Educação financeira capenga: o Desenrola como política de alívio — e o risco de institucionalizar o improviso

Há momentos em que a política econômica deixa de ser escolha e passa a ser contenção de danos. O novo Desenrola se insere exatamente nesse terreno. Não nasce como reforma estrutural do sistema de crédito, mas como resposta a um quadro social deteriorado, em que o endividamento das famílias deixou de ser variável econômica e passou a ser fator de desorganização da vida cotidiana. 

Alívio imediato, efeito sistêmico limitado

Convém, portanto, analisá-lo fora das caricaturas. Nem como panaceia, nem como mero expediente eleitoral. A engrenagem que continua girando

O programa atua sobre um estoque de inadimplência que, há anos, compromete a circulação de renda no país. Ao viabilizar descontos expressivos e reestruturar dívidas de baixa recuperação, produz um efeito imediato de limpeza de balanço — tanto para as famílias quanto para o sistema financeiro. Trata-se de um mecanismo clássico de destravamento: reduz o passivo irrecuperável, recompõe minimamente a capacidade de consumo e melhora, na margem, a qualidade do crédito.

educação financeira
Foto divulgação

Renegociação não é solução estrutura

Esse movimento, do ponto de vista técnico, é defensável. O custo de não agir seria maior. Uma economia com elevada inadimplência tende a operar com crédito mais caro, menor dinamismo e maior aversão ao risco por parte das instituições financeiras. O Desenrola, nesse sentido, corrige uma distorção que o próprio sistema não consegue resolver sozinho. Mas há um segundo plano que precisa ser considerado.

O papel ambíguo do sistema financeiro

O programa não altera os fundamentos que produziram o problema. O Brasil continua operando sob uma das estruturas de crédito mais onerosas do mundo, com forte concentração bancária, spreads elevados e instrumentos de financiamento que penalizam sobretudo a baixa renda. O rotativo do cartão, mesmo após tentativas de regulação, permanece como um dos principais vetores de endividamento descontrolado.

ChatGPT Image 5 de mai. de 2026 11 08 28
Imagem gerada por IA

Educação financeira fora de escala

A isso se soma uma transformação silenciosa no padrão de consumo. A digitalização ampliou o acesso ao crédito em velocidade superior à capacidade de compreensão dos riscos. Fintechs, crédito instantâneo e plataformas de apostas criaram um ambiente em que a decisão financeira é cada vez mais imediata e menos refletida. O endividamento deixou de ser episódico para se tornar recorrente.

Entre a política de emergência e a necessidade de reforma

É nesse ponto que a expressão “educação financeira capenga” ganha densidade analítica. O país até dispõe de iniciativas formais, mas elas não dialogam com a complexidade do ambiente atual. Ensina-se o básico enquanto o sistema opera no avançado. A assimetria é evidente. O Desenrola, portanto, atua como correção ex post de um desequilíbrio que continua sendo produzido ex ante.

Há ainda uma contradição estrutural que merece atenção. 

O mesmo sistema financeiro que se beneficia de juros elevados e de um modelo de crédito expansivo é convocado a absorver perdas e viabilizar renegociações. Do ponto de vista pragmático, a equação fecha: é melhor recuperar parte do crédito do que perder integralmente. Mas, do ponto de vista sistêmico, o incentivo permanece inalterado. Não há, no programa, elementos que reorientem de forma significativa o comportamento futuro do mercado.

Há também um pano de fundo internacional

Outro aspecto relevante diz respeito ao contexto macroeconômico e social que molda esse cenário. O endividamento recente não pode ser dissociado de choques sucessivos: pandemia, inflação de alimentos e energia, juros elevados e, mais recentemente, novas formas de drenagem de renda, como o avanço das apostas digitais. Há também um pano de fundo internacional, marcado por instabilidades geopolíticas que pressionam custos e reduzem margens de manobra das economias emergentes.

Nesse ambiente, o Desenrola cumpre uma função de estabilização social. 

Evita que o endividamento se transforme em exclusão financeira permanente. Reinsere indivíduos no sistema e reduz tensões que poderiam se agravar.

Mas a recorrência desse tipo de política carrega um risco silencioso: a normalização do excepcional. Programas de renegociação ampla tendem a criar expectativas de novas rodadas futuras, o que pode afetar o comportamento tanto de tomadores quanto de credores. Se mal calibrado, o instrumento de alívio pode, no longo prazo, enfraquecer a disciplina do crédito.

A sinalização do governo, ao tratar o programa como medida pontual, indica consciência desse limite. Resta saber se o país conseguirá avançar para a etapa seguinte.

Revisão inadiável da estrutura de custos do crédito

Além, é claro, assegurar a regulação de novos instrumentos financeiros, a proteção do consumidor em ambientes digitais e, sobretudo, uma política de educação financeira que vá além do discurso institucional. Não se trata de ensinar a poupar, mas de preparar o cidadão para operar num sistema sofisticado, assimétrico e, muitas vezes, adverso.

O Desenrola, visto com sobriedade, é um instrumento necessário. 

Cumpre um papel relevante no curto prazo e demonstra capacidade de coordenação entre Estado e sistema financeiro.

Mas ele também expõe, com clareza incômoda, o quanto o Brasil ainda trata o endividamento como um problema episódico — quando, na prática, ele já se consolidou como uma característica estrutural da economia.

Entre desenrolar e enrolar, o país segue administrando o presente. A questão que permanece é se terá disposição — política e institucional — para reorganizar o futuro.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

O Amazonas precisa de escolhas à altura de seu povo

"Examinar trajetórias, cobrar preparo e reconhecer o espírito público...

Conheça as propostas de meio ambiente dos candidatos ao governo do Mato Grosso 2026

Conheça as propostas dos principais candidatos ao governo de Mato Grosso para bioeconomia, desmatamento, povos indígenas, energia e clima.

Segurança no trânsito em Manaus: Abraciclo celebra 50 anos em nome da vida

"Na Semana Nacional de Trânsito, a entidade que representa...

O compromisso com o Amazonas atravessa as eleições

“Sem vinculação partidária ou eleitoral, o CIEAM tem razões institucionais para cobrar a preservação das garantias da Zona Franca e a transformação dessas conquistas em investimento, emprego e desenvolvimento regional.”