Gilberto Mestrinho e a soberania amazônica, um preceito sagrado

Coluna Follow-Up

Por Alfredo Lopes 

Dezessete anos depois de sua morte, Gilberto Mestrinho permanece como uma dessas figuras que o tempo não conseguirá arquivar com facilidade. Sua trajetória continua reaparecendo sempre que o Amazonas se vê diante das grandes questões que o acompanham desde a República: integração nacional, desenvolvimento regional, proteção da floresta, desigualdade territorial, dependência tecnológica e soberania.

Mestrinho governou o Amazonas em três ocasiões, foi prefeito de Manaus, deputado federal e senador. A extensão da carreira, contudo, explica apenas parte de sua presença na memória regional. O que o distingue é a maneira como procurou interpretar a Amazônia a partir de dentro, com a experiência de quem conhecia os rios, as populações do interior, as limitações concretas da vida regional e o modo como o poder nacional costumava enxergar a floresta.

Para ele, soberania amazônica possuía vários significados ao mesmo tempo. Começava pela defesa do território, mas avançava sobre dimensões econômicas, sociais, científicas, tecnológicas e culturais. A floresta estaria vulnerável enquanto permanecesse rica em recursos naturais e pobre em capacidade de decidir sobre o valor desses recursos.

images
1959 – Gilberto Mestrinho (à esquerda) e Plínio Ramos Coelho (à direita), caminham em direção ao Palácio Rio Negro para a posse de Gilberto ao governo do Amazonas.

Criado em Lábrea, às margens do Purus, Gilberto aprendeu ainda menino que a Amazônia produz conhecimento pela convivência. A leitura das águas, o manejo dos ciclos naturais, o uso das plantas, a pesca, a agricultura de várzea e a organização comunitária formavam uma inteligência territorial construída muito antes da chegada dos laboratórios e das políticas ambientais modernas.

Sua mãe, dona Balbina, professora e referência de cuidado para a comunidade, ensinou-lhe as primeiras letras sob a luz dos candeeiros alimentados pelo óleo obtido dos ovos de quelônios, coletados durante a vazante. As famílias retiravam uma parte daquela fartura para alimentação e iluminação, preservando o suficiente para a continuidade do ciclo. Naquela cena doméstica, a natureza fornecia a luz para o aprendizado formal. A experiência da floresta e o conhecimento escrito conviviam sem a ruptura que, mais tarde, marcaria tantas políticas concebidas para a região.

ChatGPT Image 21 de jul. de 2026 10 04 14

Ele desconfiava tanto da exploração predatória quanto da proposta de imobilizar a floresta, retirando de suas populações o direito ao desenvolvimento. Via na defesa ambiental desvinculada da realidade social uma espécie de primado da ecologia sobre a sociologia, no qual a árvore adquiria valor internacional enquanto o homem que vivia ao lado dela permanecia sem escola, saúde, energia, renda e cidadania.

A floresta poderia permanecer de pé, em sua visão, desde que os habitantes da região encontrassem atividades econômicas compatíveis com seus ciclos e riquezas. O isolamento e a pobreza não constituíam instrumentos legítimos de conservação. Ao contrário, ampliavam a vulnerabilidade social e deixavam o território exposto a formas desordenadas de exploração.

Essa posição colocou Gilberto em conflito com setores do ambientalismo internacional e brasileiro, sobretudo na década de 1990. A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, consolidou a agenda climática e inaugurou uma nova arquitetura política global. Dela nasceram convenções sobre clima e diversidade biológica, além da Agenda 21 e de princípios que passariam a orientar a governança ambiental contemporânea.

Mestrinho reconhecia a importância daquele movimento. Também percebia suas assimetrias.

As economias industrializadas haviam acumulado riqueza durante mais de um século de emissões intensivas, exploração de combustíveis fósseis e transformação de suas próprias paisagens. Ainda assim, a Amazônia passava a ocupar o centro simbólico da crise ambiental. As queimadas ofereciam imagens fortes, enquanto as emissões históricas das grandes potências desapareciam com maior facilidade do enquadramento público.

