Guia Prático dos Animais Urbanos: Aliados e Riscos na Cidade

Nem toda visita inesperada no quintal é motivo de alarme. Lagartixas, morcegos, corujas e até gambás podem ser grandes aliados contra pragas e desequilíbrios urbanos. Saiba como identificar riscos reais e proteger a biodiversidade que vive nas cidades.

A expansão das cidades não apagou a natureza, apenas a transformou. Entre ruas asfaltadas, praças, muros, telhados e redes de esgoto, existe um ecossistema peculiar, onde diferentes espécies de animais dividem espaço com os seres humanos. Algumas são silvestres — como corujas, morcegos e gambás — e mantêm hábitos mais discretos. Outras são chamadas de sinantrópicas, termo usado para designar os animais que conseguem viver próximos das pessoas, aproveitando as condições criadas por nós, como abrigo e restos de alimento. É o caso dos pombos, ratos, escorpiões e até baratas.

A presença desses animais nas cidades está diretamente ligada a fatores como clima, saneamento, vegetação remanescente, disponibilidade de abrigo, acúmulo de lixo e mudanças constantes no uso do solo. Nesse ambiente remodelado pela urbanização, alguns animais hoje prestam serviços ecossistêmicos importantes, ajudando a manter o equilíbrio nas cidades. 

Por outro lado, outras espécies encontram nas cidades condições perfeitas para se multiplicar. A abundância de lixo e a ausência de predadores favorecem a proliferação de pragas urbanas que podem representar riscos à saúde pública. Este guia prático é um convite para reconhecer esses animais e compreender quem são os aliados inofensivos e quais exigem atenção e medidas preventivas.

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Foto: O Eco

Por que entender os animais urbanos importa?

Saber quem são os animais que habitam a cidade é essencial para prevenir riscos, proteger espécies e promover ambientes urbanos mais saudáveis. Ao reconhecer quais espécies oferecem perigos reais — como escorpiões e ratos — e quais são benéficas para o equilíbrio ecológico — como corujas, lagartixas e gambás — moradores podem agir de forma preventiva, evitando acidentes e colaborando com a saúde pública.

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Vista aérea de São Paulo, onde a expansão urbana transforma o ambiente natural e cria novos ecossistemas. Mesmo em meio ao concreto, a cidade abriga espécies adaptadas que interagem com o cotidiano humano. Foto: Nathanael Noir/ Alamy Stock Photo

De acordo com o Portal de Boas Práticas da Fiocruz, muitos acidentes com animais peçonhentos ocorrem dentro ou ao redor das casas, geralmente por tentativa de capturar ou matar o animal. Entender o papel de cada espécie ajuda a evitar esse tipo de exposição desnecessária.

Corujas e gambás, por exemplo, são predadores naturais de roedores e escorpiões, sua presença atua como uma forma eficaz de controle biológico, mais sustentável do que o uso contínuo de pesticidas. Esses serviços ecossistêmicos prestados pela fauna urbana são essenciais para o bem-estar coletivo.

Quando a biodiversidade urbana diminui, abre-se espaço para a proliferação de pragas, favorecendo surtos de doenças como arboviroses e zoonoses. Além disso, a convivência com a fauna contribui para a saúde mental e o bem-estar. Pesquisas indicam que a presença de aves e polinizadores em áreas verdes melhora o humor, reduz o estresse e fortalece o vínculo das pessoas com o ambiente em que vivem.

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Foto: Renata Guarnieri/Prefeitura Itu

Animais urbanos que fazem bem e por quê

Nem toda presença animal na cidade representa ameaça. Algumas espécies são aliadas na manutenção do equilíbrio ecológico urbano, controlando pragas, polinizando jardins, dispersando sementes e contribuindo para ambientes mais saudáveis. A seguir, conheça quem são elas e como protegê-las.

