Por que não privatizar os rios amazônicos

Privatizações geralmente são eventos desejáveis. Atribuir direitos de propriedade a bens sob controle comum ou de entes governamentais tende a melhorar a alocação de recursos e sustentabilidade ambiental. A literatura neste tema é farta, com autores laureados. Destaco North, Allen, McCloskey e Ostrom.

A questão longe de ser resolvida está para os monopólios naturais, avocados como serviços públicos. Difícil confiar na boa concorrência entre estruturas de saneamento, distribuição de energia ou transportes. Mas o contrafactual de deixar nas mãos do governo costuma ser péssimo, com os ativos à mercê do processo político. Por exemplo, uma estrada pode ter evidente seu valor econômico, mas sua manutenção ou expansão fica subalterna aos ciclos eleitorais.

Mesmos assim nesses ativos o vetor da privatização é de mais difícil aceitação pela sociedade. Os contratos costumam oficializar os monopólios naturais, dando aos vencedores dos leilões uma proteção contra a concorrência, e os preços evoluem independente das oscilações na demanda. Em contínuos reajustes indexados à inflação, colaboram para piorá-la, tomando espaço nos orçamentos de seus usuários, sejam empresas ou famílias.

Essa questão é ainda mais complexa para a navegação nos rios amazônicos. Tema antigo, que remete ao problema da integração da Amazônia ao Brasil. Vencida desconfianças, a abertura da navegação com o direito de transporte concedido ao Barão de Mauá foi um capítulo dos mais auspiciosos da nossa História. 

nao privatizar os rios
Vista do Encontro das águas do Tapajós com Amazonas, em Santarém ( Foto João Laet/ The Guardian/Forbidden Stories).

Mas hoje, o que se quer? Na Amazônia há três grandes vetores de uso dos rios: A navegação a granel por balsas atende principalmente ao agronegócio do Centro-Oeste. A navegação de contêineres atende ao Polo Industrial de Manaus e ao comércio local.

A navegação de pequeno porte de cargas e passageiros atende principalmente as pequenas cidades e comunidades ribeirinhas. Diante disso, nichos do governo federal planejam conceder a particulares o controle sobre a navegação de nossos rios, iniciando pelos que atendem ao agronegócio do Centro-Oeste, como Madeira e Tapajós. Os demais viriam bem depois.

O motivo propalado é a necessidade de contínua dragagem para assegurar a boa navegação. Esse motivo teria ficado ainda mais evidente diante das restrições nas últimas secas. Contudo, não apenas a modelagem das concessões está sendo planejada ignorando quem mais foi prejudicado nas últimas restrições, que foi a navegação de contêineres, quanto não está se buscando a legitimação perante os com menos condições de lidar com tarifas, que é a navegação de pequeno porte.

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Dragagem do rio Madeira, próximo de Porto Velho (Foto Ministério da Infraestrutura).

Não se esclarece, por exemplo, se a concessão do Madeira vai escamotear eventual responsabilidade do excesso de sedimentos pelas hidroelétricas, pela dragagem criminosa de garimpo ou mesmo pela dragagem governamental. Não se pesquisou, não se sabe. Ignorando o trecho de Manaus a Santarém, a concessão do Madeira pode agravar os gargalos caso essas causas forem reais.

As concessões das hidrovias tendem a elevar o “custo Amazônia” e a consolidar a negligência criminosa do governo federal com a Amazônia. O PIB Amazonense tem das mais elevadas cargas tributárias sobre valor adicionado: 18%. No Brasil como um todo a proporção é 15%.

Em 2024 o Amazonas arrecadou R$ 26 bilhões aos cofres federais. Neste 2025, até setembro, foram R$ 16 bilhões. Quase nada disso retorna em investimentos para solucionar nossas lacunas em estruturas logísticas, melhorando o ambiente de negócios. Concedidas as hidrovias, esse fluxo será irreversível fundo perdido.

André Ricardo Costa
André Ricardo Costa
Doutor pela FEA USP e professor da UFAM

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