A resposta de Gilberto foi abrir a floresta à observação universal. Convidou lideranças internacionais a conhecerem a região e sobrevoou a mata com o chanceler alemão Helmut Kohl, procurando distinguir a neblina amazônica da fumaça que parte da imprensa internacional associava indistintamente à destruição. O gesto tinha caráter pedagógico e político. Gilberto sabia que a soberania também se disputa no campo das imagens e das narrativas.

A floresta começou a ser observada como patrimônio climático, banco genético, ativo científico e fronteira econômica. O controle do território permanecia essencial, mas já não bastava. Quem dominasse a pesquisa, as patentes, os processos industriais e o conhecimento associado à biodiversidade controlaria uma parcela crescente de seu valor.

A aproximação com Alvin Toffler ajudou a organizar essa intuição. O autor de A Terceira Onda descrevia a transição da sociedade industrial pesada para uma economia baseada em informação, tecnologia e conhecimento. Gilberto percebeu que essa mudança poderia alterar o lugar histórico da Amazônia.

Durante séculos, a região fornecera matérias-primas e importara tecnologia. A borracha saíra dos seringais e se transformara em riqueza industrial fora deles. Madeira, minérios e espécies biológicas seguiram percurso semelhante. A Amazônia participava da produção do valor como fornecedora, raramente como proprietária da ciência e da transformação industrial.

WhatsApp Image 2026 07 21 at 10.20.18
Alfredo é filósofo e escritor amazonense e trabalhou com Gilberto por 25 anos.

Depois da Rio-92, Mestrinho buscou aproximação com o Massachusetts Institute of Technology, o MIT, e com o Technion, de Israel. Ao lado da Universidade Federal do Amazonas e da antiga Universidade de Tecnologia da Amazônia, procurou construir uma cooperação capaz de instalar na região pesquisa avançada sobre biodiversidade, farmacologia, biomateriais, genética e processos industriais derivados da floresta.

A proposta continha uma inversão histórica. Manaus poderia deixar de exportar apenas recursos biológicos e passar a produzir ciência, patentes e soluções tecnológicas.

O apoio federal não veio na dimensão necessária. Gilberto procurou então outros caminhos. A interlocução com a Suframa contribuiu para a formulação de um centro de biotecnologia em Manaus. Mais tarde, já no Senado, atuou junto ao governo federal para assegurar recursos e sustentação política ao Centro de Biotecnologia da Amazônia. Também direcionou esforços à Universidade Federal do Amazonas e à Embrapa, defendendo a formação de pesquisadores e a instalação de estruturas científicas no interior.

Seu interesse por Tabatinga traduzia essa preocupação. O Alto Solimões reunia pobreza social, riqueza natural e posição geopolítica decisiva. Levar a Embrapa àquela região significava aproximar ciência e território, interiorizar oportunidades e impedir que o conhecimento permanecesse concentrado em Manaus ou nos centros mais ricos do país.

Gilberto cobrava do INPA mais do que inventários de espécies. Queria a conversão do conhecimento acumulado em oportunidades econômicas para as populações amazônicas. A catalogação da biodiversidade tinha valor acadêmico, mas precisava dialogar com fármacos, defensivos biológicos, alimentos, materiais, energia e sistemas produtivos apropriados à região.

Essa preocupação aparece com nitidez em suas intervenções no Senado. Mestrinho alertava para a ausência brasileira nos negócios da biotecnologia e para a dependência de produtos importados que afetavam a saúde humana, o solo e a água. Ao mesmo tempo, defendia sistemas integrados de produção desenvolvidos pela Embrapa, combinando agricultura, pecuária e floresta nas áreas legalmente destinadas ao uso econômico.

Sua ideia de proteção ambiental reconhecia a diversidade do território. Havia áreas que deveriam permanecer integralmente protegidas, outras que comportavam manejo sustentável e espaços destinados à produção sob critérios técnicos. A política pública precisava abandonar tanto o improviso predatório quanto a proibição genérica, construindo conhecimento sobre o lugar, sua capacidade ecológica e as necessidades de sua população.