Aves insetívoras (andorinhas, bem-te-vis, sabiás, corujas)

Essenciais no controle de pragas, algumas aves urbanas prestam verdadeiros serviços de saúde pública. Andorinhas, andorinhões, bacuraus e joões-de-barro, por exemplo, alimentam-se de milhares de insetos voadores por dia, incluindo mosquitos (como o Aedes aegypti). Ao manterem sob controle populações de insetos vetores de doenças, essas aves contribuem para a prevenção de surtos urbanos.

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Bem-te-vi. Foto: Divulgação/Portal Amazônia

As corujas urbanas merecem destaque especial. A suindara (Tyto furcata), também conhecida como coruja-das-torres, e a coruja-buraqueira (Athene cunicularia) são predadoras naturais de pequenos roedores, escorpiões e até cobras, espécies que, em excesso, representam riscos à saúde humana. Uma única suindara pode consumir mais de mil ratos por ano.

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Coruja das torres (Tyto furcata). Foto: Phil Robson/Unsplash

Como agir: evite o uso de pesticidas, mantenha jardins com plantas nativas e, quando apropriado, instale caixas-ninho. Se encontrar filhotes recém-saídos do ninho, não toque: eles estão em fase de aprendizagem e os pais continuam por perto.

Morcegos frugívoros e insetívoros

Apesar da má fama, a maioria dos morcegos urbanos é inofensiva e muito útil. Os insetívoros devoram mariposas e pernilongos à noite. Já os frugívoros polinizam flores noturnas e dispersam sementes, inclusive ajudando na regeneração de áreas degradadas.

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Morcego-da-Cauda-Grossa (Molossus molossus), muito comum no Brasil. Foto: Enrique González/Museo Nacional de Historia Natural de Uruguay

Sobre os riscos: das mais de 180 espécies de morcegos registradas no Brasil, apenas três são hematófagas (se alimentam de sangue), como o morcego-vampiro comum (Desmodus rotundus). Ainda assim, os ataques a humanos são raríssimos e costumam ocorrer em áreas rurais ou com gado.

Como agir: o risco de raiva é raro. O maior cuidado está no contato direto, por isso evite tocá-los e acione a zoonoses se encontrar morcegos em casa, sótãos ou forros.

Lagartixas

Comuns nas paredes de casas, lagartixas se alimentam de mosquitos, baratas jovens e outros insetos atraídos pela luz. Não são venenosas, não transmitem doenças e sua presença indica um ambiente relativamente equilibrado.

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Foto: Getty Images.

Aranhas não perigosas

A maioria das aranhas urbanas, como as papa-moscas e as aranhas-de-jardim, é inofensiva e atua como predadora de baratas, mosquitos e formigas. Das cerca de 40 mil espécies de aranhas conhecidas no mundo, menos de 30 têm veneno capaz de causar acidentes graves.

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Aranha papa-mosca. Foto: Fernando Agostini/VC no TG

Abelhas nativas sem ferrão (meliponídeos)

Responsáveis por até 90% da polinização de plantas nativas, essas abelhas são dóceis, não possuem ferrão e são seguras para crianças. Podem ser criadas em casas e escolas, com orientação adequada, fortalecendo hortas, jardins e o ciclo da natureza nas cidades.

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Imagem de abelha sem ferrão. Foto: Instituto Soka Amazônia.

Gambás (sariguês ou saruê)

Predadores oportunistas, os gambás se alimentam de frutas, roedores, serpentes jovens, escorpiões e aranhas. São imunes ao veneno desses animais e fundamentais no controle dessas pragas. Apesar disso, ainda são vítimas de maus-tratos por medo infundado. A raiva é extremamente rara nesses mamíferos.

Como agir: nunca alimente ou capture. Se avistar um gambá em deslocamento, apenas observe à distância.

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Foto: Revista Amazônia.

