“A Amazônia não será sustentável se o conhecimento indígena seguir fora das decisões sobre clima, território e desenvolvimento”
A entrevista foi realizada após a 2ª edição da Conferência Diálogos Amazônicos, um dos mais importantes encontros realizados fora da região amazônica para debater o presente e o futuro da Amazônia sob a ótica do desenvolvimento, da indústria, da inovação e da justiça socioambiental. E ê fruto da parceria da FGV com CIEAM, FIEAM, ABRACICLO, SINAEES e SIMMMEM é um pool de empresas do Polo,Industrial de Manaus.
O evento foi realizada no conte2ª edição da Conferência Diálogos Amazônicos, um dos mais importantes encontros realizados fora da região amazônica para debater o presente e o futuro da Amazônia sob a ótica do desenvolvimento, da indústria, da inovação e da justiça socioambiental. E se deu no 5 de dezembro de 2025, no Auditório da FGV EESP (Escola de Economia de São Paulo), reunindo lideranças empresariais, especialistas, pesquisadores, representantes da sociedade civil e autoridades públicas.
A entrevista foi concedida exclusivamente ao portal Brasil Amazônia Agora pelo editor geral Alfredo Lopes
BAA — Vanda, esta foi a primeira vez que uma liderança indígena ocupou a tribuna central de um encontro empresarial e acadêmico da indústria do Amazonas. Como você lê esse momento histórico?
Vanda Witoto — É uma quebra de paradigma. Pela primeira vez, a economia ouviu a voz de quem mantém a floresta viva há milhares de anos. Eu não vim para contestar a indústria, mas para recolocar a Amazônia no seu eixo: a base de tudo não é o mercado, é o território. A economia do Polo Industrial existe sobre uma realidade cultural, humana e ancestral poderosa — e, muitas vezes, ignorada. Minha mensagem foi: a Amazônia não é inimiga do desenvolvimento. A Amazônia é o fundamento dele.
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BAA — Você diz que a relação entre empresas e natureza precisa ser “regenerada”. O que exatamente isso significa?
Vanda — Significa superar essa visão antiga de que natureza atrapalha negócio. Isso não existe mais. Manaus é a segunda cidade com menos árvores do Brasil, mesmo sendo o coração da maior floresta tropical do planeta. Nós do Parque das Tribos estamos reflorestando a cidade, enquanto muitas empresas ainda derrubam. Reflorestar não é estética: é infraestrutura climática, é criação de microclimas, é adaptação. Sustentabilidade não pode ficar só no relatório ESG. Ela precisa aparecer no entorno das fábricas, no cuidado com as comunidades, na reaproximação com o território.
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BAA — Você fez uma provocação poderosa: convidou as empresas a acessarem uma “outra IA”, a inteligência ancestral. O que isso significa?
Vanda — A inteligência artificial pode ajudar o mundo. Mas existe outra IA — a Inteligência Ancestral — que mantém a Amazônia viva há milhares de anos. É um conhecimento profundo sobre ciclos naturais, manejo de sementes, medicina, construção de casa, seleção de solos, relações com os rios. É ecológico, é espiritual e é científico. Se o Polo Industrial quiser de verdade ser global, inovador e sustentável, precisa aprender a conversar com essa IA.
Confira um pouco desse bate-papo:
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BAA — O Parque das Tribos é hoje um símbolo da presença indígena urbana. Que realidade vocês enfrentam ali?
Vanda — Somos 35 povos. 88 crianças. 55 mães. 11 anos de luta. Um território sem água tratada, com insegurança alimentar, com casas improvisadas, com mulheres sem renda fixa. Três parentes morreram eletrocutados puxando “gatos” porque não tínhamos energia regular. E ainda ouvimos: “Cidade não é lugar para indígena”. A cidade até mantém nossos corpos vivos — mas pode matar nossa cultura. A economia indígena é a que mantém nossas vidas. Não somos paisagem. Somos sagrado.
