A pandemia que construiu o bem-comum

NOTA DO EDITOR – Hoje é um dia muito importante para a História do CIEAM. Por isso, a Coluna Follow-up vai republicar um artigo – neste 23 de junho de 2022 – que veio a público em  21 de julho de 2020: pandemia que construiu o bem-comum, de Luiz Augusto Barreto Rocha, ocasião em que foram encerradas as 20 conferências realizadas pelo CIEAM, FIEAM, ELETROS e ABRACICLO para mobilizar inteligências, competências, setores e atores do setor produtivo e da sociedade para enfrentar as sequelas perversas da COVID-19, a pandemia que abalou o mundo e nosso cotidiano. O objetivo: buscar alternativas de sobrevivência das pessoas, ou seja, assegurar que o vírus não levasse a óbito a vida e a esperança e que a economia, da qual depende 85% do pão nosso de cada dia, não fosse ralo abaixo. O artigo foi escrito pelo presidente líder  do movimento, uma ação da resistência. Barreto Rocha assumiu hoje a presidência executiva da entidade, no lugar de Wilson Périco. O artigo fala da visão de mundo de seu autor, valores e compromissos com a economia, com o Amazonas, a Amazônia e o país. Confira

Independentemente do que venha pela frente, no Polo Industrial de Manaus ninguém ficou de braços cruzados à espera do pior. Agimos. Seguimos agindo e nos unimos. Fizemos a diferença.” 

Por Luiz Augusto Barreto Rocha
__________________________________

Coluna Follow-up

Quando surgiram as primeiras notícias da pandemia do Covid-19, a sensação de impotência em Manaus foi a mesma das demais regiões do mundo. Tudo novo e assustador. Estávamos diante de uma guerra sem as armas mínimas, enfrentando um inimigo invisível e desconhecido, em meio à uma profusão de desinformações, ideologizadas e revestidas do falso saber ou de suposta ciência, em meio a outras que eram reais, com difícil distinção entre elas.

Como empresários, acostumados a lidar com crises diárias de crédito, de mercado, logísticas, políticas, associativas, familiares, dentre outras, vimos a pandemia como um embaraço a mais, entretanto, e muito rapidamente, ela se apresentou como o embaraço maior. Assim, foi imperioso escolher no que acreditar, meditar sobre que fios e que novelos priorizar, para onde ir, com quem e o que compartilhar. Fomos assim tateando pela súbita escuridão e com a obrigação de acertar. Nos aspectos econômicos estimavam uma depressão repentina, possivelmente mais grave que a de 2008, ou mesmo que a Grande Depressão de 1929. E o que mais nos assustava, a perda, muitas perdas de vidas humanas, da qualidade de vida das pessoas, do fantasma da fome e das moléstias da violência. Tínhamos pouca munição, portanto, não podíamos errar. Hoje, entre feridos e acidentados, podemos dizer que, movidos pela força da solidariedade, até aqui sobrevivemos.  

Para a história, importante registrar: ao invés de colocar o cadeado nas fábricas e ir para os nossos aconchegantes lares e aí passar a propalada quarentena. Porém, as principais lideranças do Polo Industrial de Manaus arregaçaram as mangas, tomaram para si a responsabilidade da iniciativa e passaram a articular soluções com as lideranças nacionais com quem partilhamos visão de mundo. Mais do que isso: temos habilidades de alinhamento nas abordagens e condutas. E esta foi a forma de reagir, criar, crescer e fortalecer. Descobrimos que ficávamos mais fortes a medida em que fomos ampliando a interlocução e a mobilização para enfrentar esse terrível inimigo. Apesar  de invisível, o vírus  nos mostrou claramente as consequências que todos enxergaram, dentre estas a fome, a doença e o desemprego.

E foi assim que, num contexto inicial de mero grupo de WhatsApp e uma solidária maratona de ligações, foi criado o Comite Indústria ZFM Covid-19 e estabelecido o lema: “Mobilizar competências, braços e recursos para, como sociedade, enfrentarmos e vencermos esta crise.” A partir daí foram surgindo mais protagonistas da indústria ou com ela identificados, todos com suas especialidades e movidos pela solidariedade, ora com a indumentária de soldados e, quando necessário, exigentes como generais, para enfrentamento do inimigo comum. Na área da saúde, grupos foram-se formando para produzir EPIs para proteção dos heróis da saúde na linha de frente, para o atendimento aos pacientes, álcool em gel começou a fazer parte das linhas de produção, empresa de bebidas fornecendo embalagens e logística, face shields, máscaras, aventais, macacões, hospitais, respiradores, enfim, tudo aquilo que se fizesse necessário.