Animais que exigem cuidado, riscos e prevenção

Algumas espécies podem representar riscos sérios à saúde pública ou causar acidentes domésticos, exigindo medidas preventivas e, em muitos casos, manejo especializado. Conheça os principais animais que demandam atenção.

Escorpiões urbanos

Entre as cerca de 180 espécies de escorpiões que ocorrem no Brasil, apenas quatro oferecem risco de envenenamento grave em humanos. Todas pertencem ao gênero Tityus. São eles: o escorpião-amarelo (T. serrulatus), de veneno mais potente e maior relevância urbana, escorpião-amarelo-do-Nordeste (T. stigmurus), escorpião-marrom (T. bahiensis) e escorpião-preto-da-Amazônia (T. obscurus).

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Foto: Fernando Daros

Todos possuem veneno neurotóxico, capaz de afetar o organismo inteiro e não apenas o local da picada. Como explicou a bióloga Gracielle Pereira, as picadas são “extremamente dolorosas e podem levar à morte, principalmente em crianças e idosos”. Animais de estimação, especialmente cães pequenos e filhotes, também podem não resistir à toxina sem atendimento rápido.

No ambiente urbano, o escorpião-amarelo domina. Ele se reproduz por partenogênese, as fêmeas geram clones sem precisar de machos, e se adapta facilmente a esgotos, ralos, entulhos, jardins descuidados e pilhas de madeira. A abundância de baratas, seu principal alimento, e a ausência de predadores naturais — como corujas, lagartos e gambás — favorecem sua expansão nas cidades.

Como prevenir:

  • Vedar ralos, frestas, caixas de energia e rodapés.
  • Eliminar entulhos, folhas secas, tijolos e madeiras acumuladas.
  • Manter jardins limpos e sem acúmulo de lixo.
  • Sacudir roupas, toalhas e calçados antes de usar.
  • Em casas próximas a áreas verdes, usar telas finas nos ralos externos.

Em caso de picada: procure imediatamente atendimento médico, especialmente para crianças. Levar o escorpião, mesmo morto, auxilia na identificação da espécie e no uso adequado do soro antiescorpiônico.

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Escorpião amarelo. Foto: Grupo Kelldrin.

Cobras

Embora não sejam os animais urbanos mais frequentes, as serpentes também podem aparecer nas cidades, principalmente em zonas periurbanas, terrenos baldios, áreas com mato alto, bordas de matas e loteamentos em expansão. O crescimento desordenado das cidades, a redução dos habitats naturais e o acúmulo de entulho aumentam as chances de encontros.

A jararaca (Bothrops jararaca) é a serpente responsável pela maioria dos acidentes ofídicos no Brasil. É uma espécie peçonhenta, de hábitos noturnos, que se camufla facilmente em ambientes com folhas secas e vegetação baixa. Seu veneno é hemotóxico, podendo causar dor intensa, inchaço, hemorragias e, em casos graves, necrose e risco de morte, especialmente sem tratamento adequado.

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Foto: Marcelo Ribeiro Duarte / Instituto Butantan

Outras serpentes que podem ser vistas ocasionalmente em áreas urbanizadas incluem a caninana (Spilotes pullatus), que não é peçonhenta, é ágil, de comportamento defensivo, mas inofensiva ao ser humano e a cobra-cega (Amphisbaena spp.), que apesar do nome, não é uma cobra, mas um réptil escavador, é totalmente inofensivo e vive no subsolo.

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Caninana (Spilotes pullatus). Foto: Luan Alves Chaves/Wikimedia Commons

Apesar do medo comum, a maioria das cobras não é peçonhenta e evita o confronto direto com humanos. A maioria dos acidentes ocorre por tentativa de manipulação, captura ou agressão ao animal.

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Cobra-cega (Amphisbaena spp.) na verdade não é uma cobra. Thiago Marcial de Castro/Divulgação

O que fazer ao encontrar uma cobra:

  • Mantenha a calma e não tente capturar, espantar ou matar.
  • Afaste crianças e animais de estimação do local.
  • Acione imediatamente o Corpo de Bombeiros (193) ou o órgão ambiental responsável da sua cidade.

