“A crise silenciosa que avança pelos rios e ameaça alimento, biodiversidade e uma das relações mais antigas entre o homem amazônico e a floresta“
Há uma maneira bastante concreta de medir a saúde da Amazônia que raramente aparece nas grandes conferências internacionais. Basta observar seus peixes.
Eles estão entre os organismos que primeiro recebem os sinais das transformações que percorrem a floresta, os rios e a atmosfera. Mudam a temperatura da água, a disponibilidade de oxigênio, a composição química dos rios, os sedimentos, a alimentação e os ciclos de reprodução. Quando a soma dessas alterações ultrapassa determinados limites fisiológicos, os peixes desaparecem, migram, adoecem ou morrem.
Para milhões de amazônidas, o que acontece debaixo d’água termina inevitavelmente dentro de casa.
A pesca está associada há séculos à subsistência das comunidades ribeirinhas e indígenas e permanece uma das principais fontes de proteína animal da região. Em determinados territórios amazônicos, estudos estimam que ela responda por aproximadamente 80% dessa proteína. Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, trabalhos clássicos registraram que a pesca de subsistência supria cerca de 80% das necessidades locais de proteína animal.
A dimensão ecológica é igualmente extraordinária. A bacia Amazônica possui a maior diversidade conhecida de peixes de água doce do planeta. A base internacional AmazonFish registra cerca de 2.500 espécies nativas validadas, número que continua crescendo à medida que novas espécies são descritas e novas áreas são amostradas.
Essa riqueza biológica, entretanto, convive hoje com pressões que estão ocorrendo ao mesmo tempo.
E poucas pessoas acompanham esse processo há tanto tempo quanto o pesquisador Adalberto Luis Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.
Quase meio século lendo a Amazônia pelos peixes
Adalberto Val construiu uma das trajetórias científicas mais importantes do Brasil no estudo da fisiologia de peixes amazônicos.
Pesquisador do INPA, vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências para a Região Norte e coordenador do INCT Adapta, Val investiga há quase cinco décadas como esses animais respondem às condições extremas da Amazônia. Seu trabalho percorre desde mecanismos moleculares de adaptação até os efeitos ecológicos das mudanças ambientais.
Em junho de 2026, o CNPq registrava mais de 280 artigos científicos, 22 livros e 78 capítulos de livros publicados pelo pesquisador. No mesmo ano ele se tornou o primeiro brasileiro a receber a Le Cren Medal, concedida pela Fisheries Society of the British Isles, uma das distinções internacionais relevantes da biologia de peixes.
O reconhecimento internacional ajuda a iluminar algo que o Brasil ainda demora a perceber. Existe na Amazônia uma escola científica capaz de compreender os próprios sistemas biológicos da região.
O laboratório coordenado por Val e a rede do INCT Adapta investigam os peixes sob temperaturas, concentrações de oxigênio e condições ambientais semelhantes às projetadas para o final deste século. O objetivo é compreender até onde esses organismos conseguem se adaptar e onde começam seus limites fisiológicos.
Esses limites parecem estar ficando mais próximos.
A combinação mais perigosa está na própria água
Peixes são animais ectotérmicos. Sua temperatura corporal depende diretamente da temperatura do ambiente. Isso torna o aquecimento da água particularmente importante.
Segundo Val, muitas espécies amazônicas já vivem próximas de seus limites térmicos superiores. Pequenas elevações adicionais podem reduzir desempenho fisiológico, interferir na reprodução e, em situações extremas, provocar mortalidade em massa.
As grandes secas recentes mostraram como vários fatores podem ocorrer simultaneamente.
Com menor volume de água, rios, lagos e canais aquecem mais rapidamente. A concentração de matéria orgânica e sedimentos aumenta. O oxigênio dissolvido diminui. Forma-se uma combinação fisiologicamente hostil.
Val resume o problema a partir de três variáveis que se reforçam: água mais quente, aumento de dióxido de carbono e menos oxigênio. Durante as secas extremas de 2023 e 2024, pesquisas realizadas em colaboração com o Instituto Mamirauá documentaram episódios de mortalidade de peixes sob condições ambientais que atingiram níveis letais para diferentes espécies.
O problema tende a crescer porque a temperatura altera também a toxicidade de alguns contaminantes e aumenta o estresse metabólico dos organismos. Mudança climática e poluição começam, portanto, a operar juntas.
Mercúrio chegando à mesa
Entre os contaminantes já conhecidos, o mercúrio ocupa uma posição particularmente preocupante.
