Maior desmatador da Amazônia acumula novas multas e mantém histórico de impunidade

Multado repetidamente, empresário de Mato Grosso, conhecido como maior desmatador, permanece sem pagar penalidades por crimes ambientais

Maior desmatador
Foto: Reprodução/Redes Sociais

O pecuarista Édio Nogueira, conhecido como o maior desmatador da Amazônia, continua a acumular multas milionárias por infrações ambientais, sem quitar as penalidades impostas. O empresário foi destaque em uma reportagem da VEJA de julho de 2020 que revelou a devastação de quase 24 mil hectares de floresta nativa em sua propriedade, a Fazenda Cristo Rei, no Mato Grosso. Quase cinco anos depois, as multas seguem sem pagamento, e Nogueira enfrenta novas acusações.

Entre agosto de 2019 e julho de 2020, Nogueira liderou o ranking de desmatadores da Amazônia com multas aplicadas pelo Ibama que somavam 50 milhões de reais. Além disso, ele foi multado em 2 milhões pelo uso indevido de agrotóxicos. No entanto, desde então, nenhuma das penalidades foi quitada, revelando o que muitos consideram uma falha no sistema de fiscalização e cobrança de multas ambientais no Brasil.

Em julho de 2023, em uma tentativa de amenizar as penalidades e evitar mais problemas judiciais, Nogueira firmou um acordo com o Ministério Público de Mato Grosso. O empresário comprometeu-se a doar 10 mil hectares de sua terra para a criação de um parque natural no Pantanal, encerrando uma ação civil pública. O acordo foi recebido com entusiasmo pelas autoridades, que destacaram a importância do novo parque para a preservação ambiental e a mitigação das mudanças climáticas.

Segundo o promotor de Justiça Cláudio Angelo Correa Gonzaga, o acordo foi “benéfico para todas as partes, que colocou fim a uma demanda judicial complexa e que poderia se arrastar por mais de década até a efetivação do cumprimento de sentença”. A iniciativa visava regularizar as atividades produtivas de Nogueira e sua empresa, a Agropecuária Rio da Areia, enquanto promovia a criação de uma nova unidade de conservação no Pantanal.

No entanto, a tentativa de pacificação com o Ministério Público não impediu que novas infrações fossem cometidas. Dois meses após o acordo, a Agropecuária Rio da Areia foi novamente autuada, desta vez com multas que somam 14,5 milhões de reais. As novas acusações incluem a destruição de vegetação nativa no Pantanal e o uso continuado de agrotóxicos, violando normas ambientais.

A empresa também teve mais de 2,5 mil hectares de terras embargadas pelo Ibama. Assim como as multas anteriores, estas novas penalidades estão em fase de defesa e ainda não foram pagas.

A situação de Nogueira não é única. Dos dez maiores desmatadores listados na reportagem de 2020, nove continuam a recorrer contra as multas e não pagaram as autuações. O sistema de defesa administrativa permite que os acusados prolonguem indefinidamente o pagamento das penalidades, o que, na prática, impede a execução das multas.

O Ibama, responsável pela fiscalização e aplicação das autuações, enfrenta dificuldades para agilizar os processos e garantir que as multas sejam efetivamente cobradas. A situação é agravada pela falta de recursos e pessoal para realizar um acompanhamento mais rigoroso das áreas desmatadas.

A Fazenda Cristo Rei, epicentro de muitas das infrações de Nogueira, está localizada a apenas 18,5 quilômetros do Parque Nacional do Xingu, uma das áreas mais sensíveis da Amazônia. Mesmo com essa proximidade, a devastação ambiental continua, prejudicando a fauna e flora locais.

Outro caso de imprudência ambiental

A devastação ambiental no Brasil não é um fenômeno exclusivo da Amazônia. O Pantanal também enfrenta grandes desafios com relação à destruição de vegetação nativa, queima de áreas protegidas e impunidade dos responsáveis. Um caso recente envolve o advogado Luiz Gustavo Battaglin Maciel, multado em R$ 50 milhões pelo Ibama devido a um incêndio recorde em sua propriedade rural, localizada em Corumbá (MS). A fazenda de Maciel foi o ponto de origem de um incêndio que destruiu cerca de 333 mil hectares de vegetação nativa, afetando 135 imóveis rurais.

A multa milionária foi aplicada após uma investigação de mais de 20 dias, que comprovou que o fogo havia começado dentro da propriedade de Maciel. O incêndio se intensificou por conta das condições climáticas extremas e demorou 110 dias para ser controlado, causando danos ambientais severos e afetando diretamente a fauna e flora locais.

A tragédia se soma a outras queimadas recorrentes no Pantanal, exacerbadas pelas mudanças climáticas, que tornam a região ainda mais suscetível a incêndios descontrolados. Em 2024, mais de 11 mil focos de incêndio foram registrados no bioma, segundo o Inpe, aumentando as preocupações com a preservação de uma das maiores planícies alagáveis do mundo.

O governo federal, por meio do Ministério da Justiça e Segurança Pública, propôs um projeto de lei para endurecer as penas para quem for responsabilizado por incêndios florestais. A proposta eleva a pena básica de prisão de três a seis anos, podendo chegar a 18 anos em casos mais graves. A medida busca frear a impunidade que tem caracterizado muitos dos crimes ambientais no Brasil, como os cometidos por grandes proprietários rurais na Amazônia e no Pantanal.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Economia do Amazonas recupera o fôlego e PIM chega a R$ 143 bilhões – Parte I

O Painel da Economia Amazonense registra reação da atividade em julho, impulsionada pela indústria. O faturamento cresce, as motocicletas ampliam a produção e os condicionadores de ar ensaiam recuperação, embora os indicadores acumulados ainda revelem perdas.

Quem não tem competência não se estabeleça

"O Brasil precisa de uma Presidência capaz de reunir...

Estiagem exige que o Amazonas transforme contingência em política permanente

Ao reunir operadores portuários, aeroporto e Receita Federal, o CIEAM amplia uma discussão que precisa alcançar o planejamento e o orçamento estadual. As secas recentes e os cenários para 2026 justificam soluções de longo prazo para a indústria e as comunidades do interior.

O voto e a responsabilidade de representar

A liberdade de escolher nossos representantes exige atenção à...