Educação financeira capenga: o Desenrola como política de alívio — e o risco de institucionalizar o improviso

Há momentos em que a política econômica deixa de ser escolha e passa a ser contenção de danos. O novo Desenrola se insere exatamente nesse terreno. Não nasce como reforma estrutural do sistema de crédito, mas como resposta a um quadro social deteriorado, em que o endividamento das famílias deixou de ser variável econômica e passou a ser fator de desorganização da vida cotidiana. 

Alívio imediato, efeito sistêmico limitado

Convém, portanto, analisá-lo fora das caricaturas. Nem como panaceia, nem como mero expediente eleitoral. A engrenagem que continua girando

O programa atua sobre um estoque de inadimplência que, há anos, compromete a circulação de renda no país. Ao viabilizar descontos expressivos e reestruturar dívidas de baixa recuperação, produz um efeito imediato de limpeza de balanço — tanto para as famílias quanto para o sistema financeiro. Trata-se de um mecanismo clássico de destravamento: reduz o passivo irrecuperável, recompõe minimamente a capacidade de consumo e melhora, na margem, a qualidade do crédito.

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Foto divulgação

Renegociação não é solução estrutura

Esse movimento, do ponto de vista técnico, é defensável. O custo de não agir seria maior. Uma economia com elevada inadimplência tende a operar com crédito mais caro, menor dinamismo e maior aversão ao risco por parte das instituições financeiras. O Desenrola, nesse sentido, corrige uma distorção que o próprio sistema não consegue resolver sozinho. Mas há um segundo plano que precisa ser considerado.

O papel ambíguo do sistema financeiro

O programa não altera os fundamentos que produziram o problema. O Brasil continua operando sob uma das estruturas de crédito mais onerosas do mundo, com forte concentração bancária, spreads elevados e instrumentos de financiamento que penalizam sobretudo a baixa renda. O rotativo do cartão, mesmo após tentativas de regulação, permanece como um dos principais vetores de endividamento descontrolado.

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Educação financeira fora de escala

A isso se soma uma transformação silenciosa no padrão de consumo. A digitalização ampliou o acesso ao crédito em velocidade superior à capacidade de compreensão dos riscos. Fintechs, crédito instantâneo e plataformas de apostas criaram um ambiente em que a decisão financeira é cada vez mais imediata e menos refletida. O endividamento deixou de ser episódico para se tornar recorrente.

Entre a política de emergência e a necessidade de reforma

É nesse ponto que a expressão “educação financeira capenga” ganha densidade analítica. O país até dispõe de iniciativas formais, mas elas não dialogam com a complexidade do ambiente atual. Ensina-se o básico enquanto o sistema opera no avançado. A assimetria é evidente. O Desenrola, portanto, atua como correção ex post de um desequilíbrio que continua sendo produzido ex ante.

Há ainda uma contradição estrutural que merece atenção. 

O mesmo sistema financeiro que se beneficia de juros elevados e de um modelo de crédito expansivo é convocado a absorver perdas e viabilizar renegociações. Do ponto de vista pragmático, a equação fecha: é melhor recuperar parte do crédito do que perder integralmente. Mas, do ponto de vista sistêmico, o incentivo permanece inalterado. Não há, no programa, elementos que reorientem de forma significativa o comportamento futuro do mercado.

Há também um pano de fundo internacional

Outro aspecto relevante diz respeito ao contexto macroeconômico e social que molda esse cenário. O endividamento recente não pode ser dissociado de choques sucessivos: pandemia, inflação de alimentos e energia, juros elevados e, mais recentemente, novas formas de drenagem de renda, como o avanço das apostas digitais. Há também um pano de fundo internacional, marcado por instabilidades geopolíticas que pressionam custos e reduzem margens de manobra das economias emergentes.

Nesse ambiente, o Desenrola cumpre uma função de estabilização social. 

Evita que o endividamento se transforme em exclusão financeira permanente. Reinsere indivíduos no sistema e reduz tensões que poderiam se agravar.

Mas a recorrência desse tipo de política carrega um risco silencioso: a normalização do excepcional. Programas de renegociação ampla tendem a criar expectativas de novas rodadas futuras, o que pode afetar o comportamento tanto de tomadores quanto de credores. Se mal calibrado, o instrumento de alívio pode, no longo prazo, enfraquecer a disciplina do crédito.

A sinalização do governo, ao tratar o programa como medida pontual, indica consciência desse limite. Resta saber se o país conseguirá avançar para a etapa seguinte.

Revisão inadiável da estrutura de custos do crédito

Além, é claro, assegurar a regulação de novos instrumentos financeiros, a proteção do consumidor em ambientes digitais e, sobretudo, uma política de educação financeira que vá além do discurso institucional. Não se trata de ensinar a poupar, mas de preparar o cidadão para operar num sistema sofisticado, assimétrico e, muitas vezes, adverso.

O Desenrola, visto com sobriedade, é um instrumento necessário. 

Cumpre um papel relevante no curto prazo e demonstra capacidade de coordenação entre Estado e sistema financeiro.

Mas ele também expõe, com clareza incômoda, o quanto o Brasil ainda trata o endividamento como um problema episódico — quando, na prática, ele já se consolidou como uma característica estrutural da economia.

Entre desenrolar e enrolar, o país segue administrando o presente. A questão que permanece é se terá disposição — política e institucional — para reorganizar o futuro.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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