“A democracia não se defende só com voto — se defende com linguagem, com cultura, com memória pública, com arte que recusa o esquecimento como política de Estado, com democracia na cabeça”
No domingo, 11 de janeiro de 2026, em Los Angeles, o Brasil ganhou duas estatuetas no Globo de Ouro com O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho): Melhor Filme em Língua Não-Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, com Wagner Moura.
Isso não é “apenas cinema”. É política em estado puro — porque ditadura não é passado, é método: ela volta sempre que encontra um país cansado, distraído e “conciliador” demais com quem aplaude o porão.
Não por acaso, O Agente Secreto é uma história sobre perseguição durante a ditadura militar brasileira, e a vitória de Wagner Moura veio acompanhada da ideia central do filme: memória (e o apagamento dela) como trauma geracional.
E Kleber, no palco, soltou a frase que parece simples — mas é uma ordem civilizatória: “façam filmes”.
Porque filme, quando é de verdade, não serve para entreter o poder. Serve para constranger o poder. Serve para lembrar que há cadáveres no armário da História — e que a chave nunca foi perdida: foi escondida.
A desinformação teme a arte porque ela desorganiza a obediência
Autoritarismos entendem perfeitamente o que certos “moderados” fingem não entender: arte cria comunhão, imagina alternativas e fabrica coragem. Por isso, ela é reprimida — com prisão, censura, cancelamento de festivais, veto de circulação, remoção de streaming, licenças negadas. O relatório The State of Artistic Freedom 2024 documenta esse cerco global e trata, inclusive, do avanço de censura a livros e performances nos EUA sob o pretexto de “proteger” jovens.
Nos Estados Unidos, a ofensiva virou estatística de massa: a PEN America registrou mais de 10 mil banimentos de livros no ano letivo 2023–2024.
E a política, quando decide “curar” a cultura, costuma fazê-lo como quem quer amputar: não para fortalecer, mas para padronizar. É nesse espírito que Donald Trump anunciou Mel Gibson, Jon Voight e Sylvester Stallone como “enviados/embaixadores” especiais para Hollywood — um gesto que mistura espetáculo e vigilância simbólica sobre a imaginação.
O prêmio é um recado ao Brasil também
O Brasil viveu, nos últimos anos, a tentativa de reabilitar o inaceitável: relativizar ditadura, demonizar universidade, atacar imprensa, chamar censura de “equilíbrio”, chamar perseguição de “patriotismo”, chamar violência de “ordem”.
É por isso que um filme sobre a ditadura vencer lá fora é mais do que prestígio: é um alarme aceso na sala. O cinema faz o que o autoritarismo odeia: dá nome, rosto e enredo ao que o poder gostaria que virasse ruído.
A democracia não se defende só com voto — se defende com linguagem, com cultura, com memória pública, com arte que recusa o esquecimento como política de Estado.
Portanto, sim: celebremos a sétima arte — e todas as artes.
Mas celebremos do jeito certo: como ato político.
“Façam filmes”.
Montem barricadas — de livros, de reportagem, de palco, de poema, de câmera ligada. Porque contra a armação autoritária, a sociedade precisa de uma imaginação mais forte: a imaginação da liberdade.