Um levantamento realizado em 17 municípios de seis estados amazônicos analisou 1.010 peixes comercializados em mercados públicos. Em média, 21,3% apresentavam concentrações de mercúrio acima do limite de segurança estabelecido pela legislação sanitária brasileira.
Nos peixes carnívoros, a probabilidade de contaminação acima desse limite foi aproximadamente 14 vezes maior do que entre espécies não carnívoras.
O fenômeno está associado, entre outros fatores, à mineração de ouro que utiliza mercúrio e libera o metal no ambiente.
Depois de entrar na cadeia aquática, o mercúrio sofre processos de transformação e bioacumulação. Peixes menores contaminados são ingeridos por peixes maiores. Predadores localizados no topo da cadeia alimentar podem concentrar doses progressivamente maiores.
É uma contaminação que atravessa a cadeia ecológica até chegar ao consumidor.
Adalberto Val chama atenção para outro aspecto. A elevação da temperatura e demais alterações ambientais podem amplificar os efeitos fisiológicos dos poluentes. Mercúrio, cobre e componentes derivados do petróleo constituem, nesse cenário, uma pressão adicional sobre organismos que já enfrentam estresse térmico e falta de oxigênio.
Agora há plástico nas brânquias
Ao lado dos contaminantes químicos conhecidos, outra ameaça começa a aparecer com crescente nitidez.
Microplásticos.
Reportagem publicada neste mês reuniu diferentes pesquisas realizadas em ambientes amazônicos e encontrou partículas plásticas em rios, igarapés, lagos, sedimentos e organismos aquáticos.
Em coletas realizadas nas bacias dos rios Guamá e Acará-Capim, no Pará, microplásticos apareceram nas brânquias e no sistema digestivo de praticamente todos os peixes analisados. Foram registradas 383 partículas, com média de 5,6 por indivíduo. A localização é particularmente preocupante.
Brânquias são estruturas altamente vascularizadas e responsáveis pelas trocas gasosas. Partículas aderidas a elas podem provocar lesões e interferir tanto na respiração quanto no sistema imunológico.
Nos peixes que vivem próximos ao fundo dos rios, outra rota aparece.
O tamoatá, por exemplo, alimenta-se de detritos presentes nos sedimentos. No rio Negro, pesquisadores estimaram concentrações de aproximadamente 13 milhões de partículas de microplástico por metro cúbico de sedimento em áreas estudadas. Experimentos mencionados pelos pesquisadores indicam que concentrações muito pequenas incorporadas à alimentação já podem aumentar estresse e reduzir ganho de peso nesses animais.
Jaraqui, pirarucu e o problema da comida
A questão deixa de parecer distante quando aparecem dois nomes conhecidos de qualquer mercado amazonense.
Jaraqui e pirarucu.
Em estudo realizado no lago Puraquequara, em Manaus, partículas de microplásticos foram encontradas no intestino de metade dos jaraquis analisados.
No pirarucu, a preocupação é diferente.
Ao longo de milhões de anos, a espécie desenvolveu uma extraordinária adaptação para sobreviver em águas pobres em oxigênio. Sua bexiga natatória funciona como órgão respiratório, obrigando o animal a subir regularmente à superfície para respirar.
A mesma adaptação que ajudou o pirarucu a sobreviver nos lagos amazônicos pode criar uma nova porta de entrada para contaminantes.
Segundo Val, partículas presentes na interface entre água e atmosfera podem atingir estruturas relacionadas à respiração aérea. Há possibilidade de obstrução mecânica, inflamação e alterações em mecanismos fisiológicos envolvidos no controle respiratório.
Há ainda muitas perguntas em aberto sobre transferência dessas partículas aos tecidos consumidos pelas pessoas. Esse cuidado é importante.
A ciência já demonstra efeitos dos microplásticos sobre os peixes amazônicos, mas ainda não permite afirmar de maneira generalizada qual é a exposição humana resultante do consumo dessas espécies. Os próprios pesquisadores destacam essa lacuna.
O alerta científico ganha força justamente quando distingue aquilo que já sabemos daquilo que ainda precisamos descobrir.
Um ecossistema pressionado por todos os lados
Microplástico, portanto, é apenas uma das peças. Os peixes amazônicos enfrentam uma espécie de pressão cumulativa. A seca reduz a água disponível. O calor eleva a temperatura. A temperatura diminui o oxigênio dissolvido.
Queimadas despejam cinzas e compostos nos sistemas aquáticos. Desmatamento altera margens, temperatura, sedimentação e ciclos hidrológicos.
