“Da fábrica para a cidade, o recorde de Manaus abre uma nova agenda para o Brasil integrar indústria, emprego, tecnologia, mobilidade urbana e proteção da vida“
O recorde alcançado pela indústria de motocicletas do Polo Industrial de Manaus merece uma leitura que vá além dos números de produção e vendas. Há uma transformação social acontecendo nas ruas brasileiras, e talvez tenhamos demorado a perceber sua dimensão.
A motocicleta mudou de lugar na economia do país.
Continua sendo um bem de consumo, naturalmente, mas tornou-se também ferramenta de trabalho, alternativa de transporte, fonte de renda e peça importante da logística das cidades. Está na entrega do restaurante e da farmácia, no pequeno comércio, nos serviços técnicos, no mototáxi, no deslocamento diário de trabalhadores e, sobretudo, nas periferias metropolitanas onde distância, tempo e deficiência do transporte coletivo pesam diariamente sobre a vida das pessoas.
Quando a indústria instalada em Manaus bate recordes, portanto, há algo maior acontecendo.
Existe demanda porque existe uma sociedade que encontrou nas duas rodas uma resposta prática para problemas que as cidades brasileiras ainda não conseguiram resolver satisfatoriamente. E é precisamente aqui que o recorde industrial pode abrir uma conversa interessante sobre o futuro.
Uma realidade que a política pública precisa acompanhar
Durante muito tempo, o debate brasileiro sobre mobilidade urbana esteve concentrado no automóvel e no transporte coletivo. A realidade tornou esse desenho muito mais complexo.
Motocicletas, bicicletas, veículos elétricos leves e trabalhadores vinculados às plataformas digitais passaram a ocupar uma parcela crescente das ruas. Surgiu uma nova economia da mobilidade antes que as cidades estivessem inteiramente preparadas para ela.
Eis aqui o ponto central.
Quando milhões de brasileiros passam a depender da motocicleta para trabalhar ou simplesmente para chegar ao trabalho, infraestrutura viária, engenharia de tráfego, formação profissional, fiscalização, sinalização, tecnologia e segurança precisam acompanhar essa mudança.
Trata-se de uma agenda essencialmente pública, mas que pode ganhar enorme capacidade de execução quando construída em cooperação com quem conhece profundamente a tecnologia e o veículo.
E o Brasil possui essa indústria.
Manaus tem mais a oferecer
O Polo Industrial de Manaus abriga uma das maiores plataformas produtoras de motocicletas do mundo. Ao redor dela foram acumulados conhecimento industrial, engenharia, fornecedores, qualificação profissional, capacidade de inovação e décadas de experiência produtiva.
Esse patrimônio tecnológico pode ser colocado a serviço de uma política brasileira de mobilidade sobre duas rodas.
A indústria certamente terá interesse em participar de uma agenda que amplie segurança, eficiência e sustentabilidade. Há espaço para desenvolver sistemas mais avançados de frenagem, conectividade, sensores, iluminação, telemetria, equipamentos de proteção e tecnologias capazes de auxiliar o motociclista diante das situações de risco encontradas diariamente nas cidades.
Há também a eletrificação.
Baterias, sistemas de recarga, motores elétricos, eletrônica embarcada e reciclagem abrem uma nova cadeia tecnológica e industrial. Para Manaus, isso representa uma oportunidade particularmente importante, porque permite associar a indústria existente às transformações da economia de baixo carbono.
Cada inovação incorporada pode significar também pesquisa, engenharia, qualificação e novos empregos.
O trabalhador precisa entrar no planejamento da cidade
Existe outro aspecto que merece atenção. Uma parcela considerável das pessoas que circulam sobre duas rodas está trabalhando. Essa constatação aparentemente simples muda bastante a discussão sobre mobilidade.
O entregador, o mototaxista, o prestador de serviços e tantos outros profissionais passam muitas horas expostos ao trânsito. Sua segurança depende do veículo, naturalmente, mas depende igualmente da qualidade do asfalto, da sinalização, da iluminação, da organização do tráfego, da fiscalização e das condições em que esse trabalho é realizado.
Por isso, políticas destinadas a esses trabalhadores podem combinar qualificação profissional, manutenção preventiva, equipamentos adequados, acesso a veículos mais modernos, seguro, educação de trânsito e infraestrutura urbana.
As próprias plataformas digitais podem e devem participar desse esforço.
Estamos falando de uma cadeia econômica que começa na fábrica de Manaus, atravessa empresas de tecnologia e serviços e termina diariamente nas ruas de milhares de municípios brasileiros.
Falta enxergá-la como um sistema.
E se Manaus fosse o laboratório?
Há uma possibilidade particularmente interessante para o Amazonas. Manaus poderia transformar sua condição de principal centro produtor de motocicletas do país em vantagem para experimentar soluções de mobilidade.
Fabricantes, Suframa, governos, prefeitura, universidades, institutos de ciência e tecnologia, empresas de aplicativos e representantes dos trabalhadores poderiam construir projetos-piloto.
Os acidentes poderiam ser estudados com inteligência de dados. Pontos críticos da cidade poderiam receber intervenções de engenharia. Novas tecnologias poderiam ser testadas. Programas de formação poderiam ser avaliados. Motocicletas elétricas e sistemas de recarga poderiam operar inicialmente em determinados serviços e corredores.
A cidade passaria a conversar com a fábrica.
E a fábrica, por sua vez, poderia encontrar nas necessidades concretas da cidade brasileira um enorme campo de inovação.
Essa aproximação tem particular importância para a Zona Franca de Manaus. O futuro de uma política industrial dificilmente será medido apenas pela quantidade de unidades produzidas. Conteúdo tecnológico, inovação, descarbonização, qualificação do trabalho e capacidade de solucionar problemas da sociedade ganharão peso crescente na avaliação das políticas de desenvolvimento.
A indústria de duas rodas pode ser uma demonstração dessa evolução.
Uma agenda brasileira sobre duas rodas
O recorde registrado pelas fábricas de Manaus oferece, portanto, uma boa ocasião para o país pensar adiante.
Temos escala industrial. Temos mercado. Temos trabalhadores qualificados. Temos universidades e institutos de pesquisa. Temos recursos destinados à inovação. E temos milhões de brasileiros que já fizeram da motocicleta parte de sua vida econômica.
Falta aproximar essas peças.
Uma política nacional de mobilidade sobre duas rodas poderia reunir Ministério das Cidades, Ministério dos Transportes, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, governos estaduais, municípios, indústria, universidades, plataformas digitais e organizações de trabalhadores.
Cada ator entraria com sua responsabilidade e sua competência.
Ao Estado caberia organizar infraestrutura, regulamentação, fiscalização e políticas de segurança. À ciência, estudar problemas e testar soluções. Aos municípios, adaptar as cidades. Aos trabalhadores, contribuir com a experiência de quem conhece diariamente as dificuldades das ruas. E à indústria, continuar fazendo aquilo que a indústria sabe fazer: transformar conhecimento, engenharia e inovação em soluções que possam chegar a milhões de pessoas.
Manaus já demonstrou que sabe fabricar motocicletas em escala mundial.
O recorde anunciado agora talvez permita formular uma ambição maior.
Fazer da força dessa indústria amazônica uma parceira do Brasil na construção de cidades onde duas rodas possam significar cada vez mais trabalho, autonomia, tecnologia e desenvolvimento, acompanhados por uma política pública comprometida com aquilo que nenhuma estatística econômica consegue substituir: a proteção da vida.