“A América Latina sempre produziu pensamento crítico, inovação estética e experimentação social. O obstáculo recorrente não foi escassez criativa, mas restrição de poder estrutural.”
Editorial BAA
Enquanto houver produção cultural nascida da fratura histórica latino-americana, haverá escuta — ainda que parcial, ainda que atravessada por ruídos. A diferença é que, neste momento, a América Latina deixou de esperar autorização para ocupar o centro do palco global.
Durante décadas, o olhar predominante do chamado “mundo desenvolvido” enquadrou a região como espaço funcional: fornecedora de commodities, de força de trabalho barata e de exotismos controláveis. Nesse contexto, o fato de um artista porto-riquenho lotar estádios internacionais cantando majoritariamente em espanhol, sem adaptar sotaque ou repertório para consumo externo, adquire densidade política.
O êxito de Bad Bunny ultrapassa a lógica da indústria fonográfica. Ele expressa uma inflexão histórica na circulação de poder simbólico.
Em As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano descreveu um continente organizado para exportar riqueza e importar dependência. A estrutura econômica mudou de forma, mas não de essência: hoje exportam-se dados, atenção e capital cultural com a mesma assimetria de outrora. O que se altera, entretanto, é a capacidade de enunciação. Parte da produção cultural latino-americana já não se apresenta como tradução subordinada ao centro; ela se afirma como linguagem autônoma.
Não se trata apenas de música. Trata-se de disputa narrativa.
Bad Bunny emerge de Porto Rico, território cuja condição política permanece ambígua no sistema internacional — colônia tardia, plataforma militar estratégica, vitrine turística. Nesse espaço tensionado entre dependência formal e identidade própria, a cultura converte-se em arena de soberania simbólica. A recusa em neutralizar o espanhol, em suavizar referências locais ou em adaptar códigos estéticos ao gosto hegemônico não é mero estilo artístico; é um gesto político. Afirma-se o direito de existir sem mediação cultural.
Esse movimento reconfigura a lógica tradicional da globalização cultural. Durante décadas, a internacionalização exigia diluição identitária. Agora, a opacidade torna-se força: a obra circula preservando sua densidade local. Isso desloca a assimetria histórica segundo a qual a periferia traduz e o centro define.
O incômodo que parte da crítica manifesta diante desse fenômeno revela algo mais profundo: a erosão do monopólio anglo-saxão sobre os códigos da modernidade. A centralidade cultural sempre foi instrumento de poder. Quando artistas latino-americanos ocupam rankings globais sem se submeter às gramáticas dominantes, tensionam a própria arquitetura simbólica do sistema.
Convém evitar romantizações. A indústria cultural é capaz de absorver dissensos e convertê-los em mercadoria. O capitalismo contemporâneo metaboliza identidades com a mesma eficiência com que explora recursos naturais. A diferença, neste caso, reside na capacidade de reverter o fluxo de validação. O público global passa a consumir conteúdos que não foram previamente moldados para ele.
A América Latina sempre produziu pensamento crítico, inovação estética e experimentação social. O obstáculo recorrente não foi escassez criativa, mas restrição de poder estrutural. Quando a cultura amplia sua capacidade de circulação autônoma, abre-se uma brecha na hierarquia simbólica internacional.
Bad Bunny não encarna redenções coletivas. Sua trajetória evidencia, contudo, uma mutação no eixo de legitimidade cultural. A arte antecede rearranjos políticos porque atua no plano da imaginação social. Ao modificar o que é audível, visível e desejável, prepara terreno para transformações mais profundas.
A região continua inserida em disputas econômicas, ambientais e geopolíticas intensas. Ainda assim, há um dado novo: sua produção cultural deixou de pedir tradução como condição de existência. Canta-se a partir da própria gramática. E o mundo, por cálculo ou por fascínio, escuta.
Entre a denúncia literária de Galeano e a afirmação estética contemporânea, persiste a mesma América Latina: marcada por conflitos estruturais, dotada de inventividade resiliente e cada vez menos disposta a ocupar o lugar que lhe foi historicamente atribuído.
Acompanhe a apresentação do artista no intervalo do Super Bowl: