O mundo mudou — e a Amazônia precisa reagir antes de ser empurrada


Empresário à frente da Bemol e observador atento das transformações globais, Denis Minev compartilha uma leitura direta sobre o novo cenário internacional, os limites da economia brasileira e os desafios — e oportunidades — que se colocam para o Amazonas.


O que mudou foi a estrutura de coordenação do mundo. Durante décadas, havia uma lógica relativamente organizada, com regras, instituições e algum grau de previsibilidade. Isso deixou de existir.

Hoje temos múltiplos polos de poder, interesses conflitantes e menor capacidade de coordenação. Esse ambiente é mais instável e mais difícil de prever. As decisões são mais reativas e os impactos econômicos mais rápidos.

Isso afeta diretamente comércio, energia, cadeias produtivas e investimento. E regiões como a Amazônia sentem isso de forma mais intensa.


Ela chega principalmente via custos. Energia, transporte, insumos — tudo passa a oscilar mais. E na Amazônia isso tem um efeito amplificado, porque as cadeias são longas e dependentes de importações.

O preço do petróleo, por exemplo, impacta diretamente o custo de vida aqui. A logística encarece, a produção encarece e isso pressiona a inflação local.

Além disso, há uma reorganização das cadeias globais. Empresas estão buscando reduzir riscos, diversificar fornecedores. Isso cria oportunidades, mas também aumenta a competição.

E há a China, que continua expandindo sua presença com foco em escala e mercado. Para nós, isso é um desafio, mas também uma oportunidade de parceria.


O Brasil entra com algumas limitações importantes. A principal é o custo do capital. Juros elevados reduzem muito a capacidade de investimento das empresas.

Projetos que seriam viáveis com juros mais baixos deixam de acontecer. Isso afeta expansão, inovação e produtividade.

Ao mesmo tempo, temos uma dívida pública em crescimento e um nível elevado de endividamento das famílias, o que impacta consumo e inadimplência. Há um ponto positivo, que é o mercado de trabalho aquecido. Mas isso não resolve os desafios estruturais.

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O Amazonas vive um momento interessante. O Polo Industrial de Manaus está forte, gerando empregos e batendo recordes. Isso é resultado de um modelo que foi bem construído ao longo do tempo.

A reforma tributária trouxe previsibilidade, o que é muito relevante num mundo instável. Isso pode atrair novos investimentos.

Mas há um desafio claro: a baixa diversificação da economia fora do polo. Ainda temos poucas empresas de base amazônica com escala relevante.

O modelo funciona, mas ainda não conseguimos expandir seus efeitos para além dele.

Mas é importante ter clareza: isso não se constrói de forma espontânea. Exige estrutura, tecnologia, governança e, principalmente, modelo de negócio viável.

Hoje ainda estamos no início desse processo. Existem iniciativas relevantes, fundos dedicados e projetos sendo estruturados, mas ainda falta escala.

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Foto: Divulgação/Suframa)

O Fórum ESG da Amazônia cumpre um papel que vai além do debate. Ele é um espaço de alinhamento estratégico.

Hoje, a agenda ambiental, social e de governança deixou de ser um tema periférico e passou a influenciar diretamente acesso a mercados, custo de capital e competitividade das empresas. O fórum ajuda a traduzir isso para a realidade da indústria local.

Ele também tem um mérito importante: mostra que a Amazônia não está começando do zero. Já existem práticas, experiências e empresas que incorporaram ESG de forma concreta. O desafio agora é escala.

Além disso, o fórum cria um ambiente de troca entre setor público, privado e academia, o que é essencial para enfrentar problemas complexos. ESG não é uma agenda que se resolve de forma isolada.

Num momento em que o mundo cobra resultados e consistência, o fórum ajuda a posicionar a Zona Franca de Manaus como um modelo de desenvolvimento que combina produção industrial com responsabilidade ambiental.  


Esse é um dos caminhos mais promissores que temos. O Brasil, e especialmente a Amazônia, possui uma vantagem comparativa muito clara nesse tema. Temos escala territorial, biodiversidade e condições naturais que poucos países possuem.

A recuperação de áreas degradadas não é apenas uma agenda ambiental. É uma agenda econômica. Existe demanda crescente por créditos de carbono, por cadeias produtivas sustentáveis e por soluções baseadas na natureza.

Mas é importante ter clareza: isso não se constrói de forma espontânea. Exige estrutura, tecnologia, governança e, principalmente, modelo de negócio viável.

Hoje ainda estamos no início desse processo. Existem iniciativas relevantes, fundos dedicados e projetos sendo estruturados, mas ainda falta escala.

Se bem estruturado, esse tipo de investimento pode cumprir dois papéis ao mesmo tempo: gerar retorno econômico e ajudar a reposicionar a Amazônia como protagonista de uma nova economia global baseada em sustentabilidade.

O risco é tratar isso apenas como narrativa. O desafio é transformar em indústria.


A inteligência artificial é o principal vetor de transformação desse momento. O volume de investimento global nessa área é sem precedentes.

Ela tem potencial de aumentar significativamente a produtividade das empresas e da economia como um todo. Mas também traz riscos, especialmente em segurança digital e no mercado de trabalho.

Um dos pontos mais sensíveis é a quebra da chamada “escada profissional”. Funções de entrada estão sendo substituídas por IA. Isso levanta uma questão importante: como formar profissionais qualificados no futuro?

Essa é uma discussão que ainda não está sendo feita com a profundidade necessária no Brasil.

Denis Minev é diretor-presidente da Bemol e cofundador da Fundação Amazonas Sustentável, do Museu da Amazônia, da plataforma Parceiros Pela Amazônia e parceiro do portal BrasilAmazôniaAgora. É também investidor em diversas startups amazônicas nos segmentos de bioeconomia, carbono, logística e turismo e serviu como Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Amazonas. Em 2012, foi selecionado Young Global Leader do Fórum Econômico Mundial.

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BAA — Qual é o principal risco para a Amazônia hoje?

O principal risco é não agir na velocidade necessária. O mundo está mudando rapidamente e as decisões estão sendo tomadas agora.

A Amazônia tem ativos importantes, mas precisa organizá-los em uma estratégia de futuro. Caso contrário, continuará dependente de um modelo único.


Três pontos são claros.

  • Consolidar e expandir o Polo Industrial.
  • Avançar na diversificação econômica.
  • E investir fortemente em capacitação para a nova economia digital.

Sem isso, vamos perder competitividade.


Eu faria um pedido muito direto: experimentem. Se alguém ainda não passou algumas horas usando ferramentas como ChatGPT ou Claude, está perdendo uma oportunidade concreta de aprendizado.

A diferença entre usar e não usar é muito grande. A IA já permite ganhos reais de produtividade, tanto no trabalho quanto em atividades do dia a dia.

Nas empresas, isso não pode ser tratado como algo restrito à área de tecnologia. É uma ferramenta transversal. Todos deveriam estar aprendendo a usar.

Na Bemol, por exemplo, nós ampliamos o acesso para toda a equipe. Parte dos colaboradores utiliza versões mais avançadas, mas todos têm algum nível de contato com essas ferramentas. Isso muda a forma de trabalhar. Muda a forma de aprender. E, em muitos casos, melhora a qualidade das decisões.

A recomendação é simples: dedicar tempo, testar, explorar. Quem fizer isso mais cedo vai sair na frente.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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