Nota de pesar

Este ensaio, de 15 de junho, foi o último que planejamos juntos, como em outras ocasiões. Mariano Cenamo continuará nas páginas do BAA e principalmente no coração de todos aqueles e aquelas que dedicaram parte importante das próprias vidas à compreensão e defesa da Amazônia. Muito obrigado, meu irmão amado!

nota de pesar

A FLORESTA ENTRA NA SALA DE DECISÕES

Enquanto o debate nacional sobre a Amazônia oscila entre a preservação e a exploração de seus recursos, uma rede silenciosa de cooperação entre universidades, centros de pesquisa, empreendedores, investidores e setor produtivo começa a desenhar outro caminho. O encontro entre Amazonas, São Paulo e Brasília, materializado em iniciativas como o DINTER USP-UEA e consolidado em eventos como o Impacta Mais 2026, revela que a floresta já não ocupa apenas o centro das preocupações climáticas globais. Ela começa a ocupar também o centro das decisões estratégicas sobre o futuro da economia brasileira.

Por Mariano Cenamo e Alfredo Lopes – BrasilAmazoniaAgora 

Uma mudança de patamar

Durante décadas, a Amazônia foi apresentada ao país como um território de dilemas. De um lado, a conservação. De outro, o desenvolvimento. A dicotomia produziu discursos, conflitos e incompreensões que atravessaram governos, universidades e mercados.

Nos últimos anos, entretanto, sinais mais consistentes começaram a surgir. O ecossistema de impacto amazônico amadureceu. Empreendedores avançaram, organizações intermediárias ganharam experiência, investidores passaram a compreender melhor as especificidades regionais e instituições públicas e privadas começaram a construir mecanismos de cooperação mais sofisticados.

O Impacta Mais 2026, realizado em São Paulo, evidenciou essa transformação. A discussão já não se concentra apenas em explicar o conceito de bioeconomia ou justificar a importância da floresta em pé. O desafio agora é outro: transformar potencial em escala, conhecimento em negócios sustentáveis e inovação em prosperidade compartilhada.

A ponte entre Manaus, São Paulo e Brasília

Nenhuma transformação dessa natureza acontece isoladamente.

A Amazônia concentra ativos naturais, diversidade biológica e conhecimentos únicos. São Paulo concentra boa parte do capital, da capacidade empresarial e da infraestrutura acadêmica do país. Brasília reúne instrumentos de política pública, regulação e financiamento.

Durante muito tempo, esses três universos dialogaram pouco. A construção de pontes entre eles passou a ser uma das tarefas mais relevantes para o desenvolvimento sustentável brasileiro.

Os produtos da Amazonia que voce usa e nem imagina de onde vem 1

Nesse contexto, o Doutorado Interinstitucional entre a Universidade de São Paulo e a Universidade do Estado do Amazonas, com a participação do CIEAM, tornou-se um símbolo dessa aproximação.

Com 22 bolsas financiadas pelo CNPq e apoio institucional do INPA e do Centro da Indústria do Estado do Amazonas, a iniciativa nasceu com um objetivo claro: formar doutores capazes de produzir projetos e programas de conhecimento aplicado e produzido na região para responder aos desafios amazônicos.

Mais do que um programa acadêmico, o DINTER representou um ensaio de cooperação entre ciência, setor produtivo e desenvolvimento regional.

A formação de uma inteligência amazônica

A história da Amazônia registra inúmeros projetos concebidos à distância.

Planos elaborados em gabinetes distantes, frequentemente desconectados das realidades territoriais, deixaram marcas profundas ao longo das décadas.

A experiência do DINTER seguiu direção oposta. Em vez de importar soluções prontas, buscou fortalecer competências locais. Em vez de retirar talentos da região, investiu em sua formação dentro do próprio território.

O resultado foi a constituição gradual de uma massa crítica capaz de atuar em áreas estratégicas como bioeconomia, gestão ambiental, inovação tecnológica, políticas públicas, governança climática e desenvolvimento regional.

A qualificação de pesquisadores amazônicos não representa apenas um avanço acadêmico. Significa ampliar a capacidade da própria região de formular seu futuro.

O desafio da escala

O amadurecimento do ecossistema de impacto trouxe uma nova pergunta para a mesa. Como crescer sem perder identidade?

A escala é hoje uma das palavras mais repetidas nos ambientes de inovação e investimento. Na Amazônia, entretanto, ela assume significado particular.

Escalar não significa apenas vender mais produtos ou captar mais recursos. Significa fortalecer cooperativas, estruturar cadeias produtivas, ampliar capacidades de gestão, consolidar redes de pesquisa, garantir rastreabilidade, preservar a biodiversidade e assegurar que os benefícios econômicos permaneçam no território.

O desafio amazônico exige uma interpretação própria do conceito de crescimento. Uma interpretação capaz de reconhecer que o valor da floresta não pode ser medido apenas por métricas convencionais de mercado.

O papel estratégico da indústria

Há outro elemento frequentemente ausente nesse debate. A indústria instalada no Amazonas.

O Polo Industrial de Manaus constitui uma das mais importantes plataformas de financiamento da conservação florestal já construídas no Brasil. Sua contribuição para a geração de emprego formal, arrecadação tributária, pesquisa e desenvolvimento e manutenção da cobertura florestal da região tornou-se parte relevante da equação amazônica.

A participação do CIEAM em iniciativas voltadas à formação de pesquisadores e à aproximação entre universidades e setor produtivo demonstra que a discussão sobre bioeconomia não ocorre à margem da indústria.

Ao contrário. O desafio consiste justamente em construir convergências entre inovação tecnológica, desenvolvimento industrial e valorização dos ativos da floresta.

Uma nova geografia do desenvolvimento

O que emerge dessas experiências talvez seja mais importante do que os resultados individuais de cada projeto. Está em formação uma nova geografia do desenvolvimento brasileiro.

Nela, a Amazônia deixa de ocupar o papel de fornecedora de recursos para assumir gradualmente a condição de produtora de conhecimento, inovação e soluções para desafios globais.

São Paulo deixa de ser apenas centro receptor de riquezas e passa a integrar redes de colaboração com o território amazônico.

Brasília, por sua vez, encontra a oportunidade de alinhar instrumentos públicos a uma agenda que combina competitividade econômica, inclusão social e responsabilidade ambiental.

A floresta e o futuro

O Brasil atravessa um momento decisivo. As transformações climáticas, a reorganização das cadeias globais de valor e a crescente demanda por soluções sustentáveis colocam a Amazônia no centro das atenções mundiais.

Mas atenção não significa desenvolvimento. Para que a floresta entre definitivamente na sala de decisões, será necessário consolidar alianças duradouras entre universidades, centros de pesquisa, empreendedores, investidores, governos e setor produtivo.

O DINTER USP-UEA foi um ensaio dessa possibilidade.O Impacta Mais 2026 revela que essa articulação começa a ganhar escala. Os sinais ainda são iniciais. Os desafios permanecem imensos. Mas há algo novo acontecendo.Pela primeira vez em muito tempo, a Amazônia não está sendo chamada apenas para responder às perguntas do país. Ela começa a participar da formulação das respostas.

Mariano Cenamo é empreendedor de impacto, cofundador da AMAZ Aceleradora de Impacto e referência nacional em bioeconomia e negócios sustentáveis.

Alfredo Lopes é editor-geral do Brasil Amazônia Agora e consultor do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM).

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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