Conflito no Oriente Médio afeta petróleo e gás, pressiona preços globais e expõe fragilidade da segurança energética fóssil, com efeitos diretos na economia e na transição energética global.
A escalada do conflito no Irã já provoca um dos maiores choques à segurança energética na história recente e pode redefinir o equilíbrio global de oferta e demanda de energia. O alerta é do diretor da Agência Internacional de Energia (AIE), Faith Birol, que aponta impactos prolongados sobre mercados, cadeias produtivas e políticas públicas.
Em entrevista ao Financial Times, Fatih Birol afirmou que a atual crise representa uma ameaça sem precedentes à segurança energética mundial. “Há consciência de que é um desafio grave, mas não estou certo de que a profundidade e as consequências estejam a ser plenamente compreendidas”, disse. Em avaliação recente, ele destacou que a normalização da produção pode levar pelo menos seis meses, com possibilidade de prazos ainda mais longos em algumas regiões.
O epicentro da instabilidade está no Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa uma parcela significativa do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados globalmente. A interrupção parcial do fluxo, agravada por ataques a infraestruturas energéticas no Golfo, já pressiona os preços internacionais. Nesta semana, o barril de petróleo se aproximou dos US$ 120.

De acordo com a AIE, o volume de gás afetado supera em larga escala a redução de fornecimento enfrentada pela Europa após a invasão da Ucrânia em 2022. No caso do petróleo, as perdas ultrapassam até mesmo os níveis registrados durante as crises da década de 1970, consideradas marcos históricos do setor.
Os efeitos dessa instabilidade da segurança energética já são sentidos em diferentes setores da economia. Companhias aéreas e operadores logísticos se preparam para restrições no abastecimento, enquanto governos adotam medidas emergenciais para conter os impactos.
No Sri Lanka, a semana de trabalho foi reduzida para economizar energia. Países europeus anunciaram cortes de impostos sobre combustíveis e os Estados Unidos avaliam utilizar estoques estratégicos para estabilizar os preços.
Como resposta imediata, a AIE coordenou a liberação de cerca de 400 milhões de barris de reservas estratégicas, equivalente a uma fração relevante do total disponível. Diante do cenário, a agência defende ações de curto prazo para reduzir o consumo, como incentivo ao teletrabalho, restrições a viagens e políticas de eficiência energética, estratégias semelhantes às adotadas em crises anteriores.
Apesar das recomendações, Fatih Birol afirma que essas ações são insuficientes para equilibrar a perda de fornecimento na região do Irã. “A ação mais importante é retomar o trânsito no Estreito de Ormuz”, ressaltou.
Impactos sobre a transição energética
Ao mesmo tempo, o episódio tende a acelerar transformações estruturais no setor. A expectativa é de maior investimento na transição energética, com fontes renováveis, expansão da energia nuclear e avanço da eletrificação, especialmente no transporte. No curto prazo, porém, há risco de aumento no uso de carvão como alternativa emergencial ao gás.
