“O I COMEXA nasce como divisor de águas porque muda o eixo da discussão sobre a Zona Franca de Manaus. Deixa de ser um modelo defendido apenas por sua excepcionalidade fiscal e passa a ser defendido pela sua capacidade produtiva, tecnológica e exportadora.”
“A Amazônia precisa de políticas, mas também de processos, de metas e de métricas.
O I COMEXA foi o primeiro passo.
O próximo é fazer dessa agenda um compromisso coletivo com o futuro.”
Coluna Follow-Up
A Amazônia viveu, com o primeiro Fórum de Comércio Exterior da Amazônia (I COMEXA), um momento que ficará marcado na sua trajetória industrial. O evento, promovido pelo CIEAM em parceria com a SUFRAMA, não foi apenas uma conferência técnica: foi o início de uma mudança de paradigma.
Pela primeira vez, indústria, governo e instituições de fomento sentaram-se à mesma mesa para discutir a internacionalização da economia amazônica com base na Indústria 4.0, na sustentabilidade e na convergência tecnológica.
Um divisor de águas
O I COMEXA nasce como divisor de águas porque muda o eixo da discussão sobre a Zona Franca de Manaus. Deixa de ser um modelo defendido apenas por sua excepcionalidade fiscal e passa a ser defendido pela sua capacidade produtiva, tecnológica e exportadora.
O debate deixou claro: a Amazônia industrial não quer viver de incentivos, mas de inteligência, inovação e valor agregado. A mensagem dos participantes foi uníssona: é hora de transformar o Polo Industrial de Manaus em uma plataforma de exportação sustentável, competitiva e digitalizada.
Como resumiu Celiomar Gomes, coordenador da Comissão de Comércio Exterior do CIEAM:
“O comércio exterior é a tradução prática da inovação. É ele que transforma a inteligência amazônica em valor global.”
O diagnóstico: um potencial reprimido
A análise apresentada por Arthur Lisboa, da SUFRAMA, trouxe números que precisam ser lidos com urgência e coragem:
O Polo Industrial de Manaus, com mais de 600 empresas e faturamento de R$ 205 bilhões em 2023, exportou apenas R$ 3,3 bilhões — o equivalente a 1,6% de seu volume total. Desse universo, 22 empresas concentram 90% das exportações, embora 90% das indústrias tenham condições técnicas de exportar.
Esses números revelam um potencial reprimido colossal e uma necessidade urgente: a Amazônia precisa aprender a olhar para fora. Exportar é, antes de tudo, modernizar-se internamente — aprimorar processos, adotar padrões internacionais, incorporar rastreabilidade e certificações digitais.
A travessia para a Indústria 5.0
O Polo Industrial de Manaus está entrando tardiamente, mas de forma consistente, na era da Indústria 4.0, com sustentabilidade e inovação. A integração ao Portal Único de Comércio Exterior, anunciada por Luiz Frederico Aguiar e Ícaro Carvalho, é parte essencial dessa travessia.
Com o novo sistema digital CX, desenvolvido pela SUFRAMA, que substitui a antiga plataforma mainframe usada desde 2007, a autarquia deixará para trás a burocracia analógica e permitirá às empresas gerir exportações e importações com eficiência, previsibilidade e transparência.
Esse passo tecnológico não é apenas uma modernização operacional — é a base sobre a qual se edificará o novo perfil industrial amazônico, mais competitivo e conectado às cadeias globais de valor.

A sustentabilidade como identidade e diferencial
Outro eixo recorrente do I COMEXA foi o da sustentabilidade como ativo econômico e diplomático.
O vice-presidente da FIEAM, Nelson Azevedo, lembrou que a Zona Franca é a principal política ambiental do Brasil em operação contínua há mais de cinco décadas. Ao associar o PIM à neutralização de carbono e à inovação verde, a Amazônia passa de tema global a solução global.
Nesse contexto, o Selo Amazônico de Sustentabilidade Industrial, proposto durante o evento, deve se tornar ferramenta concreta de diferenciação comercial. Produtos com origem rastreável e responsabilidade ambiental comprovada terão, cada vez mais, preferência nos mercados internacionais.
As vozes do esforço coletivo
O superintendente da SUFRAMA, Bosco Saraiva, trouxe uma mensagem de confiança e cooperação, anunciando 45 novos projetos industriais e reiterando o compromisso de alinhar a autarquia ao futuro digital e competitivo.
A representante do MDIC, Ana Mônica Duarte, reforçou o papel da escuta ativa:
“Conhecer os atores da Amazônia é essencial para que Brasília entenda nossas urgências.”
E o painel empresarial, com executivos e empreendedoras como Nazaré e Bispo, traduziu o sentimento da base produtiva:
“Somos sobreviventes — adaptar-se é o novo nome da competitividade.”
Do discurso à execução: um pacto amazônico pela exportação
O I COMEXA não pode se encerrar como um evento. Ele precisa se tornar um processo permanente de convergência institucional, no qual governo, indústria, universidades e investidores assumam compromissos tangíveis.
O fórum apontou os caminhos; agora é hora de pavimentá-los.