Garimpo revolve sedimentos e libera mercúrio. Esgoto e lixo urbano levam nutrientes, patógenos e plástico aos igarapés.
Barragens alteram fluxos migratórios e conectividade entre habitats. A pesca inadequadamente manejada pode aumentar a pressão sobre estoques já submetidos aos demais fatores. Um peixe pode enfrentar vários desses agentes durante o mesmo ciclo de vida.
É precisamente essa interação que transforma a crise dos sistemas aquáticos numa questão maior do que a conservação de espécies. Ela passa pela segurança alimentar.
O manejo do pirarucu mostrou que existe caminho
A Amazônia também possui experiências que revelam a capacidade de recuperação dos estoques pesqueiros quando conhecimento científico, fiscalização e comunidades trabalham conjuntamente.
O pirarucu é talvez o melhor exemplo.
Após décadas de sobrepesca, sistemas comunitários de manejo desenvolvidos em áreas como Mamirauá permitiram recuperar populações e criar uma cadeia de renda associada à conservação de lagos e várzeas. O modelo combina contagem dos animais, quotas de captura, proteção dos ambientes e participação direta das comunidades.
Nos últimos anos, porém, até essa experiência começou a sentir os efeitos da mudança climática. Secas severas reduziram a conexão entre lagos e rios, dificultaram transporte e elevaram custos de pesca. Em 2023, a captura manejada em áreas do Amazonas alcançou cerca de 70% da quota autorizada, em grande parte devido às condições hidrológicas extremas.
Isso mostra que manejo pesqueiro continuará indispensável, mas precisará incorporar adaptação climática.
A agenda que a ciência já está colocando sobre a mesa
As recomendações de Adalberto Val convergem para uma política amazônica muito mais integrada.
O primeiro ponto é ampliar investimentos permanentes em ciência amazônica. Laboratórios que estudam sistemas ecológicos desta dimensão precisam de financiamento previsível, equipamentos, pesquisadores e séries de dados de longo prazo. Programas como o INCT Adapta demonstram a importância dessa infraestrutura.
O segundo é construir um sistema regional de monitoramento dos ambientes aquáticos.
Temperatura, oxigênio dissolvido, mortalidade de peixes, mercúrio, microplásticos, agrotóxicos, hidrocarbonetos e alterações no ciclo hidrológico deveriam formar uma rede integrada de observação dos rios amazônicos.
O terceiro eixo passa pelo saneamento.
Microplástico nos igarapés urbanos guarda relação direta com a maneira como nossas cidades tratam lixo e esgoto. Proteger os peixes amazônicos exige finalmente enfrentar a infraestrutura sanitária de cidades como Manaus, Belém, Santarém e dezenas de municípios situados às margens dos grandes rios.
O quarto envolve combate permanente ao garimpo ilegal e ao uso de mercúrio. A ciência já mensurou a contaminação. A ausência de resposta deixou de poder ser explicada pela falta de conhecimento. O próprio Val observa que os impactos são conhecidos e documentados, mas a reação do poder público ainda permanece abaixo da dimensão do problema.
O quinto é fortalecer manejo comunitário, acordos de pesca, períodos de defeso e proteção das áreas de reprodução e alimentação.
O sexto consiste em preservar várzeas, igapós, lagos e florestas inundáveis. Muitos peixes dependem dessas áreas para alimentação, crescimento e reprodução. Proteger apenas a calha dos rios deixa de fora parte essencial do sistema pesqueiro amazônico.
E há uma dimensão transversal.
Povos indígenas, ribeirinhos e pescadores acumulam conhecimento refinado sobre migração, reprodução, comportamento e disponibilidade das espécies. Val recomenda que esse conhecimento dialogue diretamente com a pesquisa científica e com a formulação das políticas públicas.
Uma política de segurança alimentar para os rios
É chegada a hora de o Brasil abandonar a ideia de que política pesqueira amazônica pertence apenas à administração dos recursos naturais.
Ela precisa entrar definitivamente na agenda de segurança alimentar, saúde pública e adaptação climática. Isso significa acompanhar estoques pesqueiros com a mesma atenção dedicada a safras agrícolas.
Significa ter protocolos de vigilância de contaminantes. Significa criar informação pública indicando quais espécies e regiões apresentam maior risco de mercúrio.
Significa financiar aquicultura amazônica baseada em espécies nativas onde ela seja ambientalmente adequada, sem substituir ou fragilizar a pesca artesanal. Significa garantir infraestrutura de armazenamento, transporte e comercialização que reduza perdas e aumente a renda do pescador.