Em caso de picada: procure atendimento médico urgente com acesso a soro antiofídico. Se possível, memorize as características do animal (cor, padrão de manchas, tamanho).

Aranhas perigosas

Embora a maioria das aranhas urbanas seja inofensiva e importante para o controle de insetos, duas espécies merecem atenção especial devido ao potencial de causar acidentes graves: a aranha‑marrom (Loxosceles) e a armadeira (Phoneutria).

A aranha-marrom é discreta, de pequeno porte e raramente vista durante o dia. O seu comportamento recluso faz com que ela se esconda em locais secos, escuros e pouco movimentados, como atrás de móveis, dentro de gavetas, caixas de papelão, pilhas de roupas, sapatos guardados e sótãos. 

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Aranha-marrom. Foto: Pete Muller/Getty Images.

O veneno da espécie possui ação necrosante, capaz de destruir tecidos e causar lesões profundas, às vezes de evolução lenta. O risco é maior quando o aracnídeo é comprimido contra a pele, por exemplo, ao vestir uma roupa.

Já a armadeira, também conhecida como “aranha-macaco”, é uma das aranhas mais agressivas do Brasil. De porte maior e rápida, costuma se esconder em sapatos, luvas de trabalho, pilhas de madeira, jardins e folhas de bananeira. 

O seu veneno é neurotóxico e pode provocar dor intensa, alterações cardíacas, sudorese e, em casos mais severos, complicações sistêmicas, sendo especialmente perigoso para crianças, idosos e pessoas com condições pré-existentes.

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Aranha armadeira. Foto: Bruno C. Barbosa.

Como prevenir:

  • Manter a casa limpa, ventilada e sem acúmulo de caixas, roupas e materiais.
  • Vedar frestas em paredes, rodapés e portas.
  • Guardar sapatos em locais fechados e sempre sacudi-los antes de usar.
  • Inspecionar roupas, toalhas e roupas de cama que ficaram muito tempo guardadas.
  • Evitar manusear pilhas de madeira ou materiais sem luvas.

Em caso de picada: procure atendimento médico imediatamente. Não faça curativos caseiros nem aplique gelo sem orientação. Se possível, fotografe o aracnídeo para auxiliar na identificação, mas não tente capturá-lo.

Roedores urbanos (ratos e ratazanas)

Além de causarem danos materiais — como roer fios elétricos, tubulações, móveis e estruturas — os roedores são um dos principais vetores urbanos de doenças graves. As espécies mais comuns nas cidades brasileiras são o rato-de-esgoto (Rattus norvegicus), a ratazana e o camundongo doméstico (Mus musculus). 

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Foto: Pierre Aden/Getty Images.

Entre as doenças mais perigosas transmitidas por esses animais estão a leptospirose, causada pela bactéria Leptospira, presente na urina dos ratos e transmitida pelo contato com água ou lama contaminada, comum em enchentes. Além da hantavirose, transmitida por inalação de partículas de fezes secas ou urina de roedores. Salmonelose, toxoplasmose e outras contaminações alimentares, são também associadas à presença de fezes ou contato com alimentos mal armazenados.

Como prevenir:

  • Manejo adequado do lixo: sempre em sacos fechados e lixeiras com tampa.
  • Vedação de frestas em portas, ralos, paredes e telhados, já que os ratos conseguem entrar por espaços mínimos.
  • Armazenamento correto de alimentos, inclusive rações e grãos, sempre em potes fechados.

Atenção: O uso de raticidas deve ser feito com responsabilidade e, de preferência, por equipes treinadas. Uso incorreto pode causar intoxicação de pets, contaminação do solo ou envenenamento acidental de animais silvestres.