A defesa da Zona Franca de Manaus fazia parte de uma estratégia de permanência nacional na Amazônia. O Polo Industrial consolidou atividade econômica urbana, emprego e arrecadação numa região submetida historicamente aos ciclos extrativos. Gilberto reconhecia suas limitações e compreendia que a indústria incentivada precisava avançar em direção à pesquisa, à inovação e à interiorização.

O PlanAmazonas ampliou essa visão ao incorporar a logística. Sob coordenação de Raimar Aguiar e orientação de Mestrinho, o plano propunha recuperar a cabotagem, integrar os modais de transporte e conectar a produção amazonense às rotas do Pacífico. A soberania econômica dependia da capacidade de circular, reduzir custos e reposicionar a região nos fluxos do comércio internacional.

É nesse conjunto que se encontra a multiplicidade do conceito de soberania amazônica em Gilberto Mestrinho. Ela abrangia a presença efetiva do Estado, a proteção das fronteiras, a autonomia econômica, o domínio do conhecimento, o reconhecimento dos saberes tradicionais, a formação de mestres e doutores, a valorização do interior e a participação política das populações amazônicas.

Essa visão comportava controvérsias. Gilberto foi um homem de seu tempo, com posições que despertaram discordâncias e resistências. Seu pensamento ambiental não se ajustava aos consensos atuais em todos os aspectos. A importância histórica de sua contribuição reside justamente no esforço de enfrentar as contradições da região sem reduzi-las a fórmulas confortáveis.

A floresta era, para ele, um sistema vivo habitado por pessoas. A proteção de uma não poderia ser construída sobre o abandono das outras.

Dezesseis anos depois, o debate que Gilberto antecipou tornou-se ainda mais urgente. A bioeconomia ocupa programas governamentais e fóruns internacionais. A biodiversidade aparece como ativo estratégico. As mudanças climáticas ampliam a pressão sobre a Amazônia. Empresas, governos e universidades disputam moléculas, informações genéticas, créditos de carbono e soluções baseadas na natureza.

O povo amazonense o transformou em Boto Navegador, personagem de uma canção que acompanhou suas últimas campanhas. A imagem popular resumia uma forma amazônica de enxergar a liderança. O navegador conhece as águas, interpreta a correnteza e procura conduzir a embarcação em meio às mudanças do rio.

Gilberto navegou entre mundos que o Brasil ainda tenta aproximar: floresta e indústria, saber ancestral e ciência avançada, soberania territorial e cooperação internacional, conservação e desenvolvimento humano.

Seu projeto permaneceu incompleto. A parte que sobreviveu continua indicando um caminho. A Amazônia estará mais protegida quando suas populações tiverem condições de viver com dignidade, quando seus pesquisadores dominarem o conhecimento da biodiversidade, quando suas instituições decidirem sobre o próprio território e quando o Brasil compreender que a soberania da floresta depende, em larga medida, da soberania de quem vive nela.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Garimpo no Rio Madeira: uma licença de 2017 não pode ignorar a Amazônia de 2026

Decisão judicial ressuscita autorizações antigas para exploração de ouro...

Conheça as propostas dos candidatos ao governo do Pará 2026

Conheça as propostas dos candidatos ao governo do Pará para bioeconomia, desmatamento, transição energética, povos indígenas e adaptação climática.

MANIFESTO BAA PELA DEMOCRACIA E PELA SOBERANIA

"Diante da tentativa de submeter as eleições, a economia...

Academia, economia e tecnologia: uma aproximação urgente

O Polo Industrial de Manaus reúne empresas, universidades, institutos,...

O que existe por trás de uma indústria certificada

"Da bateria que alimenta um smartphone aos grandes sistemas de armazenamento de energia, qualidade, segurança e responsabilidade ambiental precisam acompanhar cada etapa da produção. Em Manaus e Extrema, padrões internacionais transformam mais de 50 anos de experiência industrial em confiança para os novos desafios do setor energético"