Relatório do WWF aponta perda de biodiversidade mais intensa na América Latina e em ambientes de água doce, mas mostra que ações de conservação podem recuperar populações.
As populações monitoradas de animais vertebrados selvagens registraram uma redução média de 73% entre 1970 e 2022, segundo o Relatório Planeta Vivo, divulgado pelo WWF Internacional nesta quinta-feira (8). O resultado corresponde a um declínio médio anual de 2,5% e reforça o alerta sobre a perda de biodiversidade no mundo.
Produzido pela Sociedade Zoológica de Londres (ZSL), o levantamento reúne informações sobre 35.803 populações de 5.790 espécies de mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios. Esses dados compõem o Índice Planeta Vivo (IPV), que acompanha mudanças no tamanho das populações ao longo do tempo.
O indicador não significa que 73% de todos os animais do planeta desapareceram, nem mede diretamente a quantidade de espécies extintas. Ele representa a variação média da abundância nas populações estudadas, sejam elas numerosas ou pequenas.
Para a diretora-geral do WWF Internacional, Kirsten Schuijt, enfrentar a perda de biodiversidade exige mudanças na produção de alimentos e energia, além de transformações no financiamento das economias. Segundo ela, os sistemas associados ao crescimento econômico têm acelerado a degradação ambiental.
Rios e lagos concentram as maiores perdas
As populações de vertebrados de água doce tiveram a queda mais intensa: 85% no período analisado, equivalente a uma redução média de 3,6% ao ano. Barragens e desvios de rios estão entre as alterações que comprometem habitats e interrompem rotas essenciais à migração dos peixes.
Nos ambientes terrestres, o declínio foi de 69%, enquanto as populações marinhas apresentaram redução de 59%. As taxas médias anuais foram de 2,3% e 1,7%, respectivamente.
O levantamento também revela diferenças regionais na perda de biodiversidade. A América Latina e o Caribe registraram a maior diminuição das populações monitoradas, de 95%, seguidos pela África, com 80%, e pela Ásia e região do Pacífico, com 49%. Na América do Norte, a queda foi de 28%; na Europa e Ásia Central, de 23%.
Esses percentuais precisam ser interpretados à luz do período observado e da disponibilidade de monitoramento, explica Andrew Terry, diretor de conservação da ZSL. Na América do Norte, por exemplo, perdas expressivas ocorreram antes de 1970, ficando fora do recorte do relatório.
Biodiversidade e economia
A perda de biodiversidade compromete o funcionamento dos ecossistemas e traz consequências para a segurança, a economia e a qualidade de vida. Segundo o documento, cerca de US$ 58 trilhões do Produto Interno Bruto global de 2023 estavam associados a atividades com algum grau de dependência da natureza.
Além do IPV, a publicação examina indicadores de risco de extinção, desaparecimento de espécies e integridade da biodiversidade. A análise conjunta reforça o diagnóstico de degradação da natureza em escala mundial.
Os resultados não devem ser comparados diretamente aos de edições anteriores. A base é ampliada e revisada a cada publicação, o que altera o conjunto analisado. Em relação à edição de 2024, foram incorporadas 967 populações de 295 novas espécies e atualizados os registros de outras 669 populações.
Conservação apresenta resultados
Apesar do declínio médio, metade das populações acompanhadas pelo índice permaneceu estável ou cresceu. O relatório destaca experiências que demonstram como ações de conservação podem conter a perda de biodiversidade e favorecer a recuperação de espécies.
No Brasil, a população de onças-pintadas na Mata Atlântica aumentou 280% entre 2019 e 2025, após uma atuação coordenada entre governo, organizações do terceiro setor e produtores locais. Outro exemplo é a tartaruga-verde, que passou à categoria Pouco Preocupante em 2025. A recuperação ocorreu após cinco décadas de esforços de proteção em mais de 80 países onde a espécie realiza a desova.
Mudanças que aceleram a recuperação
Como caminho para enfrentar a perda de biodiversidade, a publicação apresenta o conceito de “ponto de inflexão positivo”, desenvolvido em pesquisa da Universidade de Exeter, na Inglaterra. A ideia descreve mudanças que passam a se reforçar, acelerando a transição para uma situação melhor e tornando seus avanços mais baratos e duradouros.
O tema integra as contribuições do relatório à COP17 da Biodiversidade, que começa em 19 de outubro, em Yerevan, na Armênia. O encontro reunirá lideranças para discutir como acelerar ações e investimentos de proteção da natureza.