O Amazonas Tem Problema. E Agora?

Há um ritual bem conhecido nos corredores das instituições públicas, nos auditórios das universidades e nas salas de conferência do setor privado amazônico: o ritual do diagnóstico. Mapeia-se o problema. Elabora-se o relatório. Apresenta-se o seminfográfico. Aplaude-se a profundidade da análise. E, na semana seguinte, começa um novo diagnóstico.

O Amazonas é um dos territórios mais estudados do planeta — e um dos que menos vê seus problemas se transformarem em soluções próprias. Não porque faltem dados. Não porque falte inteligência. Falta o mecanismo que transforma diagnóstico em entrega. Falta a máquina de execução.

A Plataforma de Inovações Convergentes do Amazonas é uma proposta de construir essa máquina. E vale a pena entender exatamente o que isso significa — e o que não significa.

A primeira coisa que precisa ser dita com clareza é o que a Plataforma não é. Não é um hub de inovação no sentido decorativo do termo: espaço bonito, paredes coloridas, post-its amarelos e hackathons de fim de semana que geram protótipos que nunca saem do papel. Não é uma incubadora de startups. Não é um congresso anual com palestrantes internacionais. Não é um programa de bolsas para pesquisa que se encerra em artigo acadêmico.

A Plataforma é definida pelo que entra e pelo que sai. Entra um desafio real — um problema concreto do Amazonas, priorizado por quem tem autoridade para agir sobre ele. Sai um pacote de solução: protótipo testado em campo, evidências de funcionamento, métricas de impacto, requisitos de operação, estimativa de custo-benefício, plano de escala com responsáveis identificados. Sai, em outras palavras, algo que pode ser adotado. Algo que tem dono. Algo que pode ser replicado.

Essa distinção parece simples. Não é. A maior parte das iniciativas de inovação institucional no Brasil falha exatamente nesse ponto: o processo é bem estruturado na entrada e vago na saída. Gera-se conhecimento; não se gera transformação. A Plataforma só será diferente se mantiver obsessão pelo que sai — e não pelo que acontece dentro.

O AMAZONAS

O nome é revelador: Inovações Convergentes. Não “colaborativas”, não “integradas”, não “multisetoriais” — embora seja tudo isso. Convergentes aponta para algo mais específico: a ideia de que competências distintas, quando direcionadas ao mesmo ponto de chegada, produzem algo que nenhuma delas produziria isolada.

Governo traz legitimidade, acesso a dados públicos e capacidade de adotar e escalar políticas. Indústria traz conhecimento operacional, viabilidade econômica e interesse em soluções que funcionem no mundo real. Academia traz rigor metodológico, capacidade de gerar evidência e perspectiva de longo prazo. Sociedade traz o problema na sua forma mais concreta — vivida, não teorizada.

Nenhum desses atores, operando sozinho, fecha o ciclo. O governo sem a indústria produz política sem escala econômica. A indústria sem a academia produz solução sem evidência. A academia sem a sociedade produz pesquisa sem aderência ao problema real. A sociedade sem o governo produz demand sem a capacidade institucional de responder. A Plataforma é o espaço onde esses quatro vetores apontam para o mesmo destino ao mesmo tempo. Isso é converência. E é muito mais difícil do que parece.

O Pipeline Como Filosofia

Há uma palavra no documento que define a Plataforma que merece atenção especial: pipeline. Não projeto. Não programa. Pipeline — um fluxo permanente, contínuo, com entrada e saída definidas em cada etapa.

A diferença é mais do que semântica. Um projeto tem começo, meio e fim. Quando termina, encerra-se a equipe, distribui-se o relatório final, e a instituição segue em frente. Um pipeline não termina: ele opera. Quando um desafio é resolvido, o próximo já está na fila. O que se aprende num ciclo alimenta o seguinte. O portfólio cresce. A capacidade institucional se acumula.

Essa é a aposta mais ambiciosa da Plataforma — e também a mais frágil. Construir um pipeline permanente exige algo que as instituições públicas brasileiras raramente conseguem sustentar: continuidade de intenção além dos ciclos políticos. Exige que o mecanismo sobreviva à troca de gestores, à mudança de prioridades, ao entusiasmo do lançamento e ao cansaço da operação cotidiana. Por isso, a proposta de ciclos curtos com entregas mensuráveis não é apenas uma escolha metodológica: é uma estratégia de sobrevivência institucional. Resultados visíveis criam legitimidade. Legitimidade cria continuidade.

