Nanotecnologia verde: folha de café pode tratar água e combater infecções hospitalares

Estudo mostra que folha de café podem originar nanopartículas com potencial de tratar água contaminada, combater infecções hospitalares e reduzir impactos ambientais

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com cientistas internacionais, descobriram uma forma inovadora e sustentável de reutilizar folhas de café, resíduo agrícola amplamente descartado no Brasil. O grupo desenvolveu nanopartículas de óxido de zinco a partir desses resíduos por meio de um processo conhecido como “síntese verde”, que dispensa o uso de compostos tóxicos e reduz os custos de produção.

O método aproveita compostos bioativos presentes nas folhas de café para sintetizar as partículas em escala nanométrica. Nessa forma reduzida, o óxido de zinco passa a apresentar propriedades especiais, como ação antimicrobiana, capacidade de acelerar reações químicas e potencial para ser usado em tecnologias sustentáveis.

Nos testes de laboratório, as nanopartículas demonstraram eficácia contra bactérias resistentes como Staphylococcus aureus e Escherichia coli, comuns em infecções hospitalares. Além disso, mostraram capacidade de degradar poluentes industriais, como corantes utilizados no setor têxtil, quando expostas à luz ultravioleta, indicando uso promissor em estações de tratamento de água e na recuperação de ambientes contaminados.

Imagem microscópica da bactéria Escherichia coli, alvo de testes com nanopartículas de folhas de café.
Nanopartículas produzidas com folhas de café mostraram eficácia contra bactérias resistentes como E. coli. Foto: Eric Erbe/USDA,ARS,EMU.

A aplicação vai além da saúde e do meio ambiente. Os cientistas criaram um protótipo de memória eletrônica biodegradável, chamado bioReRAM, unindo as nanopartículas com quitosana, um polímero extraído de crustáceos. O dispositivo armazena dados de forma eficiente e com menor impacto ambiental.

Com o Brasil liderando a produção mundial de café, o aproveitamento das folhas de café pode gerar valor econômico, reduzir desperdícios e posicionar o país no quadro da nanotecnologia verde. Autor do artigo, Igor Polikarpov, reforçou a importância da descoberta: “Estamos diante de uma inovação que aproveita um resíduo agrícola e o transforma em soluções para áreas vitais como saúde, meio ambiente e tecnologia”.

Saca de café cheia de grãos, representando a cadeia produtiva e os resíduos de folhas de café.
O Brasil lidera a produção mundial de café e agora as folhas da planta ganham novo valor científico. Foto: Kelly/Pexels.

Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu
Bruna Akamatsu é jornalista e mestre em Comunicação. Especialista em jornalismo digital, com experiência em temas relacionados à economia, política e cultura. Atualmente, produz matérias sobre meio ambiente, ciência e desenvolvimento sustentável no portal Brasil Amazônia Agora.

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