O sonho, o tombo e a virtude do mundo real

Durante algumas semanas, o Brasil volta a ser criança. Vestimos novamente a camisa amarela carregada de lembranças. Reaparecem as conversas de família, os amigos reunidos diante da televisão, as ruas coloridas, a esperança de reviver emoções que pareciam guardadas na memória coletiva.

Nenhuma outra competição esportiva produz tamanho reencontro entre passado e futuro. Talvez seja por isso que a derrota provoque uma sensação desproporcional ao simples resultado de uma partida.

Perde-se muito mais do que um jogo. Perde-se um projeto emocional.

mundo real

Psicanalistas descrevem esse fenômeno como uma forma de luto coletivo. A explicação faz sentido. Durante uma Copa do Mundo milhões de pessoas projetam desejos, memórias e expectativas sobre uma equipe que passa a representar muito mais do que vinte e dois jogadores em campo.

Mas existe uma segunda leitura igualmente importante. A realidade costuma ser menos generosa do que a memória.

O Brasil acostumou-se a olhar para si através das conquistas de Pelé, Garrincha, Tostão, Zico, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros que fizeram do futebol brasileiro uma referência mundial. O problema surge quando essa memória passa a substituir o diagnóstico do presente.

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A camisa continua sendo a mesma. O mundo mudou.

Enquanto outras seleções reorganizaram seus processos de formação, investiram em ciência esportiva, planejamento, análise de desempenho e estabilidade institucional, o futebol brasileiro atravessou anos marcados por mudanças frequentes de comando, improvisações e perda gradual de identidade. Os próprios resultados do ciclo para a Copa já indicavam essa trajetória irregular.

Nesse contexto, a eliminação deixa de ser acidente. Passa a ser consequência. Isso não reduz a tristeza. Apenas lhe confere sentido. Há uma tendência humana de interpretar qualquer fracasso como uma injustiça. Nem sempre é.

Em muitas ocasiões, ele funciona como um espelho. O mundo real tem essa característica pouco confortável. Ele não negocia com nossas expectativas. Apenas responde àquilo que efetivamente construímos.

Esse princípio vale para seleções, empresas, governos, universidades e também para cada indivíduo. Nenhum projeto prospera apenas porque desejamos muito que ele dê certo. O entusiasmo mobiliza. O trabalho transforma.

Talvez essa seja a principal lição deixada pela eliminação brasileira. O sonho continua indispensável. É ele que move pessoas, inspira crianças e alimenta projetos coletivos. Mas sonhos que recusam contato com a realidade acabam produzindo apenas frustração.

Sonhos que aceitam o diagnóstico, reconhecem limites, corrigem rumos e aprendem com as derrotas tornam-se planejamento. E planejamento, quase sempre, é o primeiro passo das grandes vitórias.

No fim das contas, a Copa termina. O futebol segue. A vida também. O verdadeiro campeão nunca é aquele que evita os tombos. É quem consegue transformar cada queda em informação para caminhar melhor na próxima jornada

Belmiro Vianez Filho
Belmiro Vianez Filho
Empresário do comércio, ex-presidente da ACA e colunista do portal BrasilAmazôniaAgora e Jornal do Commercio.

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