Flávio promete liberdade sobre a terra e põe em risco a segurança de quem produz

Em Marabá, no sudeste do Pará, Flávio Bolsonaro anunciou uma liberdade que nenhum presidente pode entregar sem confrontar direitos coletivos e deveres constitucionais. “Você vai poder plantar, criar gado, vai fazer o que quiser na sua terra”, declarou em 19 de outubro. Na mesma manifestação, prometeu eliminar restrições ambientais que atribuiu a razões ideológicas. Ao tratar a proteção ambiental como obstáculo à vontade do proprietário, o candidato apresentou uma orientação de governo cujas consequências ultrapassam qualquer cerca. (oeco.org.br⁠)

Flávio promete liberdade
Imitando o pai, Flávio Bolsonaro promete acabar com “entraves ambientais”. Foto: Vittor Sales/Divulgação campanha de Flávio

A gravidade está justamente nessa passagem entre a propriedade de uma área e a suposta liberdade de decidir sobre tudo o que acontece nela. Uma derrubada pode ocorrer dentro de uma fazenda, enquanto seus efeitos alcançam a água consumida por outras comunidades, a temperatura das propriedades vizinhas e as condições de produção de regiões inteiras. O benefício imediato pode ficar com quem explora. Uma parte expressiva do prejuízo será distribuída entre pessoas que jamais participaram da decisão.

Na Amazônia, esse descompasso assume dimensão nacional. A floresta participa da circulação de umidade, da regulação das chuvas e da estabilidade climática que sustenta atividades econômicas muito além da região. Prometer liberdade irrestrita para suprimi-la significa expor a riscos a própria capacidade de plantar, criar e colher que o candidato afirma defender.

A Constituição assegura a propriedade e exige que ela cumpra sua função social. No caso rural, essa função inclui o aproveitamento racional, a utilização adequada dos recursos naturais e a preservação ambiental. O artigo 225 estabelece o direito coletivo ao meio ambiente equilibrado e o dever de protegê-lo para as gerações presentes e futuras. A Amazônia brasileira recebe proteção expressa como patrimônio nacional. São compromissos do Estado, aplicáveis a qualquer governo. (planalto.gov.br⁠)

Uma declaração de campanha não revoga essas garantias. Tampouco permite concluir que toda a legislação ambiental seria automaticamente anulada. O que ela oferece, entretanto, é um sinal político de disposição para enfraquecer os limites à exploração. Esse sinal merece atenção porque o próprio candidato já tentou alterar uma das principais proteções da vegetação nativa em imóveis rurais.

Em 2019, Flávio Bolsonaro e Márcio Bittar apresentaram o Projeto de Lei 2.362, que propunha revogar o capítulo do Código Florestal dedicado à reserva legal. O projeto foi retirado pelos autores e arquivado naquele mesmo ano. A tentativa, porém, está documentada no Senado e dá conteúdo à promessa feita agora. A crítica aos limites ambientais possui um antecedente legislativo concreto. (legis.senado.leg.br⁠, www25.senado.leg.br⁠)

O candidato deve explicar quais proteções pretende retirar, quais atividades seriam dispensadas de controle e quem assumiria a responsabilidade pelos danos. Expressões genéricas sobre liberdade de produzir encobrem decisões que precisam ser discutidas com precisão.

A floresta devolve água à atmosfera pela evapotranspiração e participa do transporte de umidade. Sua remoção, combinada com o aquecimento e o fogo, pode alterar o regime de chuvas e aumentar o estresse hídrico. Uma síntese científica publicada na Nature, em 2024, mostrou como essas pressões se reforçam e elevam o risco de mudanças profundas no funcionamento da Amazônia. Há incertezas sobre a extensão e o momento dessas transições, mas evidências suficientes para exigir prevenção. (nature.com⁠)

Para a agricultura, essa relação aparece no calendário de plantio, na disponibilidade de água, no calor suportado pelas plantas e na regularidade das colheitas. A expansão de uma área produtiva precisa ser avaliada junto com seus efeitos sobre as condições de produção das demais. A receita de uma safra não compensa necessariamente a perda de estabilidade das seguintes.

O produtor que preserva vegetação, recupera solo e investe em produtividade também tem razões para rejeitar uma política de permissividade. Ele depende de regras que impeçam o concorrente de obter vantagem econômica transferindo danos ambientais à coletividade. A fiscalização protege esse investimento e ajuda a preservar a reputação das cadeias produtivas.

No Amazonas, essa discussão alcança o chão de fábrica. O Polo Industrial de Manaus depende de rios navegáveis para receber insumos e distribuir mercadorias. A vulnerabilidade hídrica se converte em dificuldade logística, necessidade de estoques, atrasos e pressão sobre custos. O que se decide sobre a floresta entra na contabilidade de empresas que produzem motocicletas, eletroeletrônicos, medicamentos e bens de consumo.