Roedores são, muitas vezes, o sintoma de um problema maior, lixo exposto, esgoto mal estruturado e falta de predadores naturais — como corujas, serpentes e gambás — que ajudariam a manter o equilíbrio. O combate deve ser constante, mas ético e bem orientado.

Pombos

Comuns em praças, telhados, sacadas e beirais, os pombos-domésticos (Columba livia) são considerados pragas sinantrópicas, ou seja, animais que convivem com o ser humano em ambiente urbano e podem causar incômodos ou riscos à saúde.

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Foto: Anderson Coelho.

O problema não está no animal em si, mas na superpopulação e no acúmulo de fezes secas e ninhos, especialmente em locais altos e abrigados. As excretas dos pombos são altamente ácidas, causam danos estruturais e servem de meio para o desenvolvimento de fungos e bactérias. A principal preocupação é a criptococose, uma doença respiratória grave causada pela inalação do fungo Cryptococcus neoformans, presente nas fezes secas.

Outras enfermidades relacionadas à presença excessiva de pombos incluem histoplasmose, salmonelose e psitacose, doença bacteriana transmitida pelo contato com secreções. Essas doenças afetam principalmente pessoas imunocomprometidas, idosos e crianças pequenas, mas qualquer um pode ser contaminado ao inalar poeira contaminada por fezes em ambientes fechados ou mal ventilados, como sótãos e depósitos.

Como controlar:

  • Nunca usar veneno ou armadilhas letais, proibidos por lei e ineficazes a longo prazo.
  • Impedir o acesso a fontes de alimento, como lixo exposto e restos de comida em praças ou janelas. 
  • Evitar alimentar pombos, esse hábito contribui diretamente para a superpopulação.
  • Vedar locais de formação de ninhos, como beirais, sótãos e vãos estruturais, usando telas, fios de nylon ou barreiras físicas.
  • Realizar limpeza de fezes com proteção adequada (luvas, máscara e óculos) e, quando possível, com orientação de profissionais especializados.

Importante lembrar: o problema é ambiental, não individual. Superpopulações de pombos geralmente refletem falhas no manejo de resíduos, na manutenção de estruturas urbanas e na falta de conscientização coletiva. E apesar do medo generalizado, o simples contato com pombos não causa a transmissão de doenças. 

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Foto: Erico Mabellini/Futura Press/Folhapress

Mosquitos e vetores de doenças

Insetos voadores estão entre os vetores mais perigosos em áreas urbanas, tanto pelo alcance quanto pela capacidade de transmissão silenciosa de doenças graves.

O mais conhecido é o mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, zika, chikungunya e febre amarela. Adaptado às cidades, ele deposita seus ovos em qualquer recipiente com água limpa e parada, como vasos de plantas, caixas d’água destampadas, calhas entupidas, pneus, garrafas ou até tampinhas de plástico. Seus hábitos diurnos e voos baixos o tornam especialmente difícil de combater.

Mosquito Aedes aegypti visto de perto, vetor de doenças agravadas pelos impactos climáticos na saúde.
Mudanças no clima favorecem a proliferação do Aedes aegypti, ampliando os casos de dengue, zika e chikungunya. Foto: Muhammad Mahdi Karim

Outro mosquito comum é o Culex quinquefasciatus, conhecido como pernilongo ou “muriçoca”, que se prolifera em águas poluídas, como esgoto a céu aberto e fossas mal vedadas. O Culex pode transmitir doenças como a filariose (elefantíase) e, em contextos específicos, o vírus do Nilo Ocidental.

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Mosquito culex. Foto: CDC/ James Gathany

Já os barbeiros (Triatoma spp.), tradicionalmente associados à zona rural, cada vez mais registrado em áreas urbanas e periurbanas, inclusive dentro de casas, especialmente em regiões com presença de vegetação densa ou palmeiras, como açaí, bacaba e buriti. Essas plantas funcionam como abrigo natural tanto para o inseto quanto para seus hospedeiros silvestres, facilitando a aproximação com humanos.

