Movimento negro no Brasil cobra justiça climática no combate ao racismo

A Conferência do Clima de Glasgow (COP26) foi um marco importante para o movimento negro brasileiro: pela primeira vez, representantes do grupo, através da Coalizão Negra por Direitos e outras articulações, participaram de maneira expressiva do evento. Mais do que simplesmente se fazerem presentes, lideranças afro-brasileiras aproveitaram a COP para impulsionar debates importantes na questão climática que nem sempre estão no cerne das discussões internacionais – as intersecções entre a mudança climática, a desigualdade racial e a vulnerabilidade social.

“Quando falamos de racismo ambiental estamos falando de populações negras, indígenas, no território brasileiro, que têm seus direitos violados a partir de políticas institucionais realizadas principalmente na área ambiental”, explicou o geógrafo Diosmar Filho para a Rede Brasil Atual. “Aqueles que são as vítimas de processos históricos de contaminação por indústria ou falta de saneamento. Que estão expostos à doença ou contaminação de rios. Aqueles que sofrem a perda de territórios para a mineração e barragens. Ou para a construção de portos que impactam diretamente a área de manguezais, onde tem população negra”.

“A periferia me torna um ativista climático a partir do momento em que olho ao meu redor e percebo o quanto estou imerso na desigualdade: quem são as pessoas que sofrem mais com uma enchente? Minha mãe, que depois de passar o dia inteiro limpando a casa de alguém foi obrigada a passar a noite em uma estação de trem para esperar o rio baixar. Eu estou falando sobre o nosso cotidiano”, comentou o ativista Marcelo Rocha a Nayara Fernandes no g1.

Rocha participou das manifestações de rua em Glasgow no final da primeira semana da COP, quando discursou para milhares de pessoas e pediu mais atenção dos governos aos setores sociais mais vulneráveis à crise climática.

A crise climática, assim, intensifica desigualdades que prejudicam a vida dos negros nas periferias e no interior do Brasil. “São regiões que têm maior proporção de domicílio em favela, com maior desemprego e vulnerabilidade de renda. [Elas] também têm a maior proporção de população preta e parda. Então, quando a gente fala de racismo ambiental, está muito relacionado ao local onde essas pessoas vivem”, explicou Paloma Lima, da Rede Nossa São Paulo, no jornal Agora.

“Não podemos ser demagogos ou sofistas. O Estado brasileiro precisa enxergar e agir para a implantação de políticas públicas pontuais e integradas em favor dos mais vulneráveis”, argumentou a assessora legislativa do Senado Federal Maria Isabel Sales em artigo no Correio Brasiliense. “Não é possível pensar em saneamento sem a proteção do meio ambiente, sem moradia decente, sem iluminação pública, sem saúde, sem comida nas panelas, sem educação, sem trabalho digno, sem enfrentamento das violências e outras barreiras”.

Fonte: ClimaInfo

Redação BAA
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Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

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