“Ao abrir suas portas e seus serviços, o TCE-AM ensaia um modelo de atuação que combina técnica e sensibilidade. Um modelo em que o espírito público não se esgota na fiscalização, mas se afirma na capacidade de reconhecer, incluir e responder”
Seminário inédito na Região Norte combina serviços diretos, escuta ativa e soluções técnicas para levar cidadania a pessoas com deficiência e reposicionar o papel do poder público.
No serviço público acontecem iniciativas que não se limitam ao protocolo institucional. Sobretudo quando atravessam a formalidade e alcançam um território mais sensível, onde o poder público se mede não pelo discurso, mas pela capacidade de chegar a quem historicamente ficou à margem. O 1º Seminário de Acessibilidade da Região Norte, promovido pelo Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM), parece se inscrever exatamente nesse campo.
Ao incorporar serviços diretos à população em sua programação, o evento desloca o eixo tradicional dos seminários técnicos. Em vez de se restringir ao debate entre especialistas, abre espaço para uma atuação concreta, que toca a vida cotidiana das pessoas com deficiência. Emissão de documentos, orientação sobre benefícios sociais e atendimento jurídico deixam de ser promessas abstratas e passam a compor uma oferta imediata de cidadania.
Esse movimento revela uma compreensão mais ampla do papel institucional. O controle externo, muitas vezes associado à fiscalização de contas e contratos, assume aqui uma dimensão pedagógica e social. Não se trata apenas de acompanhar políticas públicas, mas de induzir sua efetividade a partir do contato direto com quem depende delas.
A fala da conselheira-presidente Yara Amazônia Lins aponta nessa direção ao vincular acessibilidade à garantia de direitos e ampliação de oportunidades. Há, nesse posicionamento, um reconhecimento de que inclusão não é um conceito acessório, mas um critério estruturante de qualquer política pública que pretenda ser legítima.
Na mesma linha, a procuradora de contas Fernanda Cantanhede Veiga Mendonça, ao destacar o caráter transformador do seminário, sugere que a iniciativa busca tensionar a cultura institucional. O desafio não é apenas normativo ou técnico, mas simbólico: aproximar o Estado de realidades que frequentemente permanecem invisíveis nos processos decisórios.
A programação reforça esse duplo compromisso. De um lado, a presença de Lars Grael na abertura introduz a dimensão humana da superação e da inclusão, trazendo para o centro do debate experiências que transcendem estatísticas. De outro, as discussões técnicas sobre acessibilidade arquitetônica, conduzidas por especialistas como Eduardo Ronchetti, sinalizam que a transformação exige também rigor, método e aplicação prática.
O ponto de convergência está na vivência. As atividades que simulam barreiras e experiências cotidianas das pessoas com deficiência funcionam como um dispositivo de sensibilização. Elas deslocam o olhar de quem planeja políticas, aproximando-o das limitações concretas impostas por espaços, serviços e atitudes ainda pouco inclusivos.
No contexto amazônico, onde as desigualdades territoriais já impõem desafios adicionais, esse tipo de iniciativa ganha um significado ampliado. A acessibilidade, nesse cenário, não se resume à eliminação de barreiras físicas. Ela envolve acesso à informação, a serviços básicos e à própria presença do Estado em regiões onde ele frequentemente chega de forma fragmentada.
Ao abrir suas portas e seus serviços, o TCE-AM ensaia um modelo de atuação que combina técnica e sensibilidade. Um modelo em que o espírito público não se esgota na fiscalização, mas se afirma na capacidade de reconhecer, incluir e responder.
No fim, o que está em jogo não é apenas um seminário. É a tentativa de redesenhar a relação entre instituições e sociedade, especialmente com aqueles que, por muito tempo, permaneceram fora do campo de visão das políticas públicas.