A transmissão da doença não ocorre diretamente pela picada, mas sim quando as fezes infectadas do barbeiro entram em contato com feridas na pele ou mucosas após a coceira. Na Amazônia, também há registros de casos agudos por via oral, relacionados ao consumo de açaí contaminado com fezes do inseto durante o processamento dos frutos.

Como prevenir:

  • Eliminar qualquer foco de água parada, mesmo os menores, como pratinhos de plantas, lonas, baldes e ralos externos.
  • Tampar caixas d’água e reservatórios, manter calhas limpas e lixeiras bem fechadas.
  • Evitar acúmulo de entulhos e objetos descartados em quintais.
  • Investir em saneamento básico, coleta de resíduos e drenagem urbana adequada.
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Foto: Olival Santos/ Secretaria de Saude Estado de Alagoas.

O controle de vetores é um esforço coletivo. Um único criadouro doméstico pode abastecer um quarteirão inteiro de mosquitos. E, ao contrário do que muitos pensam, mais de 70% dos focos de Aedes estão dentro de casa ou no entorno imediato.

No Brasil, o nome popular “carapanã” geralmente se refere ao pernilongo comum (Culex), que não é benéfico, pelo contrário, transmite doenças.

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Mosquito-elefante, o maior mosquito do mundo. Foto: César Favacho/Arquivo Pessoal

Porém, há um “carapanã do bem”: o chamado mosquito-elefante (Toxorhynchites spp.). Esse mosquito grande e inofensivo se alimenta apenas de néctar e não de sangue e sua larva é uma predadora voraz de larvas do Aedes aegypti.

Destaque: uma única larva de Toxorhynchites pode devorar mais de 100 larvas de Aedes. Reconhecê-lo e protegê-lo é fundamental para o controle natural de mosquitos vetores.

Como conviver de forma segura e ética com a fauna urbana

A convivência com a fauna da cidade exige atenção, mas também respeito. Muitos conflitos com animais silvestres não são causados por agressividade, e sim por medo, desinformação ou tentativas de intervenção desnecessárias. A regra de ouro é simples: não manipule, não mate e não capture.

Ao encontrar um animal silvestre — como um gambá, morcego ou coruja — em local seguro, o ideal é observar à distância e intervir o mínimo possível. A maioria dessas espécies só reage de forma defensiva se se sentir acuada ou encurralada. Muitas vezes, estão apenas de passagem ou abrigadas temporariamente e irão embora sozinhas.

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Foto:
José Cruz/Agência Brasil

Em situações de risco, como uma cobra no quintal, morcego dentro de casa ou animal ferido, o indicado é isolar o ambiente e acionar o Corpo de Bombeiros (193), a Polícia Ambiental ou o Centro de Zoonoses do seu município. 

Boa parte dos conflitos com a fauna acontece por oferta indevida de alimento e abrigo. Lixo mal armazenado, ração exposta ou acúmulo de entulho atraem roedores, baratas e até escorpiões. Para evitar esse ciclo, é preciso investir em manejo ambiental: manter áreas externas limpas, vedar frestas e controlar o acúmulo de resíduos orgânicos.

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Foto: Selma Souza / Voz Das Comunidades

Outro ponto importante é o incentivo a jardins biodiversos, plantas nativas e áreas verdes conectadas, que atraem predadores naturais (corujas, lagartos, morcegos) e ajudam a equilibrar o ecossistema sem o uso de venenos. Eliminar esses predadores é abrir espaço para as pragas.

Convivência ética também passa por desenho urbano. Cidades mais seguras para a fauna, e para as pessoas, investem em corredores ecológicos, arborização planejada, saneamento básico, drenagem eficiente e educação ambiental comunitária.

