Peixes ansiosos? Água contaminada por ansiolíticos altera comportamento da fauna marinha

Após contato com a água contaminada, salmões expostos às substâncias ficaram mais ousados, se desagrupando dos cardumes e assumindo riscos maiores durante a migração, o que compromete sua sobrevivência

Cientistas descobriram que substâncias presentes em medicamentos de uso humano, como o calmante clobazam, estão poluindo os rios e provocando mudanças comportamentais preocupantes em peixes, especialmente no salmão-do-Atlântico. O fenômeno ficou conhecido como “Psycho Salmon”, em referência aos efeitos neurológicos causados pela água contaminada, e acende um alerta global sobre os impactos da poluição farmacêutica nos ecossistemas aquáticos — e suas possíveis consequências para a saúde humana.

De acordo com o estudo publicado na revista Science na quinta-feira (10), jovens salmões expostos ao clobazam em rios da Europa apresentaram níveis alarmantes da substância no cérebro. Como resultado, ficaram mais ousados, se desagrupando dos cardumes e assumindo riscos maiores durante a migração.

Esse comportamento compromete a sobrevivência da espécie, que depende da movimentação em grupo para se proteger de predadores no trajeto dos rios até o mar.

Peixes ansiosos? Água contaminada por ansiolíticos altera comportamento da fauna marinha.
Peixes ansiosos? Água contaminada por ansiolíticos altera comportamento da fauna marinha | Foto: Hans-Petter Fjeld/ Wikimedia Commons CC BY-SA 2.5

“Nossas descobertas sugerem que até mesmo traços mínimos de medicamentos no ambiente podem alterar o comportamento animal de formas que podem influenciar sua sobrevivência e sucesso na natureza”, comentam os autores.

Como os remédios chegaram até a água?

O dado mais alarmante revelado pelo estudo é que mais de mil substâncias farmacêuticas já foram detectadas em ambientes aquáticos ao redor do mundo — inclusive em locais extremamente remotos, como a Antártida.

Isso acontece porque, ao ingerirmos medicamentos, nosso corpo não absorve 100% das substâncias. O excesso é eliminado pela urina ou fezes e segue para o esgoto. O problema é que as estações de tratamento de água não conseguem remover completamente esses compostos químicos, que acabam sendo liberados em rios, lagos e oceanos.

Estações de tratamento de água e esgoto.
Estações de tratamento de água e esgoto.

Esses resíduos farmacêuticos, mesmo em concentrações baixas, podem permanecer no ambiente por muito tempo e afetar profundamente a fauna aquática — alterando comportamentos, ciclos reprodutivos e até cadeias alimentares inteiras. É um alerta claro sobre os impactos invisíveis do nosso consumo cotidiano e a urgência de melhorar tanto o descarte quanto o tratamento dos resíduos.

Isadora Noronha Pereira
Isadora Noronha Pereira
Jornalista e estudante de Publicidade com experiência em revista impressa e portais digitais. Atualmente, escreve notícias sobre temas diversos ligados ao meio ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável no Brasil Amazônia Agora.

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