Importacoes PIM ZFM
Volume de importações para o Polo Industrial de Manaus bate recorde de janeiro a agosto deste ano (Foto: Divulgação/Secom)

Essa é uma relação que o Brasil Amazônia Agora vem defendendo. A floresta em pé integra as condições materiais do desenvolvimento. Sua proteção precisa caminhar com emprego, indústria, ciência, manejo florestal e oportunidades para os municípios. Uma política de ocupação que ignora essas conexões pode consumir os ativos dos quais dependeria a prosperidade anunciada.

Entre 2018 e 2021, a taxa anual consolidada de desmatamento na Amazônia Legal passou de 7.536 para 13.038 quilômetros quadrados, um aumento de aproximadamente 73%, segundo o Prodes, do INPE. O indicador registra a dimensão da perda florestal durante a maior parte do governo Jair Bolsonaro, embora cada taxa corresponda a um período de monitoramento de agosto a julho. (antigo.inpe.br⁠, gov.br⁠)

Houve também decisões administrativas com efeitos demonstráveis sobre a capacidade de proteção. Em novembro de 2022, o Supremo Tribunal Federal determinou a reativação do Fundo Amazônia. A Corte concluiu que alterações promovidas desde 2019, incluindo a extinção de comitês, haviam impedido o financiamento de novos projetos e configurado omissão do governo em seu dever de preservar a região. (noticias.stf.jus.br⁠)

Esse episódio mostra como a proteção pode ser comprometida mesmo quando a legislação permanece formalmente em vigor. Basta impedir que instrumentos públicos funcionem, interromper o financiamento ou enfraquecer a execução das políticas. Por isso, o exame da promessa de Marabá deve alcançar também orçamento, fiscalização, capacidade técnica e autonomia dos órgãos ambientais.

O custo humano desse período precisa permanecer no debate. Na Terra Indígena Yanomami, a emergência sanitária reconhecida em janeiro de 2023 encontrou um território atingido pelo garimpo ilegal, pela contaminação por mercúrio e pelo comprometimento das fontes de alimentação. O Ministério da Saúde registrou também a fragilização do atendimento entre 2019 e 2022. A exploração predatória alcança corpos, alimentos e condições de sobrevivência. (gov.br⁠, bvsms.saude.gov.br⁠)

O risco externo exige igual clareza. O acordo comercial interino entre Mercosul e União Europeia tem aplicação provisória desde 1º de maio de 2026. A relação comercial está, portanto, entrando numa etapa em que previsibilidade e cumprimento dos compromissos assumidos têm consequências práticas para empresas e investimentos. (consilium.europa.eu⁠)

Segundo a Comissão Europeia, o Acordo de Paris constitui elemento essencial da parceria, com possibilidade de suspensão diante de violação grave ou abandono do compromisso climático. O acordo também estabelece compromissos ambientais e de combate ao comércio de produtos obtidos ilegalmente. (ec.europa.eu⁠)

A fala de um candidato não aciona automaticamente esses mecanismos. Uma política de retrocesso, contudo, pode gerar controvérsias, deteriorar a confiança e comprometer oportunidades comerciais. Esse é o risco econômico que precisa ser exposto. Quem produz dentro da lei pode acabar pagando pela orientação de um governo que trate os controles ambientais como algo dispensável.

O Brasil precisa de regularização fundiária capaz de dar segurança a quem tem direito à terra, acompanhada de verificação da origem das ocupações e respeito aos territórios protegidos. Precisa também de procedimentos eficientes, decisões técnicas e prazos previsíveis. A promessa de liberdade irrestrita deixa sem resposta justamente as questões que distinguem desenvolvimento duradouro de apropriação predatória.

Flávio Bolsonaro deve esclarecer até onde pretende levar sua declaração. Empresários, produtores, trabalhadores e instituições amazônicas têm razões concretas para cobrar essa resposta. Estão em jogo a segurança da propriedade, a continuidade dos negócios, a água que permite produzir e os direitos de quem vive no território.

O presidente eleito administrará responsabilidades sobre uma região cujos processos ecológicos sustentam parte da economia brasileira. Ao prometer que cada proprietário poderá fazer o que quiser, o candidato desconsidera essa interdependência e oferece uma liberdade cujo custo poderá recair sobre milhões de brasileiros, inclusive aqueles que acreditaram estar recebendo uma garantia de prosperidade.

Redação BAA
Redação BAA
Redação do portal BrasilAmazôniaAgora

Artigos Relacionados

Editorial BAA — Na hora de votar, escolha o Brasil

"O Brasil tem razões documentadas para rejeitar a volta...

EUA articula apoio militar ao Peru contra redes criminosas na Amazônia

Presença militar dos EUA na Amazônia envolve cooperação com o Peru, troca de inteligência e combate a cartéis e à mineração ilegal.

Incêndios na Amazônia se intensificam com El Niño, alerta NASA 

Incêndios na Amazônia avançam com a seca associada ao El Niño. NASA alerta para temporada prolongada.

Seca ameaça a navegação na Amazônia e eleva o risco de fogo no Pantanal

Seca na Amazônia reduz níveis dos rios, ameaça o abastecimento ribeirinho e pode se agravar com o El Niño, alerta especialista.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira seu comentário!
Digite seu nome aqui