigências de conteúdo local, geração de empregos, compensação socioambiental e apoio a projetos de energia comunitária.
  • Biocombustíveis locais: Pretende incentivar, por meio da FAPEMA, pesquisas universitárias sobre a produção de biocombustíveis a partir de culturas agrícolas de cada território.
  • Justiça energética: Busca ampliar a participação do Maranhão na economia de baixo carbono e reter parte dos benefícios dos projetos energéticos no estado, por meio de empregos, fornecedores locais e energia comunitária.

Contradições e lacunas:

O plano inclui a exploração de petróleo e gás na Margem Equatorial no mesmo programa dedicado à transição energética, sem explicar como a expansão de combustíveis fósseis será conciliada com a descarbonização. Também não estabelece metas quantitativas para ampliar as fontes renováveis ou diminuir as emissões de carbono, nem apresenta medidas para eletrificar as frotas de transporte público semiurbano e rodoviário ou metas específicas.

Desmatamento e queimadas

  • Maranhão Verde e brigadas comunitárias: Propõe recuperar nascentes, matas ciliares e manguezais, além de criar brigadas comunitárias remuneradas para prevenir e combater o desmatamento e as queimadas.
  • ICMS Ecológico: Prevê reestruturar os repasses aos municípios com base em critérios mensuráveis de conservação ambiental.
  • Fiscalização e proteção territorial: Propõe usar inteligência no combate aos crimes ambientais e na proteção dos territórios.
  • Zoneamento Ecológico-Econômico: Prevê vincular obrigatoriamente o ZEE-MA atualizado à concessão de crédito rural e ao licenciamento de agroindústrias.

Contradições e lacunas:

A expansão rodoviária e o fortalecimento da cadeia agromineral podem ampliar a pressão sobre a vegetação nativa do Cerrado. Embora estabeleça o ZEE-MA como condição para crédito rural e licenciamento de agroindústrias, o plano não detalha salvaguardas equivalentes para as obras de infraestrutura. Também não fixa metas ou prazos para eliminar o desmatamento ilegal nem estabelece compromissos específicos de redução da supressão legalmente autorizada na Amazônia e no Cerrado maranhense.

Povos originários

  • Consulta prévia e participação: Assume o compromisso com a consulta prévia, livre e informada sobre empreendimentos que afetem os territórios das comunidades, conforme a Convenção 169 da OIT.
  • Maranhão Quilombola: Propõe reestruturar o programa, com regularização fundiária, infraestrutura e Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) quilombolas. Prevê uma mesa de diálogo deliberativa, com composição paritária.
  • Proteção dos povos indígenas: Prevê implementar o Sistema Estadual de Proteção dos Povos Indígenas, oferecer assistência técnica rural específica e fortalecer iniciativas como Escola Digna Indígena e CRAS indígenas, além de apoiar a Universidade Indígena e a Escola dos Mares e das Águas.
  • Educação e regularização territorial: Propõe valorizar a educação multicultural e diferenciada e agilizar os processos de regularização fundiária pelo ITERMA.

Contradições e lacunas:

O compromisso com a consulta prévia convive com propostas de ampliação de obras logísticas, hidrovias, portos e exploração de recursos na Margem Equatorial, sem esclarecer como a participação das comunidades poderá modificar ou impedir projetos que afetem seus territórios. Na proteção territorial, o plano não detalha a articulação com os órgãos federais responsáveis pela demarcação de Terras Indígenas e pela titulação de territórios quilombolas sob competência da União. Também faltam medidas específicas para resolver sobreposições e conflitos fundiários em processos de regularização.

Adaptação climática

  • Justiça climática e carbono azul: Propõe valorizar a conservação dos manguezais para atrair fundos climáticos internacionais e implementar o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), remunerando comunidades tradicionais pela proteção dos biomas.
  • Maranhão das Águas: Prevê proteger nascentes e bacias hidrográficas, ampliar o acesso à água tratada com prioridade para territórios rurais e tradicionais e promover a adaptação às secas e enchentes.
  • Financiamento climático: Propõe articular a captação de recursos do Fundo Clima e do Novo PAC para ampliar a resiliência hídrica e a infraestrutura verde.

Contradições e lacunas:

Parte das ações depende da captação de recursos internacionais e federais, sem detalhar alternativas de financiamento caso esses aportes não se concretizem. Essa dependência cria incertezas sobre a execução das propostas. Embora destaque a proteção dos manguezais e o atendimento aos territórios rurais e tradicionais, o plano apresenta pouco detalhamento sobre medidas para enfrentar alagamentos e enchentes em centros urbanos, como a Região Metropolitana de São Luís e Imperatriz. 

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

Artigos Relacionados

Economia do Amazonas recupera o fôlego e PIM chega a R$ 143 bilhões – Parte I

O Painel da Economia Amazonense registra reação da atividade em julho, impulsionada pela indústria. O faturamento cresce, as motocicletas ampliam a produção e os condicionadores de ar ensaiam recuperação, embora os indicadores acumulados ainda revelem perdas.

Quem não tem competência não se estabeleça

"O Brasil precisa de uma Presidência capaz de reunir...

Estiagem exige que o Amazonas transforme contingência em política permanente

Ao reunir operadores portuários, aeroporto e Receita Federal, o CIEAM amplia uma discussão que precisa alcançar o planejamento e o orçamento estadual. As secas recentes e os cenários para 2026 justificam soluções de longo prazo para a indústria e as comunidades do interior.

O voto e a responsabilidade de representar

A liberdade de escolher nossos representantes exige atenção à...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira seu comentário!
Digite seu nome aqui