Reflorestar: o melhor presente que a Amazônia pode se dar

“Neste 5 de setembro, o presente que damos a nós mesmos é o mais generoso: a certeza de que reflorestar é reinventar nosso destino“

O Dia do Amazonas e da Amazônia como ponto de virada

As datas que celebram o Dia do Amazonas e o Dia da Amazônia deveriam ser mais do que atos protocolares: são convocações à responsabilidade histórica. A floresta que nos dá água, alimento e clima equilibrado está ameaçada, e o maior presente que nós, amazônidas, podemos nos oferecer é reflorestá-la e recompor sua riqueza.

O desafio é muito mais do que ambiental: é econômico, social e civilizatório. Trata-se de mudar o paradigma — abandonar o extrativismo predatório e assumir uma gestão socioambiental de nosso patrimônio, baseada na imitação da natureza, no manejo de espécies nativas e na geração de empregos sustentáveis.

O Brasil no centro da regeneração global

Estudo publicado na Science em 2024 aponta que o Brasil concentra 20% de toda a área do planeta com potencial de reflorestamento — 389 milhões de hectares, capazes de sequestrar até 39,9 gigatoneladas de carbono até 2050. Isso não é apenas um dado científico: é um mapa do protagonismo brasileiro no combate à crise climática.

•⁠ ⁠O potencial brasileiro equivale a três vezes a emissão anual de carbono de todos os EUA.
•⁠ ⁠A recomposição florestal pode gerar créditos de carbono bilionários, num mercado em expansão global, mas que precisa de regras sólidas para não se converter em mera especulação financeira.
•⁠ ⁠O reflorestamento abre espaço para cadeias produtivas regenerativas, que poderiam injetar até R$ 1 trilhão no PIB brasileiro até 2050, segundo projeções de institutos de inovação climática.

Mas o dado mais relevante é simbólico: nenhuma outra nação tem tanto território apto a regenerar e, ao mesmo tempo, tanta responsabilidade diante do mundo.

reflorestar
Foto Daniel Beltra – Greepeace

Denis Minev: a Amazônia como credora, não ré

Nesse contexto, a escolha de Denis Minev como representante do setor privado da Amazônia na COP30 em Belém é emblemática. Seu discurso rompe a narrativa de que a Amazônia é culpada pelas emissões globais:

                        ⁠“A Amazônia não é ré. É credora do mundo”, afirmou Minev.
denis minev1
Executivo Denis Minev (foto divulgação)

A proposta que ele apresenta vai além do ativismo: é um plano concreto de reflorestamento produtivo, com base em sistemas agroflorestais.

•⁠ ⁠Investimento inicial: R$ 50 mil por hectare em 3 a 5 anos.
•⁠ ⁠Cadeias integradas: cacau, açaí, banana e madeira de manejo sustentável.
•⁠ ⁠Retorno anual: mais de R$ 60 mil por hectare/ano.
•⁠ ⁠Impacto social: 0,5 emprego direto por hectare reflorestado.
•⁠ ⁠Impacto ambiental: 50 mil hectares regenerados por ano, com 12 milhões de toneladas de carbono armazenadas.

Em vez de escolher entre floresta e desenvolvimento, o modelo de Minev sugere uma economia regenerativa: floresta em pé, emprego digno e renda recorrente.

Entre a promessa e o risco do greenwashing

Mas o reflorestamento não pode ser tratado como panaceia. Há riscos:

1.⁠ ⁠Greenwashing corporativo – grandes empresas podem financiar projetos apenas para compensar sua poluição, sem mudar práticas internas.
2.⁠ ⁠Conflito fundiário – restauração em larga escala exige regularização de terras e respeito aos direitos de comunidades tradicionais e indígenas.
3.⁠ ⁠Prioridade invertida – reflorestar é vital, mas não substitui o combate ao desmatamento. Em 2023, a Amazônia perdeu 5 mil km² de floresta — equivalente a quatro vezes a área de São Paulo. Sem deter a motosserra, plantar árvores é remar contra a corrente.

O desafio é garantir que o reflorestamento seja parte de uma estratégia maior, não uma cortina de fumaça.

A gestão socioambiental como novo paradigma

Reflorestar significa adotar a gestão socioambiental do patrimônio amazônico. Isso exige:

•⁠ ⁠Políticas públicas que fomentem a bioeconomia, a restauração e a pesquisa científica;
•⁠ ⁠Inovação tecnológica para rastrear, medir e dar escala a projetos de recomposição;
•⁠ ⁠Parcerias com comunidades locais, que já manejam a floresta com sabedoria milenar;
•⁠ ⁠Integração entre ciência e tradição, combinando biotecnologia, saber indígena e práticas regenerativas.

É um paradigma invertido: em vez de ver a floresta como fronteira a conquistar, tratá-la como plataforma de futuro, onde biodiversidade e conhecimento são os insumos de uma nova economia.

Reflorestar como ato de soberania e amor-próprio

Ao propor o reflorestamento como presente no Dia do Amazonas e da Amazônia, o recado é claro: não esperamos esmolas, propomos soluções.

•⁠ ⁠É ato de soberania, porque fortalece o protagonismo amazônida no cenário global.
•⁠ ⁠É ato de justiça social, porque gera emprego onde hoje há pobreza e exclusão.
•⁠ ⁠É ato de amor-próprio coletivo, porque nos lembra que o futuro que queremos não virá de fora: depende de nós, amazônidas.

Neste 5 de setembro, o presente que damos a nós mesmos é o mais generoso: a certeza de que reflorestar é reinventar nosso destino.

Rildo Silva
Rildo Silva
Rildo Silva é empresário e conselheiro da FIEAM e do CIEAM e membro da comissão ESG da indústria

Artigos Relacionados

Abraciclo lança guia para orientar uso seguro de veículos elétricos de duas rodas nas cidades brasileiras

"Publicação reúne recomendações sobre segurança viária, regras de circulação...

Adalberto Luís Val, um cientista que ajuda o mundo a compreender a Amazônia

“Reconhecido internacionalmente, pesquisador do Inpa construiu uma trajetória que...

Ibama viraliza com ações contra o garimpo ilegal e explica destruição de equipamentos

Ibama viraliza com ações contra o garimpo ilegal e explica por que destrói dragas e outros equipamentos em operações.

Com apoio do Idesam, produtos da floresta movimentam R$ 18,2 milhões

Idesam apoia vendas de R$ 18,2 milhões em produtos sustentáveis e atua junto a mais de 5 mil famílias na Amazônia, aponta relatório de 2025.