Recrutados por garimpeiros ilegais, muitos indígenas Munduruku foram atraídos pela promessa de renda rápida diante da falta de alternativas sustentáveis e políticas públicas eficazes nas aldeias
Dificultando esforços de preservação, indígenas Munduruku passaram a minerar suas próprias terras na Amazônia brasileira por uma combinação complexa de pressões externas, ausência do Estado e necessidades econômicas. Recrutados por garimpeiros ilegais, muitos foram atraídos pela promessa de renda rápida diante da falta de alternativas sustentáveis e políticas públicas eficazes nas aldeias.
Essa realidade tem dificultado os esforços do governo para combater o garimpo ilegal, que já causou impactos graves, como contaminação por mercúrio, doenças, violência e até mortes dentro das comunidades. Embora ações de desocupação tenham conseguido, até certo ponto, reduzir a atividade mineradora, organizações Munduruku expressaram ao portal Mongabay o receio de que os garimpeiros retornem assim que as forças de segurança se retirarem da região.

“Hoje, todos os movimentos diminuíram, inclusive a presença de homens brancos, tanto nos garimpos quanto nas aldeias”, disse por e-mail Hidelmara Kirixi, da Associação de Mulheres Munduruku Wakoborũn, ao Mongabay. “No entanto, há outra preocupação: depois que as operações no nosso território terminarem, os garimpeiros brancos podem voltar porque alguns de nossos próprios parentes Munduruku podem pedir para que eles voltem. Isso pode acontecer novamente, como já ocorreu em anos anteriores.”
Segundo organizações locais, acordos entre indígenas e garimpeiros raramente são cumpridos, e os ganhos são mínimos diante da destruição ambiental e social causada nas terras nativas.
Mineração em terras indígenas é sempre ilegal?
Alisson Marugal, procurador da República responsável pelo caso Yanomami, explicou que, embora a mineração industrial com uso de maquinário seja sempre ilegal, há controvérsias quanto ao garimpo artesanal. Ele disse ao Mongabay que já houve casos em que a Justiça permitiu esse tipo de atividade por indígenas.
Desde o início da Operação de Desocupação da Terra Indígena Munduruku, em novembro de 2024, agentes do governo realizaram 523 ações, destruíram 90 acampamentos, 15 embarcações, 27 máquinas pesadas e 224 motores. O esforço coordenado, que envolve o Exército Brasileiro, Polícia Federal, Ibama, Funai e outros órgãos, causou prejuízos de 112,3 milhões de reais aos criminosos.

O recrutamento de indígenas por garimpeiros ocorre com frequência desde o final dos anos 1950, quando os primeiros garimpeiros descobriram ouro no norte do Território Indígena Munduruku. A atividade aumentou nos anos 1980, junto com a participação dos Munduruku, que às vezes eram contratados pelos garimpeiros ou, em alguns casos, abriam seus próprios garimpos.
Falta de perspectiva
Nos anos 1980, muitos indígenas Munduruku se uniram contra a mineração e expulsaram os garimpeiros. Mas, segundo João Kaba Munduruku, coordenador da Associação Indígena Pusuro, que apoia sete aldeias Munduruku no Médio Tapajós, é impossível voltar ao que era antes da mineração “por causa do desenvolvimento que os não indígenas trouxeram”, o qual mudou suas vidas para sempre.
“A visão dos jovens, quando não têm uma fonte de renda, é ir trabalhar no garimpo”, afirmou. “No território Munduruku, não há projeto sustentável que gere renda.”

Para mudar o cenário
Muito do discurso dos garimpeiros que incentivam a parceria com os indígenas Munduruku envolve a garantia de que são a solução para sair da pobreza, e que nenhum outro grupo ou órgão do governo pode ajudá-los. Entretanto, na prática, as mudanças prometidas não acontecem e os modos de vida tradicionais também são ameaçados, pois os garimpos destroem locais de caça, pesca e coleta de alimentos.
Agora, as lideranças reforçam um apelo urgente: além da repressão ao garimpo, o Estado deve investir em projetos sustentáveis, infraestrutura básica e reparação pelas décadas de descaso. “Não basta tirar os garimpeiros. É preciso garantir que nunca mais voltem, oferecendo condições reais para o nosso povo viver e proteger a floresta”, resume a líder Hidelmara Kirixi.
A matéria completa pode ser acessada no site Mongabay, em inglês, clicando aqui.
