O vale-tudo da politiquice

A política brasileira sempre cultivou uma estranha habilidade para transformar crises em espetáculos. Quando um fato produz desgaste, não demora para surgir outro assunto capaz de deslocar os refletores. O método não é novo. Mudam os personagens, os palanques, os algoritmos e as redes sociais. A engrenagem continua funcionando com impressionante regularidade.

Nesta semana, enquanto repercutiam os efeitos do encontro de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, episódio que produziu mais desconforto do que esclarecimentos para o entorno bolsonarista, uma nova pauta ganhou velocidade. O senador reapareceu celebrando a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A movimentação ocorreu logo após sua passagem por Washington e seus encontros com lideranças da administração Trump.

POLITIQUICE
Daniel Ramalho/AFP; Divulgação

O tema é grave. Trata-se de duas das maiores estruturas criminosas da América Latina, responsáveis por redes de tráfico, lavagem de dinheiro, assassinatos, corrupção e expansão internacional de atividades ilícitas. A discussão sobre os instrumentos jurídicos adequados para combatê-las exige profundidade, cooperação internacional e inteligência financeira. Não é assunto para slogans de campanha nem para vídeos de redes sociais produzidos na velocidade dos ciclos de indignação digital. 

Nas últimas décadas, o Brasil assistiu a uma sucessão de personagens que descobriram na retórica da guerra permanente uma forma eficiente de mobilizar seguidores. O crime organizado converte-se em cenário. A violência transforma-se em narrativa. O combate às facções passa a funcionar como palco para demonstrações de bravura verbal.

Nesse ambiente, pouco importa se a classificação como organização terrorista produz efeitos concretos imediatos ou se gera novos desafios diplomáticos, financeiros e jurídicos. Especialistas têm apontado justamente a necessidade de cautela diante das consequências internacionais dessa medida. O debate, porém, acaba soterrado pela disputa de versões e pela necessidade permanente de produzir manchetes.

A história recente do Rio de Janeiro deveria recomendar prudência a qualquer político que decida transformar o tema da criminalidade em instrumento eleitoral.

Foi ali que se consolidaram algumas das mais conhecidas relações promíscuas entre setores da política, milícias, grupos armados e estruturas paralelas de poder. Foi ali que investigações revelaram conexões, proximidades, homenagens oficiais, fotografias inconvenientes e amizades que, ao longo dos anos, atravessaram gabinetes, campanhas e círculos de influência.

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Por isso causa estranheza observar certos discursos carregados de indignação moral absoluta. A fronteira entre o acusador e o acusado nem sempre permanece tão nítida quanto os vídeos de campanha sugerem.

A política brasileira possui uma longa tradição de fabricar inimigos externos para aliviar constrangimentos internos. Em diferentes momentos foram os comunistas, os globalistas, os banqueiros, os jornalistas, os ambientalistas, os tribunais, os professores, os artistas ou qualquer outro personagem útil para preencher o papel do antagonista da semana.

Naturalmente, PCC e Comando Vermelho não merecem complacência. Merecem repressão rigorosa, inteligência policial, cooperação internacional e bloqueio de suas estruturas financeiras. O que desperta atenção é a velocidade com que um tema dessa dimensão passa a servir como cortina de fumaça para outras discussões menos confortáveis.

O velho vício da politiquice brasileira continua operando da mesma forma. Quando surgem perguntas difíceis, procura-se uma fotografia mais conveniente. Quando um episódio produz desgaste, constrói-se uma nova guerra simbólica. Quando a realidade cobra explicações, entra em cena a dramaturgia do confronto permanente.

No final, permanecem os mesmos problemas concretos. As facções continuam movimentando bilhões. As fronteiras seguem vulneráveis. As rotas do tráfico permanecem ativas. As periferias seguem convivendo com o medo cotidiano.

Enquanto isso, parte da classe política continua disputando quem aparece primeiro na fotografia da próxima crise.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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