Qualquer proposta de plataforma multissetorial esbarra, cedo ou tarde, na mesma pedra: governança. Quem decide o quê? Quem cobra de quem? Quem tem autoridade para encerrar um ciclo e declarar que a solução está pronta? Quem impõe ritmo quando o ritmo natural das instituições é a lentidão?

A proposta da Plataforma divide isso em três camadas complementares. O Conselho multissetorial prioriza e cobra resultado — é a instância que decide quais desafios entram e que exige evidência de que saída. As Câmaras Técnicas qualificam e validam — são o filtro que garante rigor sem burocracia. O Núcleo Executivo enxuto faz acontecer e presta contas — é quem não tem desculpa para não entregar.

Essa arquitetura só funciona se cada camada respeitar os limites da outra. O Conselho que começa a operar como executor paralisa tudo. As Câmaras que transformam validação em veto técnico estéril travam o processo. O Núcleo que opera sem transparência perde legitimidade. A tentação de invadir o papel alheio é permanente em ambientes multissetoriais. A governança bem desenhada é, em última instância, a disciplina de cada parte saber o que é e o que não é seu.

A pergunta que qualquer ensaio honesto precisa enfrentar é: por que isso importa? A resposta fácil é dizer que o Amazonas é estratégico para o Brasil, que sua biodiversidade é patrimônio da humanidade, que sua posição geográfica o coloca no centro das discussões sobre mudanças climáticas globais. Tudo isso é verdade — e é insuficiente como argumento, porque é um argumento que já circula há décadas sem produzir a urgência que deveria.

A resposta mais honesta é outra: o Amazonas é um laboratório civilizatório. Os desafios que ele enfrenta — como desenvolver sem destruir, como gerar renda em territórios de alta complexidade ecológica e social, como construir infraestrutura que não fragmente comunidades, como aplicar tecnologia num contexto onde conexão e escala são limitadas — são versões amplificadas de desafios que o mundo inteiro enfrentará nas próximas décadas.

Quem aprender a resolver esses problemas aqui terá soluções que interessam ao mundo. A Plataforma de Inovações Convergentes, se funcionar como proposta, não será apenas uma ferramenta de gestão regional. Será uma fonte de soluções com potêncial de exportção — não de commodities, mas de conhecimento aplicado.

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Há uma sabedoria embutida na forma como a Plataforma pede sua própria aprovação. A decisão solicitada não é grandiosa: é aprovar o início com um conjunto pequeno de desafios prioritários, com governança definida e metas de entrega em ciclos curtos. Não pede mandato total. Não pede orçamento ilimitado. Não pede confiança a priori. Pede espaço para provar que funciona.

Isso é inteligente por duas razões. Primeiro, porque a menor decisão é a mais fácil de aprovar — e a aprovação de uma coisa pequena que funciona abre caminho para a expansão orgânica. Segundo, porque ciclos curtos com entrega mensurável são a única forma honesta de testar se a lógica da Plataforma é robusta ou se ela é mais um projeto bonito que não sobrevive ao contato com a realidade.

A verdade é que nenhuma proposta — por mais bem elaborada que seja — sabe se vai funcionar antes de funcionar. O valor da Plataforma não está no documento que a descreve. Está no primeiro piloto validado, na primeira solução adotada, na primeira replicação concluída. É aí, e só aí, que a convergência deixa de ser conceito e vira evidência.

Estevao Monteiro de Paula
Estevao Monteiro de Paula
Estevão Monteiro de Paula possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas (1979), mestrado em Engenharia de Estruturas na Escola de Engenharia de São Carlos pela Universidade de São Paulo (1981) e Ph.D. – University of Tennessee (1989) dos EUA. Membro da comissão de revisão da ABNT NBR 7190:1997 – Norma de Calculo e Estrutura de Madeira da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Exerceu atividades de Presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (órgão estadual de meio ambiente), Gerente do Centro Técnico Operacional de Manaus do Sistema de Proteção da Amazônia – SIPAM, Diretor Substituto do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e Coordenador Geral de Pesquisas do INPA. Representou o Estado do Amazonas em comissões técnicas no Peru e Alemanha. Coordenou projetos de pesquisas na área de uso e tecnologia de Madeira, entre outras funções como gestor público de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia.

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