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BAA — Você citou algo gravíssimo: agricultores indígenas não existem oficialmente para o governo federal. Pode explicar?
Vanda — O governo diz que estamos incluídos no Plano Safra. Não estamos. Os agricultores indígenas não são cadastrados pelo Ministério da Agricultura — e, se não somos cadastrados, não existimos no sistema. Sem CPF produtivo, sem DAP, sem CAR, sem registro: não há crédito rural, não há financiamento, não há política pública. E se não existimos nos dados, não temos como cobrar nada do Estado. É a mesma lógica que invisibiliza indígenas no mercado formal, nas estatísticas de emprego, na economia urbana. É racismo estrutural transformado em burocracia.
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BAA — Você também defende que o turismo indígena seja estruturado com protagonismo dos territórios. Como isso tem começado?
Vanda — Começa pela verdade. O Brasil faz marketing de turismo sem contar quem criou o tucupi, a farinha, a goma, o jambu, a medicina da floresta. No Parque das Tribos, estamos construindo um polo de turismo cultural, gastronômico e educacional. Recebemos escolas, universidades, pesquisadores.

Temos a cozinha Boca da Mata, que emprega 10 mulheres e serve comida ancestral. Temos a marca Dereckini, que produz moda indígena e paga salário mínimo, mesmo com estrutura mínima — mas que muda vidas. Estamos sonhando com nossa primeira maloca ancestral tecnológica, com energia solar, computadores, espaço de cultura e ciência indígena.Isso é economia real. E isso gera dignidade.
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BAA — Você afirma que a bioeconomia não alcança os povos indígenas. Por quê?
Vanda — Porque a bioeconomia foi desenhada para quem produz em escala. Nós produzimos em comunidade, em pequena escala, com espiritualidade, com regras de manejo que não são compatíveis com metas industriais. E aí dizem: “Vocês não são produtivos.” Mas nossa produção mantém o rio vivo, a floresta viva, o território vivo. É outra lógica. E se a política pública não entender isso, ficaremos sempre do lado de fora da bioeconomia — como sempre ficamos do lado de fora de tudo.
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BAA — A inclusão de indígenas nos conselhos corporativos foi um dos pontos mais fortes da sua fala. Por quê?
Vanda — Porque enquanto estivermos fora dos espaços de decisão, estaremos fora das soluções. Se queremos empresas realmente ESG, elas precisam ter indígenas, negros, LGBTs, mulheres e periféricos no conselho. Eu me formei agora pelo Conselheiras 101, um programa que forma mulheres indígenas e negras para ocupar cadeiras em conselhos empresariais.
Se não estivermos nos conselhos, seremos sempre “projetos sociais”. Não queremos ser beneficiários. Queremos ser arquitetos das transformações.
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BAA — Como construir parcerias éticas entre indústria e território?
Vanda — Parceria não é atravessamento. Parceria não é consultar depois. Parceria é:
• ouvir o território antes,
• construir junto,
• respeitar cosmologias e temporalidades,
• não impor modelos prontos,
• reconhecer que cada comunidade é única,
• investir em microeconomias que de fato sustentam vidas.
Selo de território indígena não é estética — é reconhecimento político. E isso vale para o tucupi, para a mandioca, para a moda, para o turismo, para tudo.
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BAA — Qual é a mensagem final que você deixa ao setor produtivo da Amazônia?
Vanda — Que não existe justiça climática, social, econômica ou ambiental sem inclusão indígena. Não existe bioeconomia sem território. Não existe indústria forte com floresta fraca. E não existe futuro se não entendermos que nós somos natureza. Natureza é coletiva. Economia também precisa ser.

Quem é Vanda Witoto?!
É uma mulher indígena Witoto que transformou sua trajetória de estudante, trabalhadora da saúde e moradora de periferia urbana em liderança de referência na luta por direitos, territórios e reconhecimento dos povos indígenas, especialmente das mulheres e dos indígenas que vivem nas cidades

