Francisco: o papa dos excluídos, da floresta e da paz

Neste 21 de abril de 2025, o mundo se despede de uma das maiores lideranças espirituais e políticas do nosso tempo. O Papa Francisco, nascido Jorge Mario Bergoglio, nos deixa com um legado luminoso e incômodo: luminoso para os que acreditam em uma humanidade fraterna e reconciliada com a natureza; incômodo para os que preferem o silêncio diante da dor, da desigualdade, do preconceito e da destruição ambiental.

Desde o início de seu pontificado, em 2013, Francisco foi a voz dos que não têm voz. Fez da cátedra de Pedro um púlpito para os pobres, os refugiados, os povos indígenas, os marginalizados por sua etnia, religião, orientação sexual ou condição social. Enfrentou de forma corajosa os próprios pecados da Igreja — da omissão histórica diante das ditaduras às feridas abertas pelos escândalos de pedofilia — com humildade, arrependimento e compromisso com a verdade.

PAPA FRANCISCO
Tânia Rego- Agência Brasil

Francisco tentou — com coragem, ternura e firmeza — redefinir o papel e o propósito da Igreja Católica, uma instituição que ele buscou reconciliar com o Evangelho dos humildes. Sua insistência em fazer do Vaticano uma Igreja mais próxima das pessoas e menos presa a formalismos e dogmas, foi acolhida por milhões ao redor do mundo e, ao mesmo tempo, alvo de severas críticas dentro da própria instituição. Mesmo assim, sacudiu as colunas institucionais do papado, sem conseguir avançar nas mudanças substanciais na doutrina, revelando uma transformação de espírito mais que de letra.

Na Amazônia, Francisco plantou raízes profundas. Nenhum outro papa falou com tanta clareza sobre as ameaças existenciais que pairam sobre a floresta, seus povos e o equilíbrio climático do planeta. Sua encíclica Laudato Si’, publicada em 2015, é uma carta encarnada nas lutas socioambientais que nos mobilizam. Ali, ele clama por uma ecologia integral, que compreende que “tudo está interligado” — o meio ambiente, os pobres, a economia, a política, a justiça, a espiritualidade.

Sínodo para a Amazônia, convocado por ele em 2019, foi um gesto profético e inédito, que deu centralidade à voz dos povos amazônidas, valorizou suas culturas e espiritualidades, e denunciou com força a lógica predatória do extrativismo que devasta a região. A escuta, a inclusão e a valorização da floresta em pé se tornaram bandeiras espirituais e políticas sob seu pontificado.

No Brasil Amazônia Agora, sentimos a perda de Francisco como quem perde um companheiro de caminhada. Sua voz jamais silenciou diante do sofrimento. Sua coragem inspirou movimentos sociais, pesquisadores, comunidades tradicionais e jovens que lutam por um futuro possível na Amazônia. Sua lucidez nos lembra que não há justiça social sem justiça ambiental.

O papa Francisco foi, como poucos, um líder espiritual do século XXI. Não apenas por sua fé, mas por sua visão de mundo. Um mundo em que a compaixão, a humildade e a ação são inseparáveis. Sem obras, sem mudanças, a fé é vazia.

Que seu legado permaneça entre nós, como brisa firme que sopra sobre a floresta, nos convocando à esperança ativa e obstinada à construção de um novo pacto civilizatório e de afirmação da justiça e da sustentabilidade.

Alfredo Lopes
Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo, escritor e editor-geral do portal Brasil Amazônia Agora

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