O lado ecológico invisível: por que cidades precisam de fauna

As cidades são hoje novos ecossistemas em constante transformação. E como todo ecossistema funcional, dependem de relações entre seres vivos para manter equilíbrio, saúde ambiental e qualidade de vida. A fauna urbana, muitas vezes invisibilizada ou mal compreendida, é uma engrenagem essencial nesse sistema.

Espécies como gambás, corujas e lagartixas atuam como controladores naturais de pragas, predando escorpiões, roedores, baratas e insetos transmissores de doenças. Esse controle biológico natural reduz a necessidade do uso de pesticidas e raticidas que, quando usados de forma indiscriminada, afetam também a saúde humana e os animais domésticos.

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Foto: Papyrus

Abelhas nativas e morcegos frugívoros, por sua vez, são fundamentais na polinização e dispersão de sementes, garantindo a regeneração de áreas verdes, a manutenção de hortas urbanas e a preservação da flora nativa. Essas interações ajudam a regular o microclima e tornam os espaços urbanos mais resilientes às ondas de calor.

Além dos benefícios ecológicos, a biodiversidade urbana melhora a qualidade de vida das pessoas. Estudos mostram que o contato com a natureza nas cidades, mesmo em pequenas áreas, reduz o estresse, melhora o bem-estar emocional e reforça o senso de pertencimento ao território. Proteger a fauna urbana, portanto, é investir em uma cidade mais equilibrada, saudável e sustentável para todos.

Mitos comuns sobre animais urbanos e o que dizem os especialistas

No convívio com a fauna urbana, é comum que o medo e a desinformação criem barreiras para uma convivência mais equilibrada. Muitos animais que geram pânico imediato — como gambás, morcegos ou aranhas — são, na verdade, aliados da saúde ambiental. A seguir, listamos alguns mitos frequentes e o que dizem os especialistas:

“Gambá transmite raiva” → É extremamente raro. Embora sejam mamíferos silvestres, os gambás têm baixa incidência de raiva, e sua principal função urbana é justamente controlar pragas como escorpiões, ratos e baratas. A orientação é não tocar, mas também não perseguir.

“Todo morcego é perigoso” → A maioria das espécies é inofensiva. Apenas três espécies brasileiras se alimentam de sangue e ainda assim os riscos à saúde humana são baixos se não houver contato direto. O o risco de transmissão de doenças como a raiva existe, mas é baixo e ocorre principalmente em casos de contato direto, como manipulação ou mordida. Não toque em morcegos caídos, feridos ou encontrados durante o dia, pois esses comportamentos podem indicar que o animal está doente.

“Todas as aranhas são venenosas” → Errado. Das milhares de espécies conhecidas, apenas uma minoria oferece risco clínico, como a aranha-marrom e a armadeira. Aranhas comuns em casa ou jardim, como as papa-moscas, são inofensivas e até benéficas.

“Pombos são animais sujos por natureza” → O problema não são os pombos em si, mas o desequilíbrio causado pelo excesso de alimento e abrigo disponível. O acúmulo de fezes secas pode sim ser um risco à saúde, mas a superpopulação está diretamente ligada à má gestão de resíduos urbanos.

“Abelhas sempre picam” → As abelhas nativas sem ferrão (meliponíneos) não possuem ferrão funcional e são extremamente dóceis. Elas são fundamentais para a polinização e podem ser criadas até em áreas urbanas, sem riscos a crianças ou animais domésticos.

Conflitos entre humanos e animais nas cidades não são causados apenas pela presença da fauna mas, muitas vezes, pela ausência de cuidado com o ambiente urbano.

Lixo acumulado, entulho, falta de áreas verdes e o uso excessivo de venenos criam desequilíbrios que afastam predadores naturais e favorecem pragas. A responsabilidade por esses desequilíbrios é coletiva e humana.

Quando compreendemos o papel ecológico de cada espécie, deixamos de ver os animais como inimigos e passamos a enxergá-los como parte essencial do ecossistema urbano, seja em suas funções ou como sinais da saúde ambiental.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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