E significa reconhecer os serviços ecológicos prestados pelas comunidades que protegem lagos, várzeas e áreas de reprodução.
A pesca sustentável pode constituir uma das cadeias econômicas mais coerentes com uma Amazônia de floresta em pé.
Ciência amazônica como instrumento de soberania
Há outro aspecto na trajetória de Adalberto Val que merece atenção.
Durante décadas o Brasil discutiu soberania amazônica em termos territoriais. A Amazônia contemporânea exige também soberania científica.
Conhecer os limites térmicos dos peixes, identificar contaminantes, compreender a fisiologia das espécies, acompanhar populações e antecipar os efeitos de secas extremas são formas concretas de exercer domínio sobre o próprio território.
Países incapazes de compreender seus ecossistemas acabam dependendo do conhecimento produzido fora deles para decidir como utilizar seus recursos.
A escola científica construída pelo INPA mostra que outra trajetória é possível.
Foi em Manaus que pesquisadores começaram a desvendar como peixes amazônicos sobrevivem em águas quase sem oxigênio. É também daqui que surgem agora alguns dos alertas mais relevantes sobre aquilo que ocorre quando mudanças climáticas e poluição aproximam esses animais dos limites de sua adaptação.
O peixe como indicador do futuro
Há uma imagem simples que ajuda a compreender o tamanho do desafio. Durante milhares de anos, os povos da Amazônia aprenderam a ler os rios observando os peixes.
Eles indicavam as cheias, as vazantes, as épocas de reprodução e a chegada dos cardumes. Determinavam calendários de pesca, alimentos e deslocamentos.
A ciência contemporânea está fazendo algo semelhante, agora com sensores, genética, ecotoxicologia e fisiologia. E os peixes estão dizendo que os rios estão mudando.
O aviso merece atenção porque dificilmente permanecerá restrito à ictiofauna.
Quando temperatura, oxigênio, mercúrio, plástico e alterações hidrológicas começam a modificar organismos que sustentam uma parcela decisiva da alimentação regional, estamos diante de um problema que atravessa biodiversidade, economia, saúde e segurança alimentar.
Adalberto Val sintetizou essa relação ao CNPq ao lembrar que, na Amazônia, a redução da quantidade e da qualidade dos peixes atinge simultaneamente cultura, economia e saúde. Talvez essa seja a melhor maneira de compreender a urgência.
Proteger os peixes amazônicos significa proteger a teia ecológica que mantém os rios funcionando e uma das formas mais antigas de segurança alimentar existentes no continente.
E, como a própria ciência amazônica vem demonstrando há décadas, ainda existe conhecimento suficiente para agir.
O que falta começa a pertencer menos ao campo da descoberta e cada vez mais ao campo da decisão.
Referências e leituras recomendadas
Este ensaio foi elaborado a partir de pesquisas científicas, estudos sobre a ictiofauna amazônica e trabalhos desenvolvidos por instituições que acompanham as transformações dos ecossistemas aquáticos da região. Para aprofundar os diferentes aspectos abordados, o Brasil Amazônia Agora reúne abaixo algumas das principais fontes e leituras utilizadas.
Referências e leituras recomendadas
- 1. Adalberto Val, ciência amazônica e adaptação dos peixes
CNPq – Adalberto Luis Val:
https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/atualidades/adalberto-luis-val-a-ciencia-permite-compreender-processos-em-curso-antecipar-cenarios-e-propor-solucoes-baseadas-em-evidencias - 2. Microplásticos nos peixes amazônicos
Amazonas Atual
https://amazonasatual.com.br/pirarucu-e-jaraqui-estao-ameacados-por-particulas-invisiveis-no-amazonas/ - Agro em Campo
- https://agroemcampo.ig.com.br/2026/noticias/peixes-amazonicos-ja-respiram-plasticos-aponta-estudo.
- 3. Base científica sobre microplásticos e ecotoxicologia
Anais da Academia Brasileira de Ciências / SciELO – estudo científico sobre contaminação por microplásticos em ambientes e organismos aquáticos amazônicos
https://www.scielo.br/j/aabc/a/xbR6pYcTv9VVHhSWmzJrqnR/?lang=en - 4. Mercúrio e segurança alimentar na Amazônia
Estudo científico disponível no PubMed Central
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10535031/ bioacumulação, peixes carnívoros e exposição humana pelo consumo de pescado. - 5. Diversidade dos peixes da Bacia Amazônica
AmazonFish – base científica internacional sobre a ictiofauna amazônica
https://www.amazon-fish.com/about