Entrevista | Denis Minev ao Brasil Amazônia Agora
Empresário à frente da Bemol e observador atento das transformações globais, Denis Minev compartilha uma leitura direta sobre o novo cenário internacional, os limites da economia brasileira e os desafios — e oportunidades — que se colocam para o Amazonas.
BAA — Há uma percepção crescente de que o mundo entrou em uma nova fase. O que exatamente mudou?
O que mudou foi a estrutura de coordenação do mundo. Durante décadas, havia uma lógica relativamente organizada, com regras, instituições e algum grau de previsibilidade. Isso deixou de existir.
Hoje temos múltiplos polos de poder, interesses conflitantes e menor capacidade de coordenação. Esse ambiente é mais instável e mais difícil de prever. As decisões são mais reativas e os impactos econômicos mais rápidos.
Isso afeta diretamente comércio, energia, cadeias produtivas e investimento. E regiões como a Amazônia sentem isso de forma mais intensa.
BAA — E como essa nova geopolítica se traduz, na prática, para o Brasil e a região amazônica?
Ela chega principalmente via custos. Energia, transporte, insumos — tudo passa a oscilar mais. E na Amazônia isso tem um efeito amplificado, porque as cadeias são longas e dependentes de importações.
O preço do petróleo, por exemplo, impacta diretamente o custo de vida aqui. A logística encarece, a produção encarece e isso pressiona a inflação local.
Além disso, há uma reorganização das cadeias globais. Empresas estão buscando reduzir riscos, diversificar fornecedores. Isso cria oportunidades, mas também aumenta a competição.
E há a China, que continua expandindo sua presença com foco em escala e mercado. Para nós, isso é um desafio, mas também uma oportunidade de parceria.
BAA — O Brasil entra preparado para esse cenário?
O Brasil entra com algumas limitações importantes. A principal é o custo do capital. Juros elevados reduzem muito a capacidade de investimento das empresas.
Projetos que seriam viáveis com juros mais baixos deixam de acontecer. Isso afeta expansão, inovação e produtividade.
Ao mesmo tempo, temos uma dívida pública em crescimento e um nível elevado de endividamento das famílias, o que impacta consumo e inadimplência. Há um ponto positivo, que é o mercado de trabalho aquecido. Mas isso não resolve os desafios estruturais.

BAA — E o Amazonas, como se posiciona nesse contexto?
O Amazonas vive um momento interessante. O Polo Industrial de Manaus está forte, gerando empregos e batendo recordes. Isso é resultado de um modelo que foi bem construído ao longo do tempo.
A reforma tributária trouxe previsibilidade, o que é muito relevante num mundo instável. Isso pode atrair novos investimentos.
Mas há um desafio claro: a baixa diversificação da economia fora do polo. Ainda temos poucas empresas de base amazônica com escala relevante.
O modelo funciona, mas ainda não conseguimos expandir seus efeitos para além dele.
Mas é importante ter clareza: isso não se constrói de forma espontânea. Exige estrutura, tecnologia, governança e, principalmente, modelo de negócio viável.
Hoje ainda estamos no início desse processo. Existem iniciativas relevantes, fundos dedicados e projetos sendo estruturados, mas ainda falta escala.

BAA — O Fórum ESG da Amazônia tem ganhado relevância como espaço de articulação entre indústria, governo e sociedade. Qual é, na sua visão, o papel desse fórum neste momento de transformação global?
O Fórum ESG da Amazônia cumpre um papel que vai além do debate. Ele é um espaço de alinhamento estratégico.
Hoje, a agenda ambiental, social e de governança deixou de ser um tema periférico e passou a influenciar diretamente acesso a mercados, custo de capital e competitividade das empresas. O fórum ajuda a traduzir isso para a realidade da indústria local.
Ele também tem um mérito importante: mostra que a Amazônia não está começando do zero. Já existem práticas, experiências e empresas que incorporaram ESG de forma concreta. O desafio agora é escala.
Além disso, o fórum cria um ambiente de troca entre setor público, privado e academia, o que é essencial para enfrentar problemas complexos. ESG não é uma agenda que se resolve de forma isolada.
Num momento em que o mundo cobra resultados e consistência, o fórum ajuda a posicionar a Zona Franca de Manaus como um modelo de desenvolvimento que combina produção industrial com responsabilidade ambiental.
BAA — O senhor mencionou a necessidade de diversificação econômica. Iniciativas como reflorestamento e recuperação de áreas degradadas começam a aparecer como oportunidades de investimento. Esse é um caminho viável?
Esse é um dos caminhos mais promissores que temos. O Brasil, e especialmente a Amazônia, possui uma vantagem comparativa muito clara nesse tema. Temos escala territorial, biodiversidade e condições naturais que poucos países possuem.
A recuperação de áreas degradadas não é apenas uma agenda ambiental. É uma agenda econômica. Existe demanda crescente por créditos de carbono, por cadeias produtivas sustentáveis e por soluções baseadas na natureza.
Mas é importante ter clareza: isso não se constrói de forma espontânea. Exige estrutura, tecnologia, governança e, principalmente, modelo de negócio viável.
Hoje ainda estamos no início desse processo. Existem iniciativas relevantes, fundos dedicados e projetos sendo estruturados, mas ainda falta escala.
Se bem estruturado, esse tipo de investimento pode cumprir dois papéis ao mesmo tempo: gerar retorno econômico e ajudar a reposicionar a Amazônia como protagonista de uma nova economia global baseada em sustentabilidade.
O risco é tratar isso apenas como narrativa. O desafio é transformar em indústria.
BAA — O senhor mencionou mudanças estruturais. Onde entra a inteligência artificial nesse cenário?
A inteligência artificial é o principal vetor de transformação desse momento. O volume de investimento global nessa área é sem precedentes.
Ela tem potencial de aumentar significativamente a produtividade das empresas e da economia como um todo. Mas também traz riscos, especialmente em segurança digital e no mercado de trabalho.
Um dos pontos mais sensíveis é a quebra da chamada “escada profissional”. Funções de entrada estão sendo substituídas por IA. Isso levanta uma questão importante: como formar profissionais qualificados no futuro?
Essa é uma discussão que ainda não está sendo feita com a profundidade necessária no Brasil.
Denis Minev é diretor-presidente da Bemol e cofundador da Fundação Amazonas Sustentável, do Museu da Amazônia, da plataforma Parceiros Pela Amazônia e parceiro do portal BrasilAmazôniaAgora. É também investidor em diversas startups amazônicas nos segmentos de bioeconomia, carbono, logística e turismo e serviu como Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Amazonas. Em 2012, foi selecionado Young Global Leader do Fórum Econômico Mundial.

BAA — Qual é o principal risco para a Amazônia hoje?
O principal risco é não agir na velocidade necessária. O mundo está mudando rapidamente e as decisões estão sendo tomadas agora.
A Amazônia tem ativos importantes, mas precisa organizá-los em uma estratégia de futuro. Caso contrário, continuará dependente de um modelo único.
BAA — E qual seria a agenda prioritária?
Três pontos são claros.
- Consolidar e expandir o Polo Industrial.
- Avançar na diversificação econômica.
- E investir fortemente em capacitação para a nova economia digital.
Sem isso, vamos perder competitividade.
BAA — Para encerrar, o que o senhor diria, de forma prática, sobre o uso da inteligência artificial hoje?
Eu faria um pedido muito direto: experimentem. Se alguém ainda não passou algumas horas usando ferramentas como ChatGPT ou Claude, está perdendo uma oportunidade concreta de aprendizado.
A diferença entre usar e não usar é muito grande. A IA já permite ganhos reais de produtividade, tanto no trabalho quanto em atividades do dia a dia.
Nas empresas, isso não pode ser tratado como algo restrito à área de tecnologia. É uma ferramenta transversal. Todos deveriam estar aprendendo a usar.
Na Bemol, por exemplo, nós ampliamos o acesso para toda a equipe. Parte dos colaboradores utiliza versões mais avançadas, mas todos têm algum nível de contato com essas ferramentas. Isso muda a forma de trabalhar. Muda a forma de aprender. E, em muitos casos, melhora a qualidade das decisões.
A recomendação é simples: dedicar tempo, testar, explorar. Quem fizer isso mais cedo vai sair na frente.