Nesse cenário solidário cresceu, naturalmente, um compromisso ético, cívico e fraterno, empurrado pela notícia da explosão dos segmentos sociais em extrema vulnerabilidade. E foi resgatado o lema: “quem tem fome tem pressa”, do sociólogo Betinho. Rapidamente se constituiu a Ação Social Integrada das entidades Cieam, Fieam, Abraciclo e Eletros, que, além dos novos produtos industriais de combate à Covid-19,  arrecadou cestas básicas, com objetivo de colocar comida na mesa dos mais vulneráveis. Esta ação segue e, até hoje, contabiliza mais de 240 toneladas de alimentos, arrecadadas junto à indústria e seus parceiros e distribuídos religiosamente aos destinatários. Alguns nomes para a posteridade: Alfredos, Andersons, Antonios, Armandos, Augustos, Barrelas, Brunos, Capelas, Danieis, Denis, Eduardos, Everardos, Fabiolas, Grecos, Helenos, Iuquios, Jeans, Jorges, Joões, Josés, Julios, Lucianos, Lúcios, Luizes, Marcos,Márcios, Marcelos, Moisés, Nasseres, Nelsons, Paulos, Portelas, Rafaeis, Régias, Ricardos, Ronaldos, Salehs, Sydneis, Suenys, Vanessas, Uedas, Wilsons… Eles se tornaram multidão, nenhum mais importante que o outro e todos imbuídos do propósito de contribuir voluntariamente, muitas vezes com risco pessoal de contágio, para atender comunidades em vulnerabilidade e atingidas pela fome e pelo vírus, indígenas, idosos, pessoas com deficiências, artistas… seres humanos!

Em seguida, mais um fruto, foi criado o GT pós-pandemia, que está trabalhando, também voluntariamente, na construção das alternativas econômicas atuais e futuras de nosso estado. Assim, em Manaus, a indústria não parou. Alimentou, produziu, protegeu, seguiu em frente, gerando emprego, renda, dignidade, e estabeleceu padrões mundiais de proteção aos colaboradores. Demos exemplo. O governo constituiu seu Comitê de Crise onde fomos ouvidos.  Em algum momento futuro a verdadeira Ciência poderá nos explicar o que ocorreu em Manaus. Partimos de uma realidade que foi noticiada como de  “preocupação mundial” para, em segundo momento, viver e enfrentar os desafios de Manaus cuja performance poderá ser confirmada como “cidade modelo” no combate à pandemia. Segundo os principais jornais, no final de semana passada, nenhuma morte foi aqui registrada decorrente da pandemia. Manaus acaba de ser a primeira capital brasileira onde as aulas presenciais foram autorizadas a retornar pelas autoridades sanitárias. 

Independentemente do que venha pela frente, no Polo Industrial de Manaus ninguém ficou de braços cruzados à espera do pior. Agimos. Seguimos agindo e nos unimos. Fizemos a diferença. Que este espírito persista e persistirá, para podermos construir um mundo melhor, menos desigual e mais justo. 

A Coluna Follow-up é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras no Jornal do Comercio do Amazonas, sob a responsabilidade do Centro da Indústria do Estado do Amazonas e coordenação editorial de Alfredo Lopes, consultor da entidade e editor do portal BrasilAmazoniaAgora
Luiz Augusto Barreto Rocha edited
Luiz é advogado, empresário, presidente do Conselho Superior do CIEAM e vice-presidente da FIEAM, e assumiu nesta da data, interinamente, a presidência executiva da entidade.
Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Água em risco: como a poluição ameaça a vida nos rios do planeta e o que pode ser feito agora

Com a maior rede hidrográfica do planeta e uma biodiversidade aquática extraordinária, o país está no centro desse debate. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios conhecidos: saneamento insuficiente, poluição por mineração, expansão agrícola e impactos das mudanças climáticas. A Amazônia, por exemplo, já apresenta sinais de contaminação por plásticos e outros poluentes, evidenciando que nem mesmo regiões consideradas remotas estão imunes

Terras raras no Brasil entram no centro da disputa por soberania nacional

Terras raras no Brasil entram na disputa global, com Lula defendendo soberania mineral diante de pressões externas e impactos ambientais.

Mineração sustentável é possível? Transição energética expõe dilema

Mineração sustentável é possível? Avanços tecnológicos enfrentam limites ambientais, pressão sobre ecossistemas e desafios da transição energética.

O mundo mudou — e a Amazônia precisa reagir antes de ser empurrada

Entrevista | Denis Minev ao Brasil Amazônia Agora Empresário à...