Fóssil de jacaré revela nova espécie que viveu na Amazônia há 10 milhões de anos

Pesquisadores descobriram uma nova espécie de jacaré, já extinta, que habitava a Amazônia brasileira há cerca de 10 milhões de anos. A existência do Melanosuchus latrubessei, como foi nomeado, foi revelada através de um fragmento de fóssil do focinho do animal – apesar de incompleto, o achado foi suficiente para confirmar que se tratava de uma espécie ainda desconhecida pela ciência. O jacaré pré-histórico habitava as margens do rio Purus e seu fóssil foi encontrado numa região conhecida como sítio Talismã, entre o Acre e o Amazonas.

A descoberta foi descrita em um artigo publicado no último mês na revista científica Zootaxa assinado por pesquisadores de seis instituições brasileiras: Universidade Federal do Acre (UFAC), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Museu da Amazônia (MUSA).

Através da técnica de datação com isótopo, os cientistas estimaram a idade do fóssil em aproximadamente 10 milhões de anos, o que corresponde à época do Mioceno, entre 5 e 12 milhões de anos atrás. “Nessa época os Andes ainda não haviam se erguido totalmente em sua porção norte (Equador, Colômbia, Venezuela) permitindo que na região do Acre e sul do Amazonas se formassem grandes acúmulos de águas e planícies de inundações. Esse cenário mudou com a finalização do soerguimento dos Andes (condição similar à que vivemos hoje) que resultou num esvaziamento do acúmulo de água nessa região junto a mudanças climáticas que provavelmente tiveram relação direta na extinção de boa parte da fauna e flora que habitava a região”, explica o pesquisador Jonas de Souza-Filho, da Universidade Federal do Acre, e um dos autores do estudo.

O jacaré pré-histórico possuía um tamanho e hábitos alimentares parecidos com o do contemporâneo e também amazônico jacaré-açu (Melanosuchus niger), o maior jacaré vivente do mundo, com uma dieta generalista baseada em peixes, répteis e mamíferos de pequeno a médio porte. O fóssil também revelou a morfologia dos dentes do Melanosuchus latrubessei, que possuía dentes posteriores mais baixos e arredondados que permitiam que se alimentassem de animais mais duros como tartarugas e crustáceos.

“É permitido reconhecer que essa espécie possui inúmeras similaridades morfológicas com o maior jacaré vivente do mundo, o jacaré-açu. Similaridades essas que tornaram possível explicar, por meio da proposição do compartilhamento de um ancestral comum entre essas espécies, onde tais características surgiram, se fixaram e foram herdadas tanto pela espécie fóssil quanto a vivente”, detalha Lucy Souza, do Museu da Amazônia. O jacaré-açu pode chegar a 6 metros de tamanho e ocorre exclusivamente na bacia Amazônica, onde tem ampla distribuição e pode ser encontrado em sete países, entre eles o Brasil.

A paleontóloga explica que o Melanosuchus latrubessei coexistiu com outros crocodilianos como os do gênero Gryposuchus, animais aparentados ao gavial indiano, e do Mourasuchus, crocodiliano com focinho longo e largo que lembra o formato do bico de um pato. “E com o maior crocodiliano conhecido até então, o Purussaurus brasiliensis”, completa Lucy, que também já escreveu artigos sobre o purussauro – jacaré que chegaria a 13 metros de comprimento.

“Estudos envolvendo a vida passada são importantes para expandirmos nosso conhecimento sobre a biodiversidade de organismos que já habitaram nosso planeta, mas também para entender como se dá a evolução dos animais e o impacto das mudanças climáticas e ambientais na vida dos organismos. A compreensão do passado nos ajuda a compreender e explicar o presente bem como projetar o futuro avaliando assim os danos e impactos de nossas ações na natureza e quais as possíveis consequências que isso gerou e irão gerar”, conclui Jonas.

Fonte: O Eco

Redação